Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Geral

sacralidade, hoje, começa a tornar-se uma linguagem incompreendida, distorcida. A relação do homem com o sagrado é mais imposta pelo próprio homem, segundo seus desejos e necessidades, do que pela escuta do sagrado.

Nota-se um panteísmo em que tudo, sobretudo as forças da natureza e o ocultismo, é entendido como se fosse Deus, e um hedonismo, porque o homem acha-se o centro e vive apenas para os prazeres imediatos.

Para o homem moderno, sobretudo para o homem não religioso, é difícil aceitar o mundo como algo além das aparências primeiras da evolução das cidades e das conquistas científicas. Para o cidadão atual, as funções vitais (alimentação, contemplação, sexualidade, trabalho) são meras funções

fisiológicas, psicológicas e sociais e não estão carregadas de uma sacralidade.

Quando o homem do campo tira o chapéu e empurra levemente a água com as mãos antes de bebê-la, exerce uma atitude sábia ao pedir licença para a água. Sabe que não é o centro do mundo, mas participa dele por uma concessão, por uma graça (gratuita) sem a qual não haveria vida.

Em todas as culturas e religiões, há dois mundos, dois modos de ser no mundo: um comportamento racional e especulativo e um sentimento de "pavor", de "maravilhamento" frente a "outra coisa" total e radicalmente diferente. Aquilo que se manifesta diferente do cotidiano, do profano, do usual é o hierofano, o mistério, o sagrado, o santo.

O verbo latino sancire (cujo particípio é sanctum) quer dizer "consagrar, reconhecer". Javé coloca consagra, reconhece um povo pequeno para nele se manifestar. Javé pede a Moisés que "Tire as sandálias pois pisas num solo sagrado". Há pessoas, lugares, objetos iguais aos demais, mas "escolhidos", "reconhecidos", nos quais Um outro se manifesta e orienta a humanidade. Eis o verdadeiro sentido de santo, diferente de um sentimento moralista ou idólatra como muitos o concebem.



Cúpula de Santa Sofia (sabedoria) - edifício cristão do séc. 6 em Istambul. Atualmente é uma mesquita

Batistério Nestoriano (cúpula) mosaico, Ravena - séc. 6: manifestações de perfeição - Cristo (Batismo) é o centro do universo onde todos o circundam como os planetas em volta do Sol. Daí todos são cristificados

Pago de chinês: um universo organizado, um mapa da vida onde o fiel reencontra a razão de sua existência e sempre que volta se reorganiza

Catedral da Sé em São Paulo - Brasil, séc. 20 - estilo neo-gótico. Um mapa da vida cristã, cujas colunas com capitéis com a flora e a fauna brasileira induzem-nos à perfeição, ao jardim do Paraíso, ao jardim do Cântico dos Cânticos

O CÉU E A TERRA: O MAPA DA VIDA

O homem busca a perfeição, o paraíso perdido, o jardim do Édem. Como não é possível abraçar o universo, a plenitude, pois ele é limitado, destrói e altera os ambientes, o sagrado manifesta-se em pessoas e lugares, como orientação para a vida.

O céu desposa a terra e cria imagens, mapas da Vida, espaço feitos para renascer numa vida nova, "santa", escolhida, diferente do caos criado pelo próprio homem.

São as florestas sagradas, o rio sagrado, a gruta sagrada, a montanha sagrada, a nuvem sagrada, o fogo sagrado, próprios de todas as culturas e épocas. Podemos observar isso no extremo Oriente, na África, na Europa, nos povos aborígines da Austrália e nos indígenas das Américas.

O ESPAÇO SAGRADO CRISTÃO

O espaço é Cristo. Desde de que se deu à máxima hierofania, manifestação do sagrado, na própria carne humana (Deus manifesta-se em Jesus Cristo): tudo e todos foram cristificados, o universo retornou ao seu sentido primeiro de ser divino.

Se o espaço é Cristo, a pessoa do cristão é o espaço. São Bernardo chega a dizer: "O espaço é você". Mas, esse espaço reflete o Cristo em você. As primeiras construções cristãs (as basílicas) até as últimas igrejinhas perdidas por aí sempre tiveram a forma de cruz ou de corpo para receberem "o corpo místico de Cristo", a assembléia cristã, como comunidade convocada que escuta a sua Palavra, o louva e o comunga eucaristicamente.

Em geral, a arquitetura cristã é composta de espaços para "a cabeça", o "coração" e os demais membros do Cristo. A forma leva a nos unir ao espírito e nos vivifica.

Toda a matéria e forma no espaço são símbolos vitais, isto é, nos unem ao Eterno, pois o ser humano tem necessidade de tocar, visualizar, escutar, cheirar o Espírito que se manifesta "nas coisas e no tempo humano, enfim, na carne, no corpo de cada ser".

O mundo foi cristificado. Esses espaços humanos, ditos "sagrados", são espaços de perdão, de retomar a vida, de renascer. A imagem é a linguagem do espírito e temos que nos exercitar nos gestos, sons, cores e formas por onde o sagrado se manifesta.

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