Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Europa
Dr.
José Lúcio Correa, diretor da entidade “Ajuda à
Igreja que Sofre” (AIS) no Brasil, concedeu um apaixonado depoimento
a “Mundo e Missão” sobre sua experiência ADVOGADO POR PROFISSÃO E JORNALISTA POR VOCAÇÃO
COMO TUDO COMEÇOU No início da década de 80, pediram-me uma reportagem sobre a vida na antiga União Soviética. Uma matéria sobre a vida das pessoas, não no aspecto político de comunismo, não-comunismo, nada disso. E aí, lá fui eu! E estava escolhendo sobre o que escrever: queria conhecer a vida de um operário, de um profissional liberal, de um estudante, um jovem. E queria ver também como um cristão pode viver sua fé em uma sociedade atéia, totalmente materialista.
Procurei organizações sobre direitos humanos, em busca de endereços dos cristãos que foram perseguidos. Queria falar com eles. Descobri uma organização inglesa, chamada “Castle College”, especializada no assunto. E eles me aconselharam a ir para a Lituânia, que então fazia parte da União Soviética, com o endereço de um jovem universitário recém-saído de um campo de concentração. JULIUS SASNAUSKAS E NIJOLE SADUNAITE
Cheguei à Lituânia com o endereço do jovem nas mãos, e fui procurá-lo. Eu já sabia algumas coisas sobre ele. Seu nome é Julius e fora condenado a cinco anos de trabalhos forçados em campos de concentração, porque evangelizava colegas da universidade. Ele havia formado um grupo de oração e fazia um trabalho de apostolado, até que um dos colegas o denunciara como subversivo. E ele foi parar no campo de concentração de Perm, nos Montes Urais, onde sobrevivera cinco anos, e mais um ano de exílio em uma aldeia da Sibéria. Eu sabia que ele havia acabado de regressar de lá. Quando toquei a campainha pedindo a entrevista, a família só faltou desmaiar. A mãe me pôs para fora da casa imediatamente, argumentando que não podia e não queria falar, ainda mais com jornalista estrangeiro, pior ainda: jornalista ocidental. Mais tarde, um colega dele explicou-me que eles estavam na lista negra da KGB, a polícia política. Alertou que os problemas seriam recíprocos. Diante de minha insistência, aconselhou: “Se você quiser mesmo falar com ele, a única maneira que a gente tem é de se encontrar fora da cidade, em algum lugar seguro. É arriscado. Você quer?” Respondi: “Claro! É para isso que vim!”. Ele continuou: “E tem também uma senhora que foi presa e acaba de ser solta, porque havia fundado um grupo de moças que querem ser freiras. É proibido ser freira nesta região e a Igreja católica não pode ter congregações religiosas. Você quer falar com ela também?”. “Quero!”, respondi. Ele me disse: “Seu nome é Nijole Sadunaite”. “Quem é Nijole? Nijole ficaria famosa depois de escrever livros de grande sucesso em vários países europeus. Sua obra mais famosa seria publicada em Paris, com o título de “Un Sourire au Gulag” (Um sorriso no Gulag), lamentavelmente ainda não traduzido no nosso país. O livro foi assim chamado, porque, no meio dos maiores sofrimentos, Nijole estava sempre de bom humor, sorrindo, ajudando as pessoas mais fracas, os doentes. Na manhã seguinte, fingindo fazer um piquenique numa floresta próxima, com direito a frutas, lanche e tudo, acompanhado por uma bela jovem, a gente se encontrou na floresta e começou a conversar, com a condição de não revelar nenhum nome verdadeiro, evidentemente. Eles relataram as torturas, o horror sofrido. E como faziam para dar o testemunho de Cristo na prisão e, depois, no campo de concentração. Nijole e Julius converteram muitas pessoas no próprio campo de concentração. A CORAGEM DE UM AMIGO Julius falou mais das torturas sofridas, porque a polícia pedia o nome de todas as pessoas do seu grupo. Entre as torturas, o pessoal batia-lhe nos joelhos com barras de ferro. As marcas ainda estão lá. Ele passou por várias operações, que não conseguiram restaurar-lhe as articulações. Ainda manca fortemente. E ele não revelou o nome de ninguém. Apenas uma pessoa do seu grupo foi presa. Foi assim: na época, o julgamento era feito a portas fechadas, mas permitia-se à comunidade assistir à entrega da sentença. E uma pessoa do seu grupo foi escolhida para assistir ao final do julgamento. Pois bem, na hora em que foi condenado, Julius deu um testemunho tão bonito de fé, que o rapaz não agüentou e começou a aplaudir. E aí o prenderam, dizendo: esse é um deles! O TESTEMUNHO IMPRESSIONANTE Depois de mais ou menos meia hora de conversa, quando ela estava fluindo bem, Julius me interrompeu: “Desculpe. lamento muito, mas tenho que ir embora. Sabe aquele grupo que a gente tinha? Pois bem, ele ainda existe. E agendamos, aqui mesmo na floresta, um encontro, que não posso perder, porque eles estão me esperando!”