|

O
relatório 2003 da AIS - "Ajuda à Igreja que sofre"
apresenta um dramático quadro das perseguições físicas,
limitações políticas e jurídicas que restringem
os direitos dos
cristãos em vários países islâmicos, na China
e até na Europa
por Ernesto Arosio
ublicado
recentemente, o relatório refere-se a 2002, lembrando-o como um
ano trágico para a liberdade religiosa: 938 cristãos foram
mortos; 629, feridos e 100.345 foram presos. Estes números resultam
de perseguições físicas, restrições
administrativas ou ações legislativas que limitam e até
proíbem a liberdade religiosa, um dos mais fundamentais direitos
do cidadão na sociedade moderna. O relatório da "Ajuda
à Igreja que Sofre" - AIS - nos permite ver não
somente o perfil dos países em sua ação repressiva,
mas também analisar os progressos e prever os retrocessos da liberdade
religiosa e do respeito à cidadania.
Ao traçar uma radiografia de todas as religiões, ele mostra
claramente que a mais perseguida é a cristã, em particular
a católica, cujos fiéis sofrem perseguição
e morte, por professarem a própria fé. Outra preocupação
é a perseguição sub-reptícia que cresce contra
o cristianismo e se baseia em novas leis que impõem restrições
administrativas para rebaixar os cristãos e os católicos
a cidadãos de segunda categoria. Isso acontece até em países
europeus, como a Bielo-Rússia, a Ucrânia e a Romênia,
dependendo do governo que estiver no poder.
Essas restrições são aplicadas, sem disfarces, nos
países islâmicos onde a sharia, interpre-tação
fundamentalista do Islã, torna-se norma constitucional que limita
os direitos das Igrejas e persegue os cristãos que praticam publicamente
sua fé. Em outros países, o caminho é mais sutil
para chegar às mesmas conclusões. Na China, no ano passado,
sob a aparência democrática, foram emitidos novos regulamentos
para bispos e comunidades, visando destruir a dimensão apostólica
e sacramental, tentando reduzir a Igreja da China, especialmente a não-patriótica,
a uma Igreja autônoma, mas, na realidade, autômata, submissa
ao poder central do governo.
Pe. Bernardo Cervellera, do Pime, diretor do noticiário "Asia
News", demonstra-se bastante preocupado diante da aproximação
entre a Igreja patriótica e a Igreja clandestina. O fato desagrada
ao governo central, que aumentaria seu desprezo pela Igreja clandestina
e pelos bispos não alinhados ao governo. Com os novos regulamentos,
pe. Cervellera não descarta a hipótese de uma nova perseguição
contra os católicos.
Países
onde a religião
está na mira dos governos
- Bielo-Rússia ou Belarus: O presidente Lukashenko promulgou,
recentemente, uma lei definida como a mais repressiva de toda Europa,
reconhecendo somente a ortodoxia como religião de Estado.
- Cuba: Persistem as restrições para construir
igrejas e o Partido Comunista de Fidel Castro exortou seus membros a
se oporem à crescente influência da Igreja católica.
A repressão atinge todas as religiões.
- Afeganistão: Apesar da derrota dos fundamentalistas
e do compromisso do governo provisório de introduzir a liberdade
religiosa, há um retorno à aplicação da
sharia, intolerante contra outras religiões.
- Arábia Saudita: Há uma repressão aberta
contra os xiitas e cristãos. Em 2002, foram numerosos os casos
de prisão e expulsão de trabalhadores cristãos
estrangeiros. Cerca de 600 mil pessoas foram acusadas de participar
ou organizar cultos religiosos não-islâmicos.
- China: Conforme o ex-presidente Jang Zemin, o controle das
religiões é essencial para defender a segurança
nacional. Numerosas foram às detenções de católicos
e seguidores do Falun Gong.
- Coréia do Norte: O único culto permitido e incentivado
é ao ditador. Todas as manifestações de outras
religiões são reprimidas com violência.
- Índia: Preocupa a imposição dos ensinamentos
do hinduísmo nas escolas. Em alguns Estados, existe a lei anticonversão
e prossegue a luta religiosa entre hindus, muçulmanos e cristãos.
- Indonésia: A introdução da lei corânica
suscita preocupações em todas as outras religiões
presentes no país. O governo impôs o ensinamento do Islã
em todas as escolas, até as particulares.
- Mianmar: O governo militar reprime as minorias étnicas
e religiosas e todos os movimentos que apóiam a volta da democracia.
- Paquistão: Parece que ainda estão nas cadeias
cerca de 75 cristãos, acusados de blasfêmia contra Maomé
e o Islã. O apoio do governo na guerra dos EUA contra o fundamentalismo
islâmico já provocou atentados por parte desses grupos.
- Tadjiquistão: O governo adotou atitudes vexatórias
contra os não-islâmicos, considerados uma ameaça
à unidade nacional.
- Turcomenistão: Reconhece somente a religião
islâmica e a ortodoxia. As outras são objeto de vexames
jurídicos e de abusos.
- Quênia: Nos últimos anos, houve violência
e intolerância contra fiéis das várias religiões,
além de mortes de sacerdotes e catequistas.
- Nigéria: Numerosas violações da liberdade
religiosa provocaram, no ano passado, mais de 200 mortos numa revolta
dos islâmicos por causa do concurso de Miss Universo.
- Sudão: Foram denunciados inúmeros casos de torturas,
mortes violentas e vexações praticadas contra cristãos,
justificados pela sharia, recentemente introduzida no país pelo
governo islâmico.
- Zimbábue: Piorou a situação dos colonos
no governo ditatorial de Mugibe, que hostiliza todas as religiões
tidas, por ele, como subversivas.
A
intolerância cor de açafrão
ssim
foi nomeada a crescente intolerância nacionalista que vê a
Índia exclusivamente hindu (o açafrão é a
cor hindu por excelência). Este processo é operado por uma
rede de grupos fundamentalistas hindus, protegidos pelo Bharatiya Janata
Party, maior partido do governo, que, em 2002, violou inúmeras
vezes o direito à liberdade religiosa. Estas violações
vão de uma nova edição dos textos e programas escolares,
à aprovação, em vários Estados, de leis anticonversão.
A desculpa seria que as outras religiões, especialmente o cristianismo,
forçam a conversão de hindus, o que justificaria o retorno,
à força, dos convertidos ao hinduísmo. As leis, portanto,
seriam para evitar abusos e fundamentalismos de qualquer religião,
mas, na realidade, tornam-se um meio para desencorajar qualquer atividade
missionária e fomentar, nos fundamentalistas hindus, um clima de
violência e de intolerância contra pessoas e instituições
religiosas.
Contra essas leis não serviu nem o parecer da Corte Suprema da
Índia, que reconheceu a todas as minorias religiosas o direito
de gerir suas instituições escolares. Difícil também
ficou a situação entre hindus e muçulmanos, após
o atentado em Gujarat, no início de 2002, contra um trem carregado
de peregrinos hindus. Mais um fato na lista de sucessivas represálias
de ambas as partes, que continuam provocando centenas de mortos.
|