Revista "MUNDO e MISSÃO"
Indígenas
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por pe. Joaquim Gonçalves,
Ilegalidade e impunidade já fazem parte da rotina das relações sociais dentro do Estado de Roraima. Os governantes e o poder público omitem-se perante situações gritantes de injustiças e de abuso de poder. A mídia nacional não escuta os gritos e gemidos de um povo remetido à exclusão. É raro encontrar um cidadão na rua que saiba da existência de um Estado chamado Roraima. Como se não fizesse parte do Brasil. Daí a razão do nome que foi dado à campanha. Roraima, por ser o Estado da fronteira norte do Brasil, desde sua criação, passou por numerosas dificuldades de desenvolvimento, dado o seu isolamento geográfico. O regime militar, na década de setenta, idealizou uma ocupação rápida do ainda Território Federal, com o lema "integrar para não entregar". Numerosos brasileiros, sobretudo maranhenses pobres e lutadores, foram atraídos e, logo em seguida, abandonados à sua própria sorte. Serviram de moeda de troca para constituir o Estado de Roraima, na década de 90. É importante destacar que o Estado detém uma expressiva concentração indígena. São 46 mil, organizados em diversos povos: macuxi, uapixana, ingaricó, taurepangue, patamona, uaiuai e ianomami. Nas últimas décadas, Roraima viveu sucessivos conflitos entre indígenas, fazendeiros, garimpeiros, empresários e políticos. Nesse período, os povos indígenas puderam contar apenas com o apoio de aliados externos na defesa de suas terras e de suas culturas, sobretudo os missionários e as forças eclesiais locais, muitas vezes acusadas pelas elites de estarem a serviço de interesses estrangeiros. Quem não se lembra da campanha "Uma Vaca para o Índio", da qual até o Papa João Paulo II participou com seu donativo pessoal? A atual campanha é promovida pelo Conselho Indígena de Roraima, pela Comissão Pastoral da Terra, pela Cut local, pela Sociedade Missionária Consolata, pelas várias Pastorais Sociais da Diocese e pelo Centro de Defesa de Direitos Humanos. OBJETIVOS A Campanha visa a três grandes objetivos: a demarcação das terras indígenas, a questão rural e a concentração de excluídos nas áreas urbanas. Sobre a demarcação, é urgente:
Sobre a questão agrária e urbana:
A Campanha tem também seu aspecto pedagógico. Através da informação, de debates, de eventos, de palestras, pretende-se desenvolver uma nova consciência de convívio social e de solidariedade que conduza a um maior respeito pela alteridade cultural, pelos recursos naturais, pelo meio ambiente e contribua para que o desenvolvimento rural e industrial se realize em clima de justiça social, para o bem de todos os cidadãos. Dificuldades e avanços
No fim de maio, o CIMI informou que o governador do Estado de Roraima, Flamarion Portela, poderia impedir a homologação das áreas indígenas. E acrescentou: "O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, prometeu para este semestre a homologação final da área indígena de Raposa, Serra do Sol, em Roraima. A epopéia por Raposa se arrasta desde 1917, e é considerada a principal reivindicação do movimento indígena na atualidade. O receio dos indígenas é que Raposa seja homologada não em área contínua mas "em ilhas". Em março, o governador de Roraima, Flamarion Portela, filiou-se ao PT e a imprensa noticiou que teria condicionado a filiação e o apoio da bancada de três senadores e oito deputados do Estado à não homologação de Raposa. Indígenas e indigenistas locais ajudaram a fundar o PT e votaram em Lula em todas as eleições (foi nas áreas indígenas que o PT obteve, proporcionalmente, as maiores votações na eleição presidencial). A não homologação de Raposa, em sua integridade, é vista não apenas como uma traição aos princípios do PT, como um retrocesso na política indigenista, pior do que no governo FHC e no regime militar". Logo a seguir, o ministro Márcio Tomaz Bastos veio a público anunciar sua deslocação ao Estado para se encontrar com políticos e com todas as lideranças, afirmando que viajaria por própria iniciativa e numa atitude isenta, quase que uma "vistoria " judicial. De fato, viajou para Boa Vista na segunda semana de junho. Discutiu os problemas com todo o mundo. Encontrou-se com 3 mil indígenas na área Raposa Serra do Sol, onde recebeu das mãos de Jacir de Souza, responsável pelo CIR, vários documentos, entre eles cerca de dez mil assinaturas do abaixo-assinado promovido pela campanha; encontrou-se com todas as organizações que promovem a campanha, inclusive com representantes da OAB local; almoçou com 118 indígenas ianomami. Mas, depois de seu regresso a Brasília, fez silêncio novamente. Sabemos que deputados e senadores, que são contra a homologação, dão todo respaldo ao governador para transitar no Congresso, no Senado e no Palácio do Planalto. O medo parece querer crescer e a esperança diminuir, mas a Campanha "Nós Existimos", unidos pela vida e contra a impunidade, vai continuar, cada dia com mais força. A coleta de assinaturas no abaixo-assinado vai continuar, como gesto de solidariedade e de participação efetiva. Os novos caminhos da Evangelização passam também pelo envolvimento da Igreja nas questões sociais, da solidariedade e da transformação social, para que "novos céus e nova terra" sejam como um sonho em concretização constante. |
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