Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Europa

Por que o papa não vai à RÚSSIA

Alberto Garuti

Durante a recente visita do presidente russo Putin ao Vaticano, em 5 de junho, muitos esperavam que ele convidasse o papa João Paulo II para uma viagem a Moscou. Embora o encontro se tivesse desenrolado num ambiente muito amigável, o convite não veio. Quais as razões?

No período que seguiu imediatamente o comunismo, Gorbatchov e Ieltsin esforçaram-se para levar a Rússia a se inserir entre os países desenvolvidos do Ocidente. Uma das condições para essa abertura foi a liberdade religiosa que permitiu que muitas Igrejas se reestruturassem e voltassem aos níveis que tinham antes da revolução de 1917.
A Igreja católica também conseguiu reconstruir suas estruturas eclesiais em todo o território da antiga URSS, mas sua presença continua de extrema minoria: meio milhão de católicos, dos quais só 50 mil freqüentam regularmente as igrejas, numa população total de 150 milhões que, em sua grande maioria, pertencem à Igreja ortodoxa.
Os obstáculos para a visita do papa à Rússia vêm justamente da cúpula desta Igreja, não do governo, e são dois:

· a acusação de proselitismo feita à Igreja católica;
· a situação que se criou na Igreja da Ucrânia, hoje república independente mas, antigamente, parte da U.R.S.S.

A acusação de proselitismo

Durante a dominação comunista, o governo exerceu um controle total sobre a Igreja ortodoxa, a única que podia funcionar. Um adulto que quisesse o ba-tismo deveria lançar essa informação até em seu passaporte. Qualquer pessoa com bom preparo intelectual que quisesse seguir a vida religiosa enfrentava grandes dificuldades na profissão. Por isso diminuíram o grau de preparo intelectual e o número dos sacerdotes ortodoxos...
A perestroika de Gorbatchov, nos anos 80, despertou um grande interesse dos russos pelos assuntos religiosos. Milhares deles quiseram ser batizados e várias Igrejas, especialmente cristãs das mais diferentes denominações, aproveitaram-se da liberdade concedida e se fizeram presentes no país, sobretudo seitas pentecostais de origem americana que enviaram muitos missionários amparados por dinheiro e estratégias de marketing. Os ortodoxos não estavam preparados, nem numérica nem intelectualmente, para enfrentar a situação e essa concorrência. Eles começaram a ter medo das Igrejas mais organizadas, entre as quais se inclui a Igreja Católica, e de certas idéias que essas Igrejas começaram a difundir, por exemplo, a do ecumenismo.
Apoiada por partidos conservadores de direita, aos poucos, a Igreja ortodoxa se aproveitou do sentimento nacionalista que surgiu no povo russo para compensar a perda de influência em campo internacional, e foi se apresentando como símbolo da nação e como elemento de coesão nacional, que poderia ser ameaçada pelas numerosas seitas e igrejas vindas do exterior. O povo aceitou essa imagem da Igreja ortodoxa: para a maior parte dos russos ela é parte integrante de sua história.
O nacionalismo da Igreja ortodoxa chegou a tal ponto que, em novembro de 1999, defendeu a intervenção militar russa na Chechênia, que causou um verdadeiro massacre na população civil, e que foi condenada pelo mundo inteiro. Disse o patriarca Aléxis II, de Moscou, que a solução da crise chechena não era possível sem antes ter restabelecido a lei e a ordem. Reforçada sua imagem perante o povo, os ortodoxos partiram para o ataque contra as outras religiões que começaram a ser acusadas de proselitismo, isto é, de investir muito dinheiro para fazer conversões em massa para suas Igrejas.
O governo também tomou o partido da Igreja nacional e criou dificuldades para as demais igrejas, a última sendo uma lei, aprovada pelo congresso, que dificulta o ingresso e a autorização para elas atuarem em território russo.

A questão da Ucrânia

Outro problema está criando tensões entre a Igreja ortodoxa e o Vaticano. Trata-se do problema dos ortodoxos da Ucrânia, agora república independente, mas que durante a dominação soviética fazia parte da URSS. É um problema de mais de cinco séculos. Durante o Concílio de Florença, em 1439, Isidoro, arcebispo metropolita de Kiev, capital da Ucrânia, responsável pela Igreja ortodoxa de toda a Rússia, resolveu promover a união da Igreja ocidental e da Igreja oriental, isto é, da Igreja ortodoxa com a Igreja católica. Essa união durou cerca de oitenta anos e, em seguida, houve de novo a separação. Mas o desejo de unidade permaneceu sempre vivo na Ucrânia e se concretizou em 1596, quando os bispos ucranianos dependentes do metropolita de Kiev, assinaram a "União de Brest" (cidade onde estavam reunidos). Eles reconheciam a autoridade do papa e voltavam a se unir à Igreja católica. O papa, por sua vez, garantiu que pudessem conservar sua língua nas funções litúrgicas, seus ritos e as leis que tinham seguido até o momento, como por exemplo a possibilidade de os padres contraírem matrimônio. Exatamente o que acontece com os católicos gregos.
Durante a dominação comunista, essa Igreja ucraniana católica de rito grego foi abolida e os fiéis (quatro milhões) foram obrigados a entrar na Igreja ortodoxa. Parte deles aceitou a situação e se uniu aos ortodoxos, e parte viveu seu cristianismo na clandestinidade e nas catacumbas, enfrentando muitas vezes prisão e martírio. A situação durou até 1991, quando a liberdade foi restituída à Igreja ucraniana católica de rito grego.
Sob o regime soviético, todos os bispos greco-católicos foram aprisionados e todos os bens da Igreja foram confiscados e cedidos pelo governo à Igreja ortodoxa.

