Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas


Marcha Indígena, negra e popular em Coroa Vermelha, Bahia - Brasil

AMÉRICA LATENTE

Edson Martins

"...no meu entender, qualquer coisa sugerida é bem mais eficaz do que qualquer coisa apregoada. Talvez a mente humana tenha uma tendência a negar declarações."

Jorge Luís Borges

O livro Do Amor e Outros Demônios, de Gabriel García Márques, nasceu de um trabalho jornalístico que o autor realizou no início de sua carreira. Na falta de assuntos mais quentes, acabou visitando o antigo Convento de Santa Clara, na Colômbia, onde as criptas funerárias estavam sendo esvaziadas.

Este antigo convento transformara-se em um hospital em desativação em virtude de sua venda a um importante grupo econômico: em seu lugar seria construído um hotel cinco estrelas. O trabalho dos operários, segundo seu relato, era bastante rude, feito à base de picaretas e enxadas que abriam caminho para que pudessem ser retirados os restos mortais. Quando os mesmos pertenciam a algum notável, suas jóias eram retiradas, bem como os ossos, restando as cinzas. Depois disso, era feita uma catalogação para que fosse possível a identificação.

Sob um dos inúmeros golpes de picareta saltou uma imensa cabeleira reluzente, vermelha, cor de cobre, medindo mais de 22 metros. Esse fato, que impressionou muito a Márquez, inspirou sua obra que trata da história de Sierva Maria, personagem criada pelo autor e a quem atribuiu, em sua ficção, tal cabeleira.

Sierva era uma menina-mulher estranha, filha de um colono espanhol com uma nativa. O relacionamento do casal, praticamente, não existia, sendo marcado por traições e descaso; tratava-se, na verdade, de um casamento apenas oficial.

Sierva Maria, ao contrário, carregou por toda a vida o estigma da estranheza. As pessoas do local em que vivia (socialmente semelhantes à sua mãe ou ao seu pai) não a consideravam como uma pessoa normal; nem mesmo seus genitores a viam com naturalidade.

Essa estranheza transformou-se em perseguição, quando a menina foi mordida por um cão raivoso. Ela passou a ser considerada louca, sendo por isso perseguida e internada em um convento, onde era tratada como um animal.

Com o tempo, o rótulo de louca mudou de qualidade e ela passou a ser considerada endemoniada, passando por isso a ser exorcizada por um jovem padre. Os dois se apaixonam perdidamente e este amor será o sentido da vida de ambos, principalmente o dele.

É evidente que evitarei maiores detalhes, bem como o desenrolar dessa trama, uma provocação para que o leitor leia este livro realmente maravilhoso. No entanto, quero tomá-lo aqui como metáfora.

Mais uma vez, a América Latina apresenta em seus países uma gama de "tipos de crise", variando sua qualidade e intensidade de país a país. A situação do governo de Fox no México não é das mais confortáveis; no caso dos países do Mercosul, a crise econômica é acentuada e progressiva. Colômbia e Venezuela vivem verdadeiras crises institucionais e nem mesmo o todo poderoso Fidel Castro desfruta de toda a energia, sustentabilidade e unanimidade de outrora.

Há um motivo evidente para isso: a dependência externa, transformada em bomba-relógio em épocas de crise econômica mundial, como vivemos. Os mercados retraem-se, os recursos a serem investidos minguam e suas economias acabam desabando em cascata.

Este desabamento acaba se manifestando como crise política, econômica, institucional ou social, isso quando estas não aparecem articuladas, como normalmente ocorre.
Quero aqui superar esta explicação, que, na verdade, é conservadora, uma vez que, apesar de razoável, não nos levou ao novo, à possibilidade de transformação.

Ela, na verdade, apenas denuncia, quando deveria também anunciar, como diria o educador Paulo Freire. Acredito que os discursos de esquerda no continente, desde os anos cinqüenta, têm repetido essa explicação e, definitivamente não nos levaram à superação de nossa condição, independente de possíveis boas intenções.

As soluções propostas nesse sentido têm sido quixotescas e resultaram mais em histeria do que em liberdade e justiça. Há também o discurso mais tradicional, dito "de direita". É aquele que atribui as freqüentes instabilidades latino-americanas a uma natureza mestiça e "preguiçosa" do seu povo, apontando sempre para soluções, "modernizadoras", tais como abertura do continente aos mercados mundiais e restrição das políticas de tutela.

A estereotipada imagem do "mexicano de sombrero", tão repetida em filmes e desenhos norte-americanos, representa fielmente essa perspectiva. Trata-se, portanto, de um duplo engano, cada qual colocado sob um prisma: o do quixotismo e o do modernismo, sendo um de esquerda e o outro de direita; ambos, em grande parte, são fruto de uma idealização européia ou norte-americana a respeito dos latino-americanos, idealizações estas que, tantas vezes, acabamos adotando.

No entanto, no fundo dessa dicotomia quase cármica, uma vez que ambas as perspectivas são fatalistas e absolutas em si mesmas, há elemento comum: são elaboradas e alimentadas por elites locais, sejam elas culturais, econômicas, políticas, sociais ou intelectuais. Essa elite fragmentada, herdeira dos antigos chefes coloniais, procura impor seus modelos no continente há séculos, mesmo em discursos pretensamente progressistas.

Sua dificuldade em assumir-se como efetivamente latino-americana cria obstáculos à manifestação mais explícita da identidade local, presente nos guetos, nas montanhas, nos campos, nas favelas, em todas as resultantes do processo permanente de criação cultural e étnica que marca a identidade regional.

Esses segmentos, quando aparecem ou são requisitados, recebem sempre (principalmente por parte da mídia) o papel de apêndice, de excentricidade, algo sempre fora da dimensão do político e mesmo do histórico. Trata-se, no limite, da própria negação da condição humana.

Por isso, quando surgem movimentos como os de luta pela terra, messiânicos, zapatistas, "indígenas", de marginalizados urbanos ou mesmo de "cocaleros", como ocorre atualmente na Bolívia, o espanto é imediato. A qual ideologia respondem? Que visão de progresso possuem? Como vão lidar com o Estado? Querem tomar o poder?


Manifestação na Guatemala, exigindo justiça pelos massacres durante 36 anos de guerra civil

Não há como responder a essas perguntas, pois sua lógica é outra. Nossas elites são como os pais da menina da história de Márquez, ou como os agentes do referido grupo econômico que decidiu desativar um hospital para levantar um hotel. O sentido do modelo "moderno", dominador, dito progressista não responde à massa da população e da cultura latino-americana.

Essa massa é a própria Sierva Maria. Causa estranhamento quando aparece, seus códigos são outros, suas atitudes assustam. Não por acaso, esses movimentos são freqüentemente tidos como lunáticos e por isso encarcerados; tidos como endemoniados e por isso são sacrificados. No entanto, cultivam um tipo de amor redentor, salvador, criador, "da terra".

Em época de indefinições políticas e econômicas como as atuais, é importante lembrar-se do exemplo de Sierva Maria...ela quem mesmo quando enterrada, continuou viva, fazendo crescer sua maior marca. Quando menos se espera, surge sua cabeleira reluzente e vermelha, não pelas tintas da bandeira ou do sangue derramado, e sim pelo reflexo permanente da luz do sol.

Edson Martins é cientista social, professor e
consultor do IEE/Puc São Paulo e Instituto Paulo Freire.
E-mail: martins_edson@zipmail.com.br

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar