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O decálogo está superado?
Ângelo Coimbra
Parece que as leis que Moisés recebeu no Monte Sinai não
estão mais em sintonia com a sociedade moderna tanto que o papa
João Paulo II, na sua viagem à Polônia em junho passado,
achou por bem chamar a atenção que "uma vida construída
sem Deus e sem mandamentos, volta-se contra o homem". Se perguntarmos
a alguns católicos quais são os Dez Mandamentos, talvez
muitos tenham dificuldade de lembrar-se de todos...
Para muita gente, porém, não se trata de uma questão
de esquecimento, mas de uma constatação de que o decálogo
estaria superado na sociedade moderna, obsoleto e anacrônico, ou
seja, está fora da realidade e da moda. Todavia, como sem lei e
sem ética não é possível conviver socialmente
com o risco que tudo vire um verdadeiro caos, há quem sugira que
devemos inventar outros mandamentos mais adequados aos nossos dias ou,
pelo menos, rescrever os antigos.
Quem denuncia esse anacronismo e tentou rescrever o decálogo foi
o conceituado jornal americano, Times, apresentando, tempos atrás,
uma lista de normas que, conforme seu critério, seriam mais adequadas
ao homem moderno.
Mas será que os Dez Mandamentos estão, de fato, obsoletos
e superados?
Em primeiro lugar, devemos lembrar que, apesar das incontáveis
infrações cometidas contra eles pela humanidade, o decálogo
foi e é a base de toda norma jurídica dos países
ocidentais e orientais. Nele buscaram inspiração todos os
legisladores, inclusive os que, negando o valor sobrenatural das religiões,
queriam como fundamento de sua legislação uma ética
natural em que todos os homens, independente de sua crença, pudessem
se encontrar numa convivência civilizada. O decálogo é
a normativa baseada sobre a ética natural.
Devemos rescrever o decálogo?
O decálogo, embora expresso em fórmula negativa do não
faça, vai muito além do seu enunciado. Quando o mandamento
diz não matar, seu conteúdo vai além da morte causada
diretamente e engloba o respeito à vida em geral, mas também
à natureza, porque, se não respeitarmos nosso habitat, estaremos
pondo em jogo nossa própria existência.
O mandamento não roubar não se limita somente ao fato de
tirar um bem material dos outros, mas inclui os bens morais, espirituais,
intelectuais, a honra e dignidade das pessoas; condena os seqüestros,
a corrupção ativa e a passiva, como quando se faz um lobby
para obter lucros e vantagens indevidos e em detrimento dos outros. O
mandamento condena a recusa de pagamento das dívidas devidas, dos
compromissos assumidos com os outros e inclui o respeito à liberdade,
à vida digna que não pode ser coagida em nome de ideologias
ou de razões políticas duvidosas.
Pecados novos sempre antigos
Nenhum pecado é novo e todos estão incluídos nos
antigos mandamentos, porém, às vezes, por situações
peculiares do tempo, é necessário evidenciar mais um aspecto
do que outro que a sociedade tende a esquecer. No último Catecismo
da Igreja católica, por exemplo, é dada uma maior ênfase
aos chamados pecados sociais, tão próprios do nosso tempo,
como o não pagamento de salários e impostos justos, a discriminação
social, sexual, racial e religiosa, a busca exagerada de lucro em detrimento
da justiça social. Os novos pecados sociais, assim chamados erroneamente
pela mídia, são apenas a explicitação dos
antigos mandamentos.
Os mandamentos estão ultrapassados?
A sociedade de hoje deixou de lado os mandamentos por vários motivos,
entre os quais um exagerado comodismo e individualismo: a pessoa coloca-se
no centro de um círculo no qual tudo deve gravitar a seu redor,
sem responsabilidade e compromisso com os outros, em campo nenhum, nem
com a família, visto que também ela não agüentou
as tendências dessa sociedade hedonista. Tudo isso vem provocando
um relaxamento dos costumes, induzido por vários meios, mas principalmente,
pelos meios de comunicação, que levaram à perda dos
valores fundamentais do homem e da sociedade: nada mais tem valor a não
ser o eu.
A tentativa de um retorno ao sagrado, invocado por alguns para colocar
ordem no caos desse fim de século, não leva mais ao decálogo,
mas a algo vago que se identifica com a New Age, na qual Deus e as pessoas
desaparecem com suas responsabilidades. Tudo se torna intercomunicação,
energia cósmica, isto é, nada mais existe de ético
a não ser o útil, o agradável do momento de cada
indivíduo sem compromissos. Uma ética cômoda que nada
tem a ver com o comprometimento do velho decálogo judaico-cristã.
Enfim, quando se nega o decálogo, na realidade, nega-se Deus que
o ditou - como conta a Bíblia - de maneira pedagógica no
monte Sinai. A sociedade, porem, que percebeu que não pode subsistir
sem um norma ética, criou outros ídolos: a ideologia, o
partido, a raça, as classes, tudo isso - dizem - em nome do respeito
recíproco e da liberdade... Todos somos espectadores dos resultados
a que chegaram essas idolatrias: campos de extermínios, guerras
raciais, genocídios, divisões sociais, etc.
Concluindo, uma ética não se sustenta quando lhe falta o
princípio absoluto, transcendente, sobre o qual possa construir
algo que tenha valor universal, válido para todos os homens. Assim
também não se sustenta a tentativa da Times, ao querer substituir
algo de universal por coisas muito limitadas.
Cristo e os mandamentos
"Mestre, o que devo fazer de bom para ter a vida eterna?" Ao
jovem que lhe fez esta pergunta, Jesus responde, primeiramente, invocando
a necessidade de reconhecer a Deus como "o único bom",
como o bem por excelência e como a fonte de todo bem. Depois diz:
"Se queres entrar para a Vida, guarda os mandamentos". E cita
ao seu interlocutor os preceitos que se referem ao amor ao próximo:
"Não matarás, não cometerás adultério,
não roubarás, não levantarás falso testemunho,
honra pai e mãe". Finalmente, Jesus resume estes mandamentos
de maneira positiva: "Amarás o teu próximo como a ti
mesmo" (Mt 19,16-19).
Jesus, com efeito, retomou os Dez Mandamentos, mas manifestou a força
do Espírito que age neles. Pregou a "justiça que supera
a dos escribas e fariseus" como também a dos pagãos.
Desenvolveu todas as exigências dos mandamentos: "Ouviste o
que foi dito aos antigos: não matarás... eu porém
vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá
de responder no tribunal" (Mt 5,21-22).
Quando lhe foi feita a pergunta: "Qual é o maior mandamento
da lei?", Jesus responde "Amarás ao Senhor teu Deus de
todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.
Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante
a esse: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desse dois
mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22,37-44).
O decálogo deve ser interpretado à luz desse duplo e único
mandamento da caridade, a plenitude da lei.
(Do Catecismo da Igreja católica)
MOISÉS
1.Eu sou o Senhor teu Deus: não terás outro Deus além
de mim.
2. Não pronunciarás o nome de Deus em vão.
3. Guardarás os domingos e as festas de guarda.
4. Honra teu pai e tua mãe.
5. Não matarás.
6. Não cometerás adultério.
7. Não furtarás.
8. Não levantarás falso testemunho.
9. Não cobiçarás a mulher do próximo.
10. Não desejarás as coisas dos outros.
TIMES
1. Seja uma pessoa séria.
2. Permaneça interligado ao mundo real.
3. Seja humilde.
4. Gaste tempo para refletir.
5. Respeite os idosos.
6. Não mate: todo homicídio é um suicídio.
7. Cumpra com as promessas.
8. Não roube ou o mundo morrerá.
9. Respeite os outros: geralmente as fragilidades deles são as
suas.
10. Seja gentil, generoso e não faça sexo ao acaso.
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