| As comunidades da Arca
Alberto Garuti
Convivendo com os últimos
"Faz mais de trinta anos que tenho o privilégio de viver
junto com excepcionais. Geralmente, pensamos que são pessoas que
precisam viver com homens e mulheres fortes, capazes de compreendê-los
e estimulá-los. Eu, pelo contrário, queria comunicar-lhes
a minha descoberta e percebi que sou eu quem precisa deles". Assim
se expressou Jean Vanier, fundador da Comunidade da Arca e de Fé
e Luz, durante uma palestra no seminário de Roma.
Filho do governador geral do Canadá, Jean Vanier, hoje com 70 anos,
foi oficial da marinha canadense, que deixou em 1950. Depois de obter
o doutorado em filosofia, lecionou na Universidade de Toronto. Em 1964,
o encontro com alguns excepcionais em Trosly-Breuil, perto de Paris, mudou
totalmente a orientação de sua vida. Na ocasião,
ele fundou a comunidade da Arca, baseada na partilha de vida com pessoas
portadoras de deficiências mentais. Hoje, as comunidades da Arca
encontram-se espalhadas em todos os continentes.
Em 1971, deu início às comunidades de encontro Fé
e Luz, que já são mais de mil no mundo inteiro.
É o próprio Jean Vanier que descreve sua experiência.
Foi um padre dominicano, Thomas Philippe, o guia espiritual que me aproximou
de Deus, que me convidou para ir a Trosly-Breuil, uma cidadezinha ao norte
de Paris. Ali ele conhecera um pequeno grupo de excepcionais que viviam
num instituto e a quem dava assistência espiritual.
O encontro com os excepcionais
Quando me encontrei no meio deles, senti-me tomado por um medo: não
sabia como comunicar com eles. Mas minha incerteza durou pouco: reparava
que a comunicação, a medida que eles se acostumavam com
minha presença, tornava-se cada vez mais profunda, embora segundo
modalidades que ainda não me eram familiares. Senti claramente
que cabia a mim aprender sua linguagem.
As pessoas atingidas por graves deficiências mentais podem ser incapazes
de falar, mas se expressam com o corpo, com os olhos, falam com as lágrimas:
o que importa é conseguir com-preendê-las.
É preciso saber interpretar o grito de nossos amigos, compreender
o que perguntam, o que esperam, o que querem. A dificuldade está
no fato de que a linguagem do corpo não possui nem um dicionário
nem uma gramática. O que importa é o amor: uma verdadeira
comunicação é sempre vital.
Naquele tempo, eu lecionava filosofia em Toronto e não sabia me
comunicar com pessoas que não falavam. E ainda que o soubesse,
sobre que poderíamos conversar, que interesses comuns teríamos?
Certamente eles não estavam interessados em filosofia. Na minha
confusão, de repente compreendi uma coisa: cada um deles, através
de um gesto, de um olhar, de uma palavra, do jeito de segurar na minha
mão, parecia me fazer a pergunta: "Você me ama? Quer
ser meu amigo? Vem me visitar outra vez?" Percebi, e essa foi uma
iluminação que tive, que havia pessoas indiferentes à
cultura e à instrução, mas sedentas de relacionar-se
com os outros, de amar e ser amadas.
Nasce a "Comunidade da Arca"
Logo depois dessa primeira experiência, encontrei, num instituto
perto de Paris, Raphael e Philippe, dois órfãos com graves
deficiências mentais. Comprei uma casinha em Trosly, procurei todas
as autorizações das autoridades locais e convidei Raphael
e Philippe para viverem comigo.
Assim começou a aventura da Arca. De propósito, dei a nossa
comunidade esse nome, que quer ser uma referência explícita
à arca de Noé que, de acordo com a narração
do Gênesis, salvou a humanidade. As comunidades da Arca recebem
pessoas portadoras de deficiências mentais, as mais vulneráveis,
que correm o risco de afogar nas águas da competição
que ocuparam todos os espaços em nossa sociedade.
Vivíamos juntos, Raphael, Philippe e eu. Fazíamos tudo em
comum: os trabalhos na cozinha, na horta, a limpeza e alguns passeios.
Aprendemos a nos conhecer. Eu tomava consciência da profundidade
de seus sofrimentos, em particular, porque eles sentiam que eram uma decepção
para seus pais e para pessoas que os cercavam, porque nunca foram valorizados
e considerados como indivíduos dotados de valor humano. Compreendi
que seu grande desejo era de amigos e viver como os outros, de acordo
com suas possibilidades.
