Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Geral
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por Cláudio Pastro
Não é o canto e o cantor que devem prevalecer, mas sim, o som de Deus na Assembléia. A norma sempre foi: "que a voz concorde com a Palavra celebrada". Recentemente, participei de duas celebrações. Durante essas celebrações o volume tão alto do som dos instrumentos e das vozes provocaram nos meus ouvidos uma certa dor. Esse fenômeno, não me parecendo ser sadio para tratar do louvor a Deus, me levou a refletir sobre o sentido da música e da voz humana. A MÚSICA A palavra vem do grego mousikê (arte das musas, na mitologia grega, que presidiam as belas artes). Para nós, a música se tornou a arte por excelência. Para o cristão, a música vem de Deus ou é apenas uma parafernália cacofônica, com influências atuais, mas que não revelam o som de Deus. Pode até mascarar o sentido da própria celebração. Escutemos o Concílio Vaticano II: "A tradição musical de toda a Igreja é um tesouro de inestimável valor, que se sobressai entre todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido à palavra, constitui parte necessária ou integrante da liturgia solene. "Se prestarmos atenção ao
silêncio, será fácil orar. A nossa vida de oração
é muito prejudicada, quando nossos corações não
estão em silêncio."
"Em certas regiões, sobretudo nas missões, há povos com tradição musical própria que tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. (...) No culto divino podem ser utilizados muitos outros instrumentos (além do órgão), segundo o parecer e o consentimento da autoridade (...) contanto que esses instrumentos sejam adequados ao uso sacro, ou possam a ele se adaptar, condigam com a dignidade do templo e favoreçam realmente a edificação dos fiéis" (idem - 119.120). A história recente da Igreja sublinha o acento dado à participação dos fiéis, o que deu a possibilidade a novas músicas. A música hoje, na Igreja, sofre forte influência de um sociologismo e modismo (ritmos e instrumentos) e nem sempre brota da meditação e da contemplação. Perde a música (enquanto obra de arte) e, aos poucos, a Igreja perde seu referencial, sua identidade. "O silêncio é a linguagem de quem ama; é melhor que a palavra humana renuncie e se exprima com afeto. Somente a alma, na sua linguagem silenciosa, consegue fazer o que sentimos." Santa Clara de Assis
Há também o perigo de deixar a música nas mãos de poucos (elites ou não). A nossa música religiosa recebe pelo menos duas influências: a da música comercial e a da música 'rock' e seus derivados como a "techno" que nos grandes encontros de massa são vetores de paixões primárias, desenvolvendo um caráter cultual, mas com um papel de anti-culto cristão. As missas shows, o bateção de palmas, o barulho pentecostalista nada têm a ver com o drama humano e menos ainda com a discreta alegria pascal de homens renovados pelo Batismo. Tais atitudes são linguagens do momento, muitas vezes desesperadoras e não a linguagem de quem vive em presença do Sagrado e com o santo temor. Nesse sentido, a Igreja tem a experiência de 2000 anos. O papel da música é louvar o Senhor e permitir que a Palavra da Escritura centralize e tranqüilize nossa vida. O CANTO Do ponto de vista da expressão humana, o canto constitui algo a mais - é uma valorização da linguagem. Ele procura "dizer", desabrochando; quando a palavra é pronunciada, o canto dá aos sentimentos humanos toda a sua verdadeira expressão. "Quem canta bem, reza duas vezes" disse Santo Agostinho. Cantar juntos manifesta e estimula a unidade dos corações. Se a liturgia manifesta a celebração da atividade humana voltada para Deus, a celebração será completa na medida em que o canto com a música que o sustenta é a expressão privilegiada da alma humana. 'Quem ama, canta' (cantare amantis est), disse ainda Santo Agostinho. O povo que participa da liturgia da Igreja deve se deixar levar, vibrar e exultar com todo o seu ser. O sabor dos salmos nos acostuma a manifestar a nossa alegria, os nossos desejos, as nossas dores, a nossa salvação. O canto diário dos Salmos pela manhã (laudes) e à tarde (vésperas), chamado de Ofício Divino, é o único canto e oração oficial da Igreja (cantado por todos os cristãos, religiosos e leigos). Nos mosteiros, ainda hoje e até no passado recente, essa forma de oração era feita sete vezes ao dia por toda a Igreja. A reza do Rosário e outras orações embora não oficiais, fazem parte da tradição da piedade cristã e ajudam muito o povo. A interpretação dos Salmos, ao mesmo tempo pneumatológica e cristológica, se aplica também ao domínio da música: é o Espírito Santo que ensinou o canto dos Salmos a Davi e por ele ao povo de Israel e depois à Igreja. A linguagem musical na Igreja é um dom do Espírito Santo, é uma verdadeira "glossologia", língua nova, vinda do Espírito Santo. É bom notar que a música tem um grande lugar na religião bíblica. Pode-se dizer que no encontro do homem com Deus, a palavra não basta. O CANTO TRANSFIGURA A PALAVRA OU A DESTRÓI A música e o canto, em si, quando beleza universal é já "falar em línguas", pois todos são tocados, criando-se assim a comunhão das mentes, dos corações e do ser "divino e humano" que bem o somos. A palavra 'cantar,' nos Salmos, indica um canto sustentado por um instrumento (com cordas). A Bíblia dos Setenta traduz a palavra zamir por psallein, que significa tocar (e de modo especial um instrumento com cordas). Esta palavra encontra-se no início de cada salmo. Na Bíblia, o canto aparece pela primeira vez no fim da passagem do Mar Vermelho: "Então Moisés cantou com os filhos de Israel este cântico ao Senhor. Disseram: Quero cantar ao Senhor, ele se sobre-exaltou!..." (Ex 15, 1).
O canto polifônico apareceu no fim da Idade Média e até hoje teve muito sucesso. A Igreja Oriental o conhece e o pratica, sendo usado tão somente pela voz (o sopro), sem o uso de instrumentos. Os cantos litúrgicos são úteis na medida em que eles nos fazem rezar, tomando como referência a beleza divina! Por isso, três meios podem ser sugeridos para discernir como o culto cristão pode ser ligado com o Logos, a Sabedoria, a Palavra de Deus: 1.º) Quando ele faz referência às intervenções de Deus na Bíblia e prolongadas na história e atestadas pela liturgia. A Páscoa de Cristo será para sempre o centro inabalável: morte, ressurreição e ascensão. Cantamos essa vitória e a nossa redenção. 2.º) Saber rezar, cantar e tocar música diante de Deus é um dom do Espírito Santo: "... o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Rm 8, 26). Mas é preciso também talento e profissionalismo. 3.º) O Verbo de Deus - Jesus Cristo - é o sentido da Criação, da nossa história pessoal e comunitária. A dimensão cósmica da liturgia cristã é real. Ela se expressa de modo especial pelo canto do Trisagião que nos une aos Querubins e Serafins: "Santo, santo, santo, o Senhor de todo o poder, sua gloria enche a terra inteira!" (Is 6, 3) O Santo, santo, santo... e a única prece que na Missa deveria sempre ser cantada. Unimo-nos aos céus. O homem teria vantagem se inspirasse na música interior do cosmos. A música humana será bela na medida em que ela participa intimamente das leis musicais do cosmos. Hoje, a música está contaminada pelo subjetivismo, a inflação do eu. A nossa referência à beleza trinitária deve ser a única fonte. A alegria da fé a nutre! A verdadeira arte nasce da sede de Deus e da oração, do UNO, em si. Louvai o Senhor Deus... "Aos músicos e cantores seja
dada uma verdadeira formação litúrgica". |
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