Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Geral
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Há 40 anos A Igreja vivia tranqüila
na uniformidade que se confundia com uma sólida unidade.
Mas não foi bem um papa de transição. No encontro natalino com os cardeais, João XXIII anunciou aos atônitos curiais sua intenção de convocar um Concílio, cuja idéia - afirmava - tinha vindo de Deus "sem motivos precedentes". Parece que o anúncio, no começo, não foi levado a sério, mas o próprio João XXIII em pessoa se encarregou de levar adiante a idéia. Convocou as comissões preparatórias, preparou uma consulta geral, convidando as faculdades de teologia. E a idéia foi tomando consistência, apesar de uma resistência entre um episcopado que não via nenhuma necessidade de grandes e substanciais reformas na Igreja. Achavam que necessitava somente de uns retoques, mas normas centenárias não podiam ser modificadas. Talvez não se percebia que, abaixo da aparente calmaria das ciências teológicas, bíblicas, litúrgicas, havia movimentos e novos estudos que foram incentivados por uma encíclica de Pio XII, Divino Afflante Spiritu, de 1943, que convocava a aprofundar as investigações em campo católico. Teólogos famosos, como Rahner, De Lubac e Ratzinger, e outros criticavam abertamente a teologia repetitiva dos manuais clássicos daqueles tempos, e suscitavam questionamentos inusitados, como sobre a historicidade dos dogmas, a história comparada das religiões, a verticalização da organização eclesial. Eram questões consideradas intocáveis que, se não chegavam ao conhecimento dos simples fiéis, eram discutidas, porém, com fervor, nas faculdades teológicas e se infiltravam no pensamento dos futuros pastores. A preparação para o Concílio caminhava com vários tipos de marchas: um pouco lentas na cúria e mais aceleradas nas faculdades de teologia do mundo inteiro. Papa João XXIII lembrava, em todos seus discursos, a importância do futuro Concílio e anunciava uma série de temas que deviam ser abordados no mesmo, como ecumenismo, reforma litúrgica, pobreza e outros. As comissões curiais preparavam e enviavam a todos os bispos os documentos que deveriam ser a base das discussões conciliares. UM INÍCIO TUMULTUADO Se a convocação inesperada do Concílio tinha sido recebida com surpresa, a primeira sessão conciliar também foi tumultuada. A comissão preparatória achava que tinha preparado documentos perfeitos e que, vindo da cúria, seriam admitidos sem discussão e aprovados de vez, portanto, a previsão era que o Concílio estaria concluído num curto espaço de tempo. Mas não foi bem assim. Os temas apresentados foram revistos e discutidos em toda sua profundidade, conforme o desejo do papa. Apareceram outros temas como o da Divina Revelação, a Constituição da Igreja, o seu relacionamento com as Igrejas separadas.
Foi preciso organizar novas comissões com personalidades representativas de outras correntes teológicas, que introduziram um clima de diálogo entre os participantes. Foram discutidos temas nunca antes discutidos, como a instituição eclesial em que o Povo de Deus passava a ser o primeiro em ordem de importância, deslocando a hierarquia que, nos antigos esquemas, estava situada no topo da pirâmide eclesial. A Igreja perdia a definição de "sociedade perfeita", para se definir com imagens mais bíblicas, como Igreja - Comunhão. Mas o tempo da primeira sessão se esgotava e os conciliares não tinham chegado a nenhuma aprovação de documentos: prepararam-se, então, esboços sobre os meios de comunicação, a liturgia que, noutras seções, seriam retocados, aperfeiçoados. OUTROS DOCUMENTOS O Concílio foi estendido até 1965, com abundante espaço entre as seções, para permitir o estudo e a reflexão aprofundada sobre os argumentos mais polêmicos, como o da liberdade de consciência e, assim, passo a passo, o Concílio concluía a sua tarefa com importantes documentos de reforma. Reformas, talvez, inesperadas até por João XXIII ao convocar o Concílio. Foram publicadas as Constituições, duas dogmáticas: a Lumem Gentium sobre a Igreja, a Dei Verbum sobre a revelação; duas pastorais, a Gaudium et Spes sobre a Igreja e o mundo e a Sacrosantum Concilium sobre a liturgia. Outros decretos e declarações puseram em movimento a revisão da teologia pré-conciliar e as reformas que se realizaram ao longo desse quarenta e um anos. O ESPÍRITO DO CONCÍLIO Se o espírito inspirador e vivificador do Concílio foi, sem dúvida, a ação do Espírito Santo que conduz a Igreja ao longo dos séculos no mundo, não podemos negar que o Concílio teve muito a ver com o espírito daqueles que foram seus impulsionadores e condutores: papa João XXIII, que faleceu em 3 de junho de 1963, e Paulo VI. Esse espírito é de abertura, de serviço, de diálogo, de esperança e de confiança no homem e no mundo. O discurso inaugural do "papa bom" sobre os "profetas das desventuras" e o discurso de conclusão de Paulo VI sobre o valor religioso do Concílio, no qual chama a Igreja de "servidora da humanidade", são os que mais iluminam a maneira de ser cristão pós-conciliar. UM CONCÍLIO DE TRANSIÇÃO O Vaticano II é a maior prova da assistência do Espírito Santo na Igreja. Sociologicamente, é inexplicável o fato de que uma instituição do porte da Igreja, que abraça culturas diferentes, seja capaz de se revisar, de se reconhecer, com gratidão e sem amargura, com necessidade de mudar, de se abrir à realidade do mundo que muda. A presença do Espírito que guia essa instituição divina e humana, não nega, porém, a outra grande realidade: que a Igreja é composta de pessoas e que pessoas que compõem a Igreja sejam mais lentas que o Espírito que a anima. Por isso, o mesmo Concílio não abandonou completamente posições passadas que, segundo seu espírito renovador, deveriam ter sido deixadas de lado. Ainda hoje, há quarenta e um anos do Concílio, falta ainda muito para podermos dizer que estamos vivendo totalmente o que ele propôs... Fato que não devemos estranhar, porque a história nos ensina que os Concílios anteriores necessitaram de muitos anos até que a carne se acostumasse ao Espírito. Resumido de "Hace
40 años..." |
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