Testemunhos de católicos ucranianos

Duas mulheres ucranianas, Olga e Irina, lembram muito bem a situação daquele tempo. "Nós freqüentávamos a Igreja ortodoxa, porque não havia outra possibilidade, mas minha avó, diz Irina, dizia sempre: 'Lembre-se de que somos católicos, mas não diga isso para ninguém". Olga diz: "Meu pai, já em 1980, saíra da Igreja ortodoxa e participava de celebrações grego-católicas que se realizavam às escondidas nas casas. Mudavam sempre de lugar para não serem descobertos. Uma vez vieram os ortodoxos e ameaçaram queimar a nossa casa".
Isso não quer dizer que a vida fosse fácil para os ortodoxos. O povo podia freqüentar a igreja, mas não se engajar muito com ela. Quem fizesse isso podia, por exemplo, não achar vaga na universidade ou não progredir em seu emprego.

Atritos entre os duas Igrejas

Os atritos entre a Igreja greco-católica e a ortodoxa começaram quando, depois da queda do regime soviético, se tratou da devolução dos bens (igrejas, casas e terrenos) que antigamente pertenciam à Igreja católica e que, depois do seqüestro pelo governo comunista, foram entregues à ortodoxa.
Agora, depois de vários anos de tensões, a questão da devolução dos edifícios de culto quase terminou, mas alguns problemas continuam. Por exemplo, em algumas aldeias onde existe uma só igreja e duas comunidades, ortodoxa e católica, os ortodoxos não aceitam que ela seja utilizada alternadamente, pois consideram os católicos "hereges". O ecumenismo é visto ainda como um perigo e não como um valor, pois tanto ortodoxos como católicos dos países que antes formavam a URSS praticamente não viveram o Vaticano II.
Nesse ambiente de desconfiança recíproca, os ortodoxos têm medo dos católicos porque eles, em geral, são mais preparados teologicamente e porque a Igreja católica tem mais atividades sociais que a ortodoxa, o que ajuda a atrair fiéis para si.
Essa situação também apresenta uma dificuldade para a ida do papa a Moscou. Indo à Rússia ele não poderia deixar de visitar a Ucrânia, país limítrofe. Suas viagens são sempre pastorais, isto é, ele vai em primeiro lugar para visitar os fiéis de um determinado país. Não teria sentido ele visitar a Rússia, onde os católicos são muito poucos, e deixar de lado a vizinha Ucrânia onde são mais de 5 milhões. Acontece que os bispos católicos daquele país já convidaram o papa várias vezes, mas o presidente nunca o fez, pois ele sabe que se há muitos que querem ver o papa na Ucrânia, há muito mais que não gostariam de sua visita: os ortodoxos.
É justamente esse catolicismo, de rito grego e oriental, que manteve sua língua, suas tradições e sua legislação que preocupa os ortodoxos muito mais que o catolicismo latino, ocidental, europeu. O primeiro está bem mais perto da alma russa e poderia atrair muitos ortodoxos, especialmente intelectuais. Esse medo dificulta muito o diálogo religioso entre as duas Igrejas.
Por isso tanto o presidente da Rússia, Putin, mais aberto ao ocidente como o da Ucrânia, ainda não fizeram ao papa o convite para que visitasse seus países: não querem indispor-se com a poderosa Igreja Ortodoxa.

UCRÂNIA

· POPULAÇÃO: 50,7 milhões
· ÁREA: 604 mil km2
· CAPITAL: Kiev (2,6 milhões)
· RELIGIÃO: na Ucrânia existem cinco confissões cristãs: três ortodoxas e duas católicas.

Há 15 milhões de ortodoxos divididos em três Igrejas:

· a que depende do patriarcado de Moscou (12,4 milhões)
· o patriarcado de Kiev (2 milhões)
· e a Igreja ortodoxa independente (600 mil)

Os católicos se dividem em:

católicos de rito latino (uma minoria, em geral de origem polonesa) e os grego-ortodoxos (5,5 milhões), descendentes dos que, em 1595, se uniram novamente à Igreja católica.
Parte dos padres desta Igreja, durante a dominação comunista, foram ordenados e viveram na clandestinidade, trabalhando de dia e exercendo de noite seu ministério e enfrentando a perseguição do regime comunista. Não fizeram estudos regulares de teologia no seminário, não conhecem suficientemente o Vaticano II e a nova teologia. Outra parte são católicos que, durante o regime soviético, não havendo outra possibilidade, entraram nos seminários ortodoxos e foram ordenados pelo patriarca ortodoxo de Moscou. Conhecem melhor a teologia que os do outro grupo, mas são acusados por eles de ter aceitado a situação fugindo das perseguições.
Até entre os próprios católicos de rito grego há várias tensões.

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