Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Europa

 

Aldo Sinkovic, da revista Il Regno, entrevista
Stanislav Hocevar, arcebispo de Belgrado

O senhor assumiu a arquidiocese de Belgrado quando Milosevic estava no poder. Depois dele, o que mudou?

vida no país continua complexa, porque diversas conseqüências do totalitarismo se mantêm firmes. Sérvia e Montenegro convivem com problemas ainda não resolvidos: as relações entre ambas, a questão Sérvia-Kosovo e a de Voivodina. O povo se divide quanto ao futuro. Os jovens não estão preparados para assumir o destino do país, não conseguem afirmar a própria identidade, tampouco as Igrejas, porque na Sérvia estão presentes quase todas as comunidades cristãs. Os desafios são diários. Hoje vivemos uma radical transição econômica, ideológica, social e política. Há uma tendência à integração à União Européia, com o temor de perder a própria identidade, pois a Sérvia é a fronteira entre Oriente e Ocidente. Porém, o advento da democracia ressuscitou as esperanças que cultivávamos naqueles tempos difíceis.

A Sérvia sempre contou com políticos influentes. E agora?

– O povo sérvio é de fibra, mas muito emotivo. Durante o último totalitarismo, emergiram seus sentimentos mais negativos que positivos, deteriorando as relações com vizinhos e entre as minorias étnicas. Líderes se calaram, proibidos de expor a própria experiência de vida, de comunicar-se livremente com seus pares e com outros povos, etnias e religiões. Isso bloqueou o crescimento em todos os níveis. Mas percebo, com alegria, novas lideranças querendo unir, política e culturalmente, as duas repúblicas, para levá-las à União Européia, sem perder a própria identidade.

Neste caos, com quais perspectivas trabalha a juventude sérvia?

– Nosso mundo jovem é complexo, porque os últimos cinco anos viram os sonhos não se realizarem. Os jovens esperavam uma mudança radical e positiva, que não aconteceu. Uma parcela deles empenhou-se, de fato, na mudança da sociedade. Muitos queriam deixar o país, porque não viam uma luz no futuro. Outros, resignados, recolheram-se no nacionalismo. Somente o diálogo firme e autêntico ajudá-los-á a se abrirem a outras culturas e tradições, conservando a identidade; e a colocarem sua própria força a serviço da sociedade, dos povos e do país.

A pastoral da juventude conta com uma comissão de sacerdotes, religiosos e jovens de todas as dioceses. Sondagens sócio-religiosas querem compreender as expectativas dos jovens sobre o próprio futuro e o que esperam da Igreja. Elas revelaram que os jovens, que vieram de um regime totalitário, querem maior atenção, formação e experiência espiritual. Eles esperam maior empenho da Igreja no campo da justiça social e estão dispostos a colaborar, apesar de serem minoria.

A Igreja católica na Sérvia e Montenegro é composta de várias nacionalidades: húngaros, croatas e albaneses. Os sérvios estão em minoria. Como vocês se organizam?

– Sobre dez milhões de pessoas, meio milhão são católicos. A conferência episcopal se compõe de dois bispos húngaros, dois albaneses, um croata e um macedônio. Apesar das singularidades, estamos preparando um projeto pastoral único. Após as dificuldades dos anos noventa, inclusive no campo religioso, iniciamos contatos pessoais com a Igreja ortodoxa sérvia, outras Igrejas cristãs e demais comunidades, especialmente a islâmica e a judaica. As relações com ortodoxos sérvios, presentes também na Bósnia-Herzegóvina, Macedônia, Croácia, Eslovênia e Itália, estão muito melhores; há uma comunicação quase regular. Muitos sérvios ortodoxos vivem nos países europeus e de além-mar. Com eles é possível dialogar.


Movimento pela Renovação Sérvia em Belgrado

Já existem relacionamentos, em nível institucional, entre a Conferência episcopal e o Santo Sínodo da Igreja ortodoxa sérvia. O primeiro encontro aconteceu em 2003. Agora estamos preparando o segundo, a ser dirigido pelo presidente do Pontifício Conselho pela Promoção da Unidade entre os cristãos, cardeal Walter Kasper. Consta da pauta a relação que os cristãos de nossa zona deverão desenvolver ao se avizinhar da União Européia. Durante um milênio criamos obstáculos à unidade; agora estamos mais próximos dela. As diferenças irão continuar, mas nos incitarão a um trabalho mais intenso e corajoso, com a esperança de uma união maior, brevemente. Sinto que o Espírito Santo nos convida a fazer o possível para dar à sociedade, como cristãos, o testemunho de comunhão e de unidade.

Vocês têm outros planos?

– Estamos planejando um primoroso encontro entre a Igreja católica e a ortodoxa sérvia, em setembro, com participação de representantes de outros países, especialmente os limítrofes, inclusive da Igreja reformada. Devido à nossa divisão, ainda não conseguimos apresentar e enaltecer plenamente os valores em que acreditamos. Vamos também mostrar nossa literatura, para entender melhor o que nos une, entre as riquezas do Oriente e a do Ocidente. Estamos convencidos que, com o aprofundamento comum, a oração e os contatos, poderemos progredir no caminho ecumênico.

Além disso, queremos celebrar o 17.º Centenário do Edito de Milão, com o qual, em 313, foi concedida aos cristãos a liberdade religiosa, ou, ao menos, a tolerância. Já contatamos as dioceses marcadas pela presença de Constantino, o Grande, nascido em Niš, na Sérvia, (chamada pelos romanos de Naissus). Sua figura histórica uniu o Ocidente e o Oriente. Vamos redescobrir as raízes cristãs da Europa e assegurar uma colaboração, a mais possível profícua e profunda, entre a Igreja e as instituições cristãs. Esperamos que, na ocasião, a cidade de Niš reúna os patriarcas do Oriente e do Ocidente, com a presença, inclusive, do santo Padre.

