Revista "MUNDO e MISSÃO"
Indígenas
por Irmã Laura Cantoni Para encontrá-la em Maués, é necessário ir à “Casa dos Estudantes Indígenas”, que está festejando 10 anos de caminhada. Verônica acompanha o dia-a-dia de 21 estudantes sateré, que aí se encontram para continuar os estudos, já que, na área indígena, a escola vai só até à 4.ª série. Encontro a irmã atrás da casa, entre os jovens que trabalham na horta e com a criação (coelhos, galinhas, patos, cutias, jacarés, jabutis...). Os rapazes aprendem horticultura, que ajuda no sustento e manutenção da casa, que também dispõe de pequena farmácia de remédios caseiros, preparados pela irmã Verônica, e muito apreciados pelo povo. APOSTOLADO “Quando as Missionárias da Imaculada chegaram a Maués, em 1969, os Sateré-Mawé pediram que lhes ensinassem português nas aldeias, a fim de que eles pudessem manter contato melhor com a sociedade envolvente. Assim, as primeiras irmãs: Stefania Berrini, Imelda Zandonadi e Paula Kumagai, começaram a lecionar na área indígena durante as férias. Cinco anos depois, irmã Stefania, irmã Rita Pasqua, irmã Adele Colombo, foram liberadas para, em tempo integral, formar uma pequena equipe de pastoral indigenista junto com os padres do PIME. Elas se ocuparam da evangelização, da educação e da saúde, formando professores e agentes de saúde indígenas. Quando cheguei, acompanhei a formação das lideranças, dos catequistas, a promoção da mulher. As viagens eram muito difíceis: horas e horas de barco a motor, muitas vezes de canoa e fazendo longas caminhadas a pé, na floresta, para chegar às comunidades nas cabeceiras dos rios. De lá para cá, a situação mudou muito: os sateré conseguiram a demarcação de sua área em 1982; aumentaram numericamente: de 2.500, em 1975, hoje são mais de 7.500 indivíduos; o Estado garante, embora com dificuldades, educação e saúde; as viagens são de canoa motorizada”. DESAFIOS
“As maiores dificuldades atuais – continua irmã Verônica – são o fantasma da fome e os efeitos negativos do contato com a modernidade, que afeta muito a cultura indígena tradicional. A TV, que está chegando às aldeias, introduz impraticáveis modelos de vida, que deixam um “vazio” na alma e na mente dos jovens. Eles já não aceitam a vida antiga. Sonham o sonho impossível de alcançar o estilo de vida ‘das novelas’. Consumismo, álcool, outros tipos de droga, festas imitando ‘os brancos’, estão sendo introduzidos na sua cultura; e essas influências trazem consigo a violência, as brigas e as separações familiares”. Enquanto irmã Verônica fala, aparece um tuxaua (cacique), que veio visitar o filho. A saudação se repete: “wako kahato” e irmã Verônica pede a um jovem que traga um suco, enquanto se senta à mesa e conversa com o visitante sobre a situação da aldeia. Logo depois, chega um catequista de outra comunidade e a cerimônia se repete. Está comprovado: a Casa dos Estudantes Indígenas é, de fato, o ponto de referência para os sateré que acorrem à cidade. Ela continua: “Dez anos atrás, os jovens sateré, que vinham estudar em Maués, hospedavam-se em casas de família, mas enfrentavam dificuldades nos estudos; muitos se perdiam no alcoolismo, entravam em galeras... Era um desafio evangélico para nós. Nossa resposta foi a criação deste espaço para acolher os jovens. Eles freqüentam as escolas públicas, e, nesta casa, são acompanhados e valorizados em suas tradições e identidade cultural. Seus pais confiam em nosso trabalho. Eu me sinto uma verdadeira educadora deles. Minha alegria é grande quando vejo os estudantes que saíram daqui engajarem-se em suas comunidades e se tornarem referência para os outros. Vários já terminaram o Ensino Médio e alguns gostariam de continuar a estudar”. Enquanto conversamos, entra irmã Rozângela Nunes dos Santos, que, desde 2002, acompanha a atividade pastoral na área indígena e, com irmã Paula, a Casa das Estudantes Sateré, também em Maués. Ela afirma: “Sentíamos que era necessário dar a oportunidade para as mulheres continuarem seus estudos. Hoje acompanhamos 10 jovens numa outra casa não muito distante”. Irmã Rozângela é da região amazônica, da zona rural de Macapá (AP), mas, também para ela, o trabalho com uma nação indígena é missão ‘fora dos próprios confins’. “Na relação com esse povo, é como se eu estivesse em outro País, pois os sateré têm língua e cultura totalmente diferentes da minha”, ela confessa. SEMEAR É PRECISO... Estamos no final da tarde. Os jovens sateré, cheios de energia, vão jogar bola. As irmãs olham para eles e comentam: “A missão entre eles está mudando, mas é ainda desafiadora: 500 anos de história violenta contra os índios não conseguiram acabar com eles. Ao contrário, eles ressurgiram com mais força e orgulho de sua identidade. Cresceram em número e desenvolveram a consciência grupal. Surgiram várias associações indígenas: de lideranças, de professores, dos agentes de saúde, de mulheres. Os professores estão cursando o nível superior e, com a ajuda da Universidade Federal da Amazônia, criam seus próprios textos. O guaraná sateré (um fruto típico do qual se prepara uma bebida fortemente energética) é apreciado e exportado ao mundo inteiro. Criaram-se grupos de dança, faz-se artesanato, existe um projeto de eco-turismo... É um universo dinâmico, em transformação, numa luta entre forças de morte e esperanças firmes. É um jogo de equilíbrio entre a ocidentalização e a revitalização cultural. Como missionárias, nossa caminhada ao lado deles não vai parar. Temos novos desafios e novas perspectivas de ação para que o povo Sateré-Mawé tenha “vida em abundância”. Vamos formar lideranças para a sua contínua atualização, desenvolver um trabalho direcionado para os jovens, acompanhar as famílias que vêm à cidade em busca de melhores condições de vida. No campo pastoral, a esperança está nos catequistas, que guiam as comunidades a uma evangelização sempre mais inculturada, que responda a seus anseios para uma fé vivenciada no dia-a-dia. Grande foi nossa alegria ao ver Timóteo, o primeiro seminarista sateré-mawé, voltar à sua aldeia para as férias, feliz em sua escolha vocacional. Nós semeamos; o que cresce pertence a Deus e ao futuro deste povo”. A congregação Missionárias da Imaculada, fundada em 1936 por irmã Josefina Dones e Josefina Rodolfi, sob a inspiração de dom Balconi, teve, desde suas origens, a decisiva presença do Pe. Paulo Manna, do PIME, que lhe transmitiu o entusiasmo junto ao trabalho dos seus missionários, com os quais ela sempre colaborou. Conheça melhor a instituição. |
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