. Fiquei pasmo: “Mas, Julius, não entendo mais nada. Você foi preso pelas reuniões que fazia. Você sofreu, quase morreu, passou barbaridades. Volta estropiado e a primeira coisa que arranja para fazer é o que o levou para a prisão?”. Ele respondeu: “Eu é que não entendo você, porque nós, católicos, não temos que ter medo. Não faço nada mais do que minha obrigação! Você não tem que ter medo de nada!”. Eu insisti: “Você não teme o que já aconteceu?”. “Bom! Pelo lado humano, medo a gente sempre tem, porque lá eu sofri, não vou negar. Mas a graça supera o medo. A gente vai e a gente agüenta”. E continuou: “Olha! Acho que vocês lá do Brasil não conhecem como a gente vive a fé por aqui. Pensa bem, o que de pior pode acontecer, se eles me pegarem de novo? Vão me matar! Isso é ruim? Aos olhos do mundo, é péssimo. Mas, para os católicos vou ser um mártir! Estou dando minha vida por Cristo. Então isto é excelente, e não só para mim, que vou ‘prô’ céu. Mas é excelente para a Igreja, porque é mais uma pessoa a dar o testemunho por Cristo. É excelente para meu povo, porque dou exemplo a quem resiste pela fé. É excelente aos colegas que se encorajam. É excelente para os católicos do mundo inteiro. Agora, pensa bem, se não for isso, que outra coisa ruim pode acontecer? Vão me prender de novo, vou ser torturado. Vou ter trabalhos forçados, passar frio, fome, sede. Vão me bater. E daí? Se eu oferecer isto para Deus, também é excelente, porque ele vai me proteger, vai me dar graças. Vai ser excelente para os colegas de prisão. Eles também vão poder testemunhar.
Mas, se eles não me descobrirem, vou continuar ensinando e fazendo todo o bem que possa em volta de mim. Só tem vantagem. Então, José, se você oferecer sua vida a Deus, tudo o que você fizer, vai ser bom. De tudo Deus vai tirar bom proveito. É assim que a gente vê as coisas por aqui”. Durante minha vida encontrei-me várias vezes com Julius. Hoje ele é franciscano e se dedica ao apostolado com a juventude. Seu trabalho é excelente. Quando eu morava na Europa, convidava-o para falar em congressos, em organizações católicas... mas ele detesta publicidade. Dizia: “o que eu fiz, qualquer católico tinha que ter feito”. Era enfático: “Sobre isto eu me calo!”. UMA RÁDIO Não foi o único, mas aquele foi um choque tremendo, que me impressionou no bom sentido. E aí eu perguntei para eles: “O que posso fazer por vocês? E pelos católicos que, como vocês, estão isolados do resto do mundo?”. Responderam: “A melhor coisa que você, jornalista, pode fazer, é tentar fazer algum programa de rádio pra nós. A pior coisa é o isolamento do resto do mundo. A BBC de Londres, a Rádio Europa Livre dos americanos, chegam até nós, mas com programação política. Não há uma rádio católica sequer, que transmita na nossa língua, ou em russo, ou em ucraniano. Na verdade há uma transmissão da Rádio Vaticana para a União Soviética, com dez minutos, duas vezes por semana. Mas, é só notícia oficial da rádio Vaticana. Programa mais vivo, de evangelização, de fé viva, isso não tem mesmo. Então, você poderia fazer alguma coisa nesse sentido”. Respondi: “Está bem! Vou fazer isso!”. Resolvi, então, dedicar-me inteiramente a esta causa. De volta ao Ocidente, contatei uma paróquia russa em Bruxelas, que tinha a única editora de livros católicos em língua russa, naquela ocasião. Lá, eles acharam fantástica a idéia. Então voltei ao Brasil, vendi o que tinha, fiz as malas e fui embora. Fui trabalhar em Bruxelas com os leigos russos da editora. Corri atrás da “Ajuda para a Igreja que Sofre” (AIS). Ao apresentar o projeto, eles concluíram que era interessante.