Havia muitos preconceitos a respeito deles. O povo ficava a distância,
tratava-os com compaixão, muitas vezes com desprezo. Um grande
muro os separava daqueles que, com uma palavra terrível, são
definidos "normais". Tomei consciência dos preconceitos
que existiam em mim também: eu não os escutava o bastante.
Pouco a pouco, entendi que precisava respeitar mais suas liberdades e
suas opções.
Em seguida, outros excepcionais se juntaram a nós. Assim, a Arca
começou a crescer. Hoje, na comunidade de Trosly, somos cerca de
quatrocentos, duzentos excepcionais e outros tantos assistentes. Vivemos
juntos em vinte casas, trabalhamos na horta e em outras oficinas. Outros
trinta vivem em suas casas e vêm trabalhar conosco. Alguns assistentes
são celibatários, outros são casados.
Mais de cem comunidades da Arca surgiram, em vários países,
nos diversos continentes, onde vivem ao todo cerca de oito mil pessoas,
entre assistentes e assistidos. Todas seguem o mesmo estatuto que define
os objetivos, o espírito e o sentido de nossa vida comunitária.
Excepcionais e assistentes, vivemos todos juntos em pequenas casas inseridas
na vida da cidade, onde nos encontramos. Formamos uma nova família,
em que os fortes ajudam os fracos e os fracos ajudam os fortes.
As comunidades "Fé e Luz"
Em 1971, nasceram as comunidades Fé e Luz. Naquele ano, Marie-Hélène,
Mathieu e eu, com alguns amigos, conseguimos organizar uma romaria internacional
a Lourdes para deficientes mentais com seus pais e amigos. Éramos
12 mil. Foi uma explosão de alegria para todos, especialmente para
os pais que viviam dolorosamente a exclusão de seu filho ou filha.
Hoje, as comunidades Fé e Luz são mais de 1250, espalhadas
em 70 países do mundo. Cada comunidade é formada por cerca
de trinta pessoas: alguns excepcionais, suas famílias, alguns amigos.
Os membros dessas comunidades não vivem juntos, mas se encontram
regularmente, uma ou mais vezes por mês, para troca de experiências,
para pôr em comum alegrias e sofrimentos, para viver momentos de
festas e para rezar juntos. De uma maneira diferente, as comunidades da
Arca e as de Fé e Luz colocam no centro o excepcional, considerado
uma pessoa humana com plenos direitos, capaz não só de receber,
mas também de dar.
Amor de abandono
Não é fácil tomar consciência de que podemos
receber muito do excepcional, especialmente o testemunho do que é
amor de ternura, amor de abandono. A ternura mora perto do coração:
permite-nos compreender as necessidades de alguém, seus sofrimentos,
faz-nos entrar em sintonia com o coração do outro. Com ela
podemos dizer ao outro: "Você é importante para mim".
Quem me ajudou muito a entender isso foi Antônio e permitam-me aqui
contar sua história.
A história de Antônio
Antônio morreu alguns meses atrás, depois de viver seis
anos conosco. Antes, vivera vinte anos num hospital. Não podia
usar nem as pernas nem as mãos, não podia falar, não
conseguia comer sozinho: dependia totalmente dos outros. Por causa de
uma má formação no tórax e nos pulmões,
era-lhe ministrado artificialmente oxigênio.
Para quem vinha nos visitar, Antônio era sempre uma surpresa. Quando
alguém se aproximava dele e o chamava pelo nome, ele respondia
com um esplêndido olhar e retribuía a saudação
com um sorriso incomparável. No olhar e no rosto daquele homem,
havia uma intensidade incrível de amor. Admirava-nos que dentro
dele não houvesse nem depressão nem raiva. Havia transparência
total. Não podia ser generoso porque não tinha nada para
dar. Antônio exprimia um amor totalmente particular, que eu chamaria
amor de abandono. Ele era sinal visível do amor de abandono. Havia
nele o mesmo olhar, a mesma capacidade de doação para com
todos. Muitos dos assistentes que cuidaram dele, depois de sua morte,
disseram: "Ele transformou minha vida. Vivemos num mundo competitivo
onde aprendemos a vencer sempre: nos estudos, no esporte, no trabalho.
Devemos continuamente provar que somos os melhores, esconder nossas fraquezas.
O ambiente exige que escondamos nossa vulnerabilidade, que carreguemos
uma máscara. Nosso mundo nos quer agressivos, para provar algo,
a meu respeito e dos outros. Antônio levou-nos a um mundo de ternura,
algo muito especial, sinônimo de doçura, ligado à
comunhão."
Tradução e adaptação da revista "Mondo
e Missione"
"Arca"e "Fé e Luz" no Brasil
"Mundo e Missão" entrevistou Marcelo Borde, responsável
pelas comunidades da "Arca" no Brasil, para que descrevesse
a situação, em nosso país, dos dois movimentos fundados
por Jean Vanier.
M.M.: Fale-nos das comunidades da Arca no Brasil.
M.B.:A Arca é uma comunidade onde vivemos, partilhamos nossas
vidas, nossos trabalhos e nossas orações com pessoas portadoras
de limitações mentais. São essas as pessoas que a
Arca aceita. Pode ser que as pessoas tenham deficiências físicas,
mas só as aceitamos se têm também deficiências
mentais.
A Arca é uma federação internacional. Começou
no Brasil, quando, lá pelos anos 80, uma jovem, Maria Silva de
Jesus Tavares, foi à França. Depois de uma experiência
de algum tempo em Trosly, voltou ao Brasil e aqui, em 1987, no dia 25
de junho, fundou neste bairro (periferia norte de São Paulo) a
comunidade da Arca.
Começamos com uma casa, hoje são duas: a outra se encontra
na mesma rua, a um quilômetro daqui: temos 8 pessoas assistidas
e somos 7 assistentes.
As pessoas que trabalham para a Arca começam a fazer parte dela
através de uma série de etapas em que vão assumindo
seus compromissos. Elas vêm nos conhecer: quem é de S. Paulo
vem durante quatro fins de semana, as de fora vêm passar um fim
de semana conosco. Vamos avaliando a experiência, tanto para a pessoa
interessada como para a comunidade. Se a pessoa está gostando,
pode manifestar o desejo de ficar durante um mês. A experiência
pode ser renovada por dois ou três meses. A pessoa continua sendo
avaliada no final de cada mês. Chegando a esse ponto, pode manifestar
o desejo de ficar por um ano e assim a experiência pode ser renovada
de ano em ano. A formação que buscamos dar a essas pessoas
norteia-se pelo livro: "Comunidade, lugar de perdão e de festa",
de Jean Vanier. Depois de cinco anos na Arca, a pessoa pode anunciar a
Aliança, compromisso de viver as bem-aventuranças junto
com os pobres.
M.M.: As pessoas que trabalham na Arca são solteiras ou casadas?
M.B.: A Arca aceita todos, mas existe um problema para os casados. Não
temos condições, no Brasil, de remunerar as pessoas para
que sustentem uma família. Nós temos dois assistentes que
estão namorando: cada um mora em sua casa. O rapaz já está
buscando um trabalho para poder sustentar sua família no futuro.
A moça também. Se formarem uma família, haverá
muitas maneiras de permanecerem ligados à Arca.
M.M.: Como se sustentam as comunidades da Arca?
M.B.: Em cada país, a Arca deve viver com os recursos próprios,
desenvolvendo seus meios de subsistência. Cada comunidade deve buscar
sua autonomia. No nosso caso, temos um conselho de administração,
um grupo de pessoas que vive em suas famílias e se reúne
para dar um suporte financeiro e legal à associação,
trabalhando como voluntários.
A coleta de fundos é feita da seguinte maneira: anunciamos o nosso
movimento nas igrejas e perguntamos quem gostaria de colaborar conosco.
A elas enviamos o boleto bancário para que contribuam mensalmente.
Mas isso não cobre as despesas totais. O dinheiro que falta nós
o arrecadamos organizando eventos. Dentro do conselho de administração
há um grupo de eventos.
M.M.: Com que critérios é feita a aceitação
das pessoas assistidas pela Arca?
M.B.: Alguns vêm do bairro, outras através de indicações
que recebemos. Lembro de alguns casos: a mãe de uma criança
tinha tido derrame, estava cega e ela vivia abandonada dentro da própria
família. Outra tinha sido abandonada pelos pais, vivia com a bisavó
que precisava sair de casa para trabalhar passando roupa e a menina ficava
o dia inteiro na cama sozinha. Nós temos uma lista de deficientes
mentais do bairro e vamos visitá-los. Escolhemos os mais necessitados.
Para dar melhor assistência, nos preocupamos em dar possibilidade
aos assistentes de se atualizarem, freqüentando cursos.
M.M.: O que vocês sentem, trabalhando com essas pessoas que têm
limitações mentais?
M.B.: Dom Angélico, numa missa que celebrou lá em casa,
disse que se perguntava porque Deus permitia que as pessoas deficientes
existissem e que chegou a esta conclusão: "Para que o mundo
seja mais respirável". O mundo está tão difícil
e estas pessoas vêm para despertar os dons do coração,
para dar para a gente uma nova visão. Não somos tanto nós
que os ajudamos, mas eles que nos ajudam. Quanto a gente cresce com eles,
o que a gente aprende com eles, é algo de verdadeiramente extraordinário.
M.M.: No Brasil existem também as comunidades Fé e Luz?
M.B.: Existem e se encontram em todos os Estados. Há 15 dias houve
uma peregrinação à Aparecida: lá estavam cerca
de 500 pessoas, uma pequena amostra de todos os que compõem esse
movimento. Na Arca procuramos acolher os mais abandonados, os casos mais
desesperados, os que se encontram em situação de real necessidade.
Os que têm família e podem ser assistidos lá, pertencem
à Fé e Luz.
O endereço das comunidades da Arca no Brasil é:
ARCA DO BRASIL
Rua Manoel Aquilino dos Santos n.º 163 - Jardim Elisa Maria
São Paulo - S.P. - CEP 02873-520
Comunhão e Libertação - uma companhia guiada ao
destino
Organizado por Patrizia Bergamaschi
O movimento que, no Brasil, já conta com mais de 1500 participantes,
nasceu na Itália, na cidade de Milão, em 1954. Tudo começou
quando padre Luigi Giussani resolveu trocar as aulas de teologia no seminário,
para lecionar numa escola de Ensino Médio - o Liceu Berchet - para
levar aos jovens um anúncio, "para a felicidade deles".
É o próprio Giussani que relembra: "Entrando naquela
escola, fui vencido por uma amargura, por uma tristeza interminável,
porque o Liceu Berchet tinha 1200 alunos, mas parecia que o cristianismo
não existia. Quase todos eram batizados. Mas onde estava Cristo?
O que era o cristianismo entre aquelas paredes? Nada. Absolutamente nada.
O que é, na verdade, o cristianismo? Será talvez uma doutrina
que pode ser repetida em uma aula de religião? Será um elenco
de leis morais? Um conjunto de ritos? Tudo isso é secundário,
vem depois. O cristianismo é um fato, um acontecimento. Esta é
a primeira categoria que serve para compreender a posição
da experiência de Comunhão e Libertação dentro
da Igreja: fazer da fé um acontecimento".
Uma realidade eclesial
Comunhão e Libertação se autodefine um movimento
porque não se configura como uma nova organização
ou estrutura (não existem taxas de inscrição) nem
como uma especial insistência sobre algum aspecto ou prática
particular da vida de fé, mas sim como chamado de atenção
a viver no presente a experiência cristã própria da
tradição. A vida de Comunhão e Libertação
tem a finalidade de propor a presença de Cristo como única
resposta verdadeira às exigências profundas da vida humana
de todos os tempos. Na pessoa que encontra e adere à presença
de Cristo se gera um movimento de conversão e de testemunho o qual
tende a incidir sobre o ambiente na qual esta vive (família, trabalho,
escola, bairro, sociedade, etc...).
Nascido em uma escola como proposta aos jovens, Comunhão e Libertação
dirige-se, hoje, a todas as pessoa, sem distinção de idade,
de ocupação e de posição social.
O carisma
"O carisma de Comunhão e Libertação - diz Giussani
- não é definido por uma especificidade de 'setores'. Diria
antes que o caráter original do nosso movimento consiste na insistência
de método sobre como se pode viver a experiência cristã.
Neste sentido, tendo que indicar sua essência, diria assinalando-a
por dois fatores. Antes de mais nada o anúncio de que Deus se tornou
homem, companhia história para nosso caminho de homens. E segundo
lugar, a afirmação de que Jesus de Nazaré está
presente em um sinal de concórdia, de comunhão, de comunidade,
de unidade: a Igreja, seu corpo misterioso. Destes dois elementos nasce
aquela paixão missionária para que Ele seja conhecido e
reconhecido Senhor do tempo e da história.
O carisma gera um fato social não como projeto, mas como um movimento
de pessoas mudadas por um encontro, que tentam tornar mais humano o mundo,
o ambiente e as circunstâncias que elas encontram. A memória
de Cristo tende inevitavelmente a gerar uma presença na sociedade,
prescindindo de qualquer êxito programado".
As linhas pedagógicas
Comunhão e Libertação sempre se definiu como movimento
eclesial de educação à fé. Os passos essenciais
do método educativo de seu fundador são apresentados de
forma resumida:
o Impostação do problema humano. O fenômeno humano,
a nossa vida, coloca o problema do significado de tal existência.
O homem é, de fato, o único ponto na natureza em que ela
toma consciência, mesmo que como confusa pergunta, do problema do
sentido último da existência.
o O valor da tradição e o método para aproximar-se
dela. O pressuposto para uma autêntica experiência humana
é o não censurar nenhum dos fatores que a compõem.