Qual é o sonho do arcebispo de Belgrado?

– São vários. Antes de tudo, reunir nosso pequeno e disperso rebanho. Ao celebrar os 80 anos da instituição da diocese, desejamos uma profunda renovação espiritual, pastoral, mas também material, para construir e renovar também as igrejas. Promover o diálogo ecumênico e inter-religioso, estabelecendo verdadeira amizade entre católicos e ortodoxos, testemunhando mútua compreensão, colaboração e nova visão de Igreja e de mundo. Dialogar com a comunidade islâmica, que cresce e que traz, dentro de si, uma grande juventude, uma força vital. Estamos todos convidados a um diálogo com eles, descobrindo as estradas sobre as quais o Senhor convida a todos a caminharem juntos.

Aproximar a Igreja católica da sociedade. Nossa Igreja desenvolveu a doutrina social, enquanto a Igreja do Oriente não conseguiu fazê-lo. Vejo, neste belíssimo instrumento da Igreja católica, uma ponte especial e providencial de colaboração entre nós e o Oriente. Uma ponte que poderá aproximar-nos mais, que possa enriquecer a ambos. Com esses sonhos, creio estar aberto a Jesus Cristo ressuscitado que, do passado, cria sempre um futuro, e que nos oferece novos horizontes onde a morte decepa a vida. Nestes sonhos se exprime, antes de tudo, a minha fé na ressurreição. O meu desejo é que todos os cristãos possam, brevemente, celebrar e viver juntos a Ressurreição de Cristo.

Uma região explosiva

por Pedro Miskalo

ete nacionalidades habitam os montanhosos balcãs: sérvios, croatas, eslovenos, montenegrinos, macedônios, bósnios e albaneses. Acrescentam-se a eles minorias húngaras, ciganas, ucranianas e alemãs. E todos brigam entre si pelo seu território, à sombra de três religiões principais (ortodoxa, católica e islâmica). Os alfabetos latino e cirílico reforçam sua heterogeneidade. A região foi palco de muitas lutas no passado e o estopim da Primeira Guerra Mundial (1914-18). Após esse conflito, nasceu o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que passou a se chamar Iugoslávia, em 1929, com as etnias sempre em pé de guerra. Em 1941, a Alemanha se instala na Croácia e massacra sérvios, ciganos, judeus e croatas da oposição.

Surgem duas frentes rivais de resistência:

- os tchetniks, que defendem a monarquia; e os comunistas, sob o comando de Josip Broz Tito. Em 1945, os vitoriosos comunistas expulsam os nazistas, fuzilam milhares de tchetniks e estabelecem o seu regime sem, contudo, transformar a nação em satélite soviético. Tito organiza e governa (até à morte, em 1980) uma federação de seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegóvina, Montenegro e Macedônia. Enquanto o mundo assiste à derrocada do comunismo no Leste Europeu, em 1989 e 1990, Slobodan Milosevic é eleito presidente da Sérvia. As divergências internas se agravam. Eslovênia e Croácia declaram-se independentes. Em 1991, a Croácia é ocupada pela Sérvia, enquanto a Macedônia também declara independência. Em 1992, é a vez da Bósnia-Herzegóvina, que enfrenta a milícia sérvia até 1995. Em 1998, Kosovo tenta a mesma coisa e é invadida pelos sérvios. A OTAN intervém e obriga Miloševiè a assinar um plano de paz. Hoje a província está sob controle internacional.

Tensões religiosas na “pequena” Iugoslávia

A “tempestade” sobre a Sérvia e Montenegro não acabou. O país continua isolado; responde pelos crimes de guerra, a pedido do Tribunal Penal de Haia; e enfrenta graves problemas econômicos, sociais e políticos internos. Profundas discussões sobre o futuro dividem as duas repúblicas. As religiões, principalmente a ortodoxa sérvia, são duramente atingidas. No seu interior prevalecem correntes conservadoras que, como a Igreja ortodoxa russa, são – a priori – contra qualquer diálogo com outras comunidades, principalmente com a Igreja católica. Após algumas missões de cardeais e bispos, a Santa Sé enviou a Belgrado o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos cristãos, o cardeal Walter Kasper. Da visita nasceram iniciativas que deverão, enfim, facilitar o mútuo reconhecimento. Por exemplo, diversos profissionais da imprensa local já foram conhecer, no Vaticano, a estrutura da Igreja latina.

Também formalizou-se a troca de professores de teologia entre a faculdade ortodoxa de Belgrado e a de São João de Latrão, em Roma. Mas o povo local desconfia dos embates com o Vaticano. Recentemente, por exemplo, o nacionalista Šešelj acusou o falecido papa João Paulo II de incitar a OTAN a atacar a Sérvia. A Igreja católica na Sérvia está confiada ao arrojado bispo esloveno Stanislav Hocevar, 60 anos, hábil para unir o variado grupo de bispos e fiéis sérvios e instaurar um diálogo franco, aberto e leal com a Igreja ortodoxa sérvia e com outras Igrejas do país. Em Montenegro, existe o perigo de uma cisão entre os pró-sérvios e os autonomistas dentro da própria Igreja ortodoxa. Nessa região, a Igreja católica, composta principalmente de croatas e albaneses, sente-se fortalecida e tem mais voz no Capítulo

(Assembléia eclesiástica)

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