Quando lhes disse que eu não sou russo, não falava a língua, não conhecia a literatura eslava e nem o povo russo, quiseram saber porque eu “queria fazer uma coisa dessas”. Então lhes expliquei a história de Nijole, de Julius, dos amigos dele. “Isso é um pedido deles. É o que eles mais precisam!”. Mais tarde, estive na Ucrânia e em Moscou. E todos os católicos do leste confirmaram aquele desejo comum. Expliquei à AIS que o trabalho seria de uma equipe que falasse a mesma língua e conhecesse os costumes daqueles povos. Dizia: “Não vou fazer o programa. Vão ser russos, vão ser as pessoas de lá”. Parece que eles se convenceram, porque me deram uma pequena verba e seis meses para formar a equipe, argumentando: “Se isso for de Deus, em seis meses você vai encontrar gente para a tal equipe. Se for só uma idéia maluca, então acabou-se o projeto!”. AS MÃOS DA PROVIDÊNCIA Os russos da paróquia eram pessoas idosas, que nunca tiveram a mínima experiência de mídia, de rádio, de imprensa. Era impossível contar com eles. Era preciso encontrar gente jovem, com alguma experiência de rádio. Recolhi endereços e comecei a procurá-los. Estive em comunidades russas da Holanda, em uma grande colônia eslava de Paris, e nada! Encontrei lituanos em Paris, russos e lituanos em Nova York. Cinco meses depois, eu ainda não encontrara ninguém! Já pensava em desistir. Um dia, eu decidi encontrar-me, durante um fim-de-semana, com um primo que estaria em Paris. O pároco pediu-me, então, a gentileza de entregar um pacote a uma senhora russa de Paris. Fui recebido por sua empregada que agradeceu a gentileza. Ao me despedir, apareceu à porta uma senhora, já de certa idade, que me convidou a entrar, em reconhecimento pelo transporte do pacote. Conversa vai, conversa vem, falei-lhe das dificuldade para implantar a rádio. Aí ela chorou, confessando um sonho de dez anos. Uma utopia, ela dizia, porque contava com uma equipe para fazer a mesma coisa, mas não tinha financiamento. Retruquei: “Pois é, eu tenho financiamento, eu não consigo ter uma equipe”. Naquele momento nascia a nossa rádio. A mulher chamava-se Irina e tinha experiência de rádio. Era uma das católicas mais famosas entre os russos, uma convertida. Tinha sido casada com um diplomata italiano. O SONHO SE REALIZA A “Ajuda para a Igreja que Sofre” financiou nossa rádio e iniciamos, assim, a primeira transmissão católica para a União Soviética. A sede ficava em Bruxelas. As transmissões iam ao ar pela Rádio Montecarlo, de Mônaco, uma das mais poderosas emissoras da Europa, que atinge com clareza de som a antiga União Soviética. Estávamos em 1985, já na Era Gorbachov, bem no início da Perestroika. Uma parte da programação era feita no estúdio do “Solidariedade”, de Lech Walesa, em Paris, que muito nos ajudou. A colaboração foi recíproca, tanto que, depois, quando Walesa se tornou presidente da República, concedeu-me uma medalha do governo polonês, agradecendo o serviço prestado ao Solidariedade, em sua época mais penosa. Nossa idéia sempre foi a de fazer uma rádio não apenas aos católicos, mas também aos ortodoxos de todos os povos da União Soviética. Uma rádio ecumênica, para aproveitar aquelas circunstâncias em que ambas as confissões cristãs estavam sendo perseguidas pelo Regime. Então, convidamos também ortodoxos para fazer uns programas. O primeiro tinha 15 minutos e ia ao ar uma vez por semana. Depois passou para meia hora; depois, duas meias horas. Acabou sendo de uma hora diária. REPERCUSSÃO
O retorno dos programas foi fantástico. Não imaginávamos a repercussão que eles teriam. Começamos a receber, primeiro, dezenas de cartas; depois, centenas; mais tarde, milhares. O público era sedento de religião. O povo queria muito o Evangelho, que lá não circulava e nem se podia publicar. Então, combinamos com uma editora de Bruxelas, que obteve um financiamento junto a empresas, pessoas, a própria “Ajuda à Igreja que Sofre”, para publicar grandes edições dos Evangelhos em russo. Além dele, também a edição de um livro de orações em russo, que a gente despachava através de marinheiros, de barcos, de turistas. E depois, já na Glasnost, mandávamos pelo correio, em pequenos pacotes com poucos exemplares, que já estavam liberados. Enviamos gratuitamente mais de 200 mil livros para a União Soviética, naquela ocasião. Depois que nossa organização cresceu, criamos outra rádio em língua ucraniana, com base em Livov (Ucrânia) e outra para os países bálticos, em língua lituana, baseada na capital da Lituânia. Eram três rádios católicas: a de Montecarlo (para a Rússia), a da Ucrânia e a da Lituânia. Quando veio a liberdade, transferimos tudo para as sedes locais. Criei também uma agência de notícias, para influenciar na imprensa escrita. Era uma Agência de notícias religiosas, ecumênicas, baseada em Moscou. Chamava-se Agência Blagovest. Blagovest é palavra tradicional russa, de conotação religiosa, que significa um convite à oração. E a rádio também passou a se chamar Rádio Blagovest, lá em Moscou. A da Ucrânia passou a se chamar Rádio Ressurreição. A da Lituânia, simplesmente Rádio Católica. O meu objetivo era ajudar os católicos perseguidos. Quando eles deixaram de ser perseguidos e a Igreja se constituiu oficialmente, passei essas rádios para as igrejas locais. A da Ucrânia, hoje, pertence ao Episcopado greco-católico da Ucrânia. A da Lituânia pertence à Conferência Episcopal da Lituânia e a da Rússia constituiu-se em uma Fundação, porque lá a Igreja católica ainda está em situação irregular, muito difícil. O CENTRO CATÓLICO DE RÁDIO E TELEVISÃO Fundei, então, em Bruxelas, uma organização para cuidar disso tudo, que se chamava Centro Católico de Rádio e Televisão (CRTN). O primeiro programa católico para toda a União Soviética, (primeiro e último, porque logo a URSS desapareceu), na história da televisão, foi uma Missa transmitida de Fátima, em Portugal. Foi direto, ao vivo e em cores. Era o dia 13 de outubro de 1990, poucos meses antes da queda da União Soviética. O programa foi um sucesso enorme de público. O pessoal da televisão me telefonava pedindo para não mais fazer promoção da celebração, porque não havia mais a possibilidade de reprisá-la. Acontece que ninguém fazia campanha alguma. Portanto, os primeiros programas cristãos, de televisão, em russo, fomos nós, católicos, que fizemos. Não foram os ortodoxos russos, não. Depois, fundamos também um estúdio de televisão em São Petersburgo, para criar os primeiros programas religiosos de televisão para aqueles povos. E esse estúdio já fez vários filmes, inúmeros documentários. Um deles ganhou prêmios em um festival de cinema cristão, em Trento, na Itália, em 2003. No festival de cinema da Polônia, em Varsóvia, o estúdio obteve o primeiro prêmio. Os documentários são de qualidade, são bem feitos. Hoje a sede da CRTN está em Frankfurt, na Alemanha, com outro objetivo. OS ORTODOXOS Nunca tivemos problema de relacionamento com a Igreja ortodoxa, apesar da situação delicada. Sempre respeitamos muito e nunca fizemos proselitismo para transformá-los em católicos. Queremos a evangelização, isto sim. Que os russos conheçam o Evangelho e se tornem cristãos, sejam eles católicos ou ortodoxos. Reconhecemos que a cultura russa é ortodoxa. É normal que o russo seja ortodoxo. Nesse sentido, eles sempre nos aceitaram bem, e dizem que somos uma força positiva lá dentro e não negativa. Boa parte dos nossos colaboradores são ortodoxos. Eles trabalham sem problema nenhum. Mantemos boas relações com o episcopado, tanto ortodoxo, quanto católico. PADRE ALEXANDRE MEN Tive a graça de conhecer esse padre muito importante na Rússia, no contexto que descrevi até agora, porque ele criou, dentro da Igreja ortodoxa uma corrente aberta, ecumênica, em favor da reconciliação com os católicos. Ele dizia que “os muros que nós erigimos entre nós não são suficientemente altos para chegar a Deus”. A maior parte dos nossos colaboradores segue suas idéias.
Pe. Alexandre Men foi assassinado em 1990, por um golpe de machado, por causa do trabalho que desenvolvia. Seu trabalho incomodava alguém, com a conversão de milhares de pessoas, com as conferências, com o livro publicado (no Brasil pela editora Cidade Nova) com o nome de “Jesus mestre de Nazaré. A obra teve muito sucesso no nosso país, mas na Rússia foi um best seller, que vendeu mais de um milhão de exemplares. Até hoje é um livro muito lido, muito procurado, principalmente, porque influenciou a intelligentzia e a juventude russa, sobretudo universitários, artistas, pintores, escritores, pensadores. Eram os que mais se interessavam por suas idéias. Ele imprimiu sua marca no pensamento russo do século XX. (Cf. Mundo e Missão, nº 41, março de 2.000, p. 34) O ÍCONE DE KAZAN Muito me interessavam as questões da Rússia e, como Nossa Senhora falou, em Fátima, que a Rússia iria se converter, então acabei tornando-me membro do Movimento Internacional de Fátima, pelo seu Apostolado Mundial que – na época – se chamava o Exército Azul de N. Sra de Fátima. Fui eleito para a diretoria internacional desse movimento em Fátima. Chegou-me a notícia que o ícone Mãe de Deus de Kazan, Padroeira da Rússia, estava à venda na Europa. E a tal venda para ortodoxos e católicos fracassou, pois o ícone era muito caro. Então, o diretor do Exército Azul, dos EUA, fez uma campanha e comprou a peça. Construímos uma igreja em estilo russo, em Fátima, para guardar o ícone. Mas, ele era muito valioso e havia pressões soviéticas para que fosse devolvido à Rússia, para ser colocado em museu, como propriedade do Estado. Ficamos com medo que comunistas roubassem a peça e desaparecessem com ela. O ícone foi, portanto, guardado o tempo todo no cofre de um banco em Lisboa. Mas eu pensava: “Caramba! Gastamos uma fortuna para comprar o ícone e ele fica guardado no cofre de um banco, como se fosse uma jóia. Isso não faz sentido!”. Nosso objetivo era devolver o ícone aos ortodoxos, no dia em que a União Soviética liberasse a religião para o povo russo. Os ortodoxos são os verdadeiros donos dessa imagem, sua padroeira. Então, em reunião do Conselho do Exército Azul, eu expus a idéia de darmos a imagem ao Santo Padre, para que ele a devolvesse ao povo russo, tão logo julgasse oportuno. O assunto foi discutido e prevaleceu a idéia de entregar a imagem ao Papa, com a devida anuência do Episcopado português. O Vaticano mandou examinar o ícone antes de aceitá-lo, e verificou que ele é, realmente, tão antigo quanto autêntico. E lá se foi o ícone para a capela particular do Papa. E agora ele o devolveu ao patriarca ortodoxo de Moscou, Aléxis II. Houve tentativas para o papa levar o ícone em mãos para o povo russo. Mas o patriarca ortodoxo achou que isso não seria oportuno. Penso que havia um certo receio do patriarca e de seus conselheiros sobre o aumento da popularidade de João Paulo II na Rússia. Eles sabem a importância do papa na queda do comunismo no Leste europeu. Uma visita de João Paulo II iria atrair multidões. Muitos ortodoxos não iriam aceitar essa idéia. AJUDA À IGREJA QUE SOFRE
A Obra, inspirada por Nossa Senhora de Fátima, expandiu-se, passando a ajudar a Igreja perseguida pelo comunismo, no Leste europeu. Com o tempo, alcançou o Extremo Oriente. A pedido de João XXIII, atingiu a América Latina e foi assim que, em 1962, a Igreja e os bispos do Brasil começaram a receber ajuda da entidade. Três anos mais tarde, começaram os seus trabalhos na África. Em 1964, sob o episcopado do Papa Paulo VI, a Kirche in not (nome em alemão da “Ajuda à Igreja que Sofre”) foi reconhecida pela Santa Sé. Isto foi confirmado, em 1984, pelo Papa João Paulo II, que transformou a AIS em uma associação pública de fiéis de caráter universal. Ela é, assim, a própria Igreja, estendendo sua mão àquele filhos que mais sofrem na sua missão evangelizadora. Fonte: AIS do Brasil (aisbr@ais-br.org)
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