Para educar é necessário, portanto, antes de mais nada,
propor a tradição, enquanto acúmulo das experiências
e das descobertas que determinam em larga medida o estado no qual um homem
se encontra e que, então, lhe fornecem a primeira hipótese
de leitura para o presente.
o Autoridade e senso crítico. A autoridade é o instrumento
para uma crítica eficaz: educar, de fato, significa educar ao senso
crítico, habituar os jovens a colocarem-se frente à tradição,
à vida e às suas circunstâncias como 'problema'. Deste
modo, o senso crítico não eqüivale à dúvida,
que acaba por paralisar toda pesquisa, mas é a mola que lança
continuamente na aventura do real e faz abraçar a vida inteira.
o O cristianismo: o acontecimento de um encontro. O cristianismo é
o anúncio de que está em ato uma extraordinária e
não censurável possibilidade: o Deus procurado e desejado
pelo homem de todos os tempos e culturas, o Mistério para o qual
o homem lançou as pontes da imaginação e da oração,
se fez homem. Como para João e André, hoje também
o caminho dos cristãos é simples: trata-se de seguir a atração
despertada por um encontro, de permanecer naquela Presença.
o A certeza e o empenho da liberdade. Os fatores determinantes para adquirir
a certeza de fé são o tempo e o empenho da liberdade. Conceder
tempo e empenhar, também em ações e obras a própria
liberdade com a proposta cristã é condição
para verificar-lhe a razoa-bilidade e se ela é adequada para a
própria existência.
o De onde nasce a moralidade nova. A autêntica moralidade para o
cristão se identifica com o ato cheio de afeição
no qual segue a Cristo e empenha a própria liberdade naquele relacionamento.
Os gestos fundamentais
Para favorecer o crescimento em comunidade e na unidade, o movimento
desenvolve algumas experiências:
- Escola de comunidade: momento semanal de discussão e catequese.
Através da leitura de textos indicados pelo Centro do Movimento,
procura-se a formação de uma consciência mais clara
da natureza do acontecimento cristão e da Igreja.
- Caritativa: desenvolvimento regular de um gesto de caridade
ou de doação gratuita a uma obra de caridade.
- Férias: momentos privilegiados de convívio em
espírito de família.
- Leitura: convite à educação do senso crítico
e estético, através de indicações de autores
e artistas em geral.
- O canto comum: para experienciar a unidade, o respeito ao outro
e o valor das tradições culturais dos povos.
- Fundo comum: contribuição mensal espontânea
para educar-se à caridade e para tomar consciência de que
os bens não são apenas nossos.
- Revista: "Litterae communionis - Presença"
é uma publicação mensal que apresenta artigos de
atualidade cultural e social, servindo também como instrumento
através do qual se conta a vida do movimento em todo o mundo.
- A oração: é a primeira expressão
da comunhão do movimento que acontece de forma pessoal ou comunitária,
mas também em vigílias, com a Liturgia da Horas, etc.
Formas de vida associada
- Fraternidade de Comunhão e Libertação: são
mais de 38 mil pessoas, homens e mulheres, que no mundo inteiro decidiram
levar uma forma de vida que sustente o caminho para a santidade. A vida
da Fraternidade realiza-se normalmente através da formação
livre de grupos que partilham o ideal e a amizade.
- Memores Domini (Grupo Adulto): homens e mulheres leigos que seguem
uma regra de convivência e de ascese pessoal, buscando ser memória
contínua de Cristo, numa vida de castidade, mas inserida em todos
os ambientes de trabalho.
- Fraternidade São José: é constituída por
aqueles que querem, dedicar definitivamente sua vida a Cristo, na castidade,
mas permanecendo nas próprias circunstâncias de vida.
Quanto mais edificarmos a Igreja, mais contribuiremos para a libertação
verdadeira do mundo, corrigindo continuamente a ilusão generalizada.
Como e onde edificar a Igreja? Creio que é necessário edificar
a Igreja onde estamos, onde vivemos. A Igreja toca a vida na comunidade
ordinária, na amizade tecida e vivida em nome da presença
de Cristo. Multiplicar e dilatar a comunidade cristã no ambiente
em que vivemos: este é o nosso dom aos nossos irmãos. Abertos
para valorizar até o mais ínfimo aspecto que manifesta a
intuição do outro, prontos para colaborar com tudo o que,
à luz da fé, parece justo.
O verdadeiro sujeito dessa aventura, dessa presença histórica
é a pessoa, enquanto pertence à comunhão. Assim nasceu
o slogan 'Comunhão e Libertação', que foi o título
de um folheto que distribuí nas escolas de Milão em 1969".
L. Giussani
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