Revista "MUNDO e MISSÃO"
Igreja no Mundo - Ásia
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A história política da pequena ilha de Timor Leste pode ser resumida em poucos traços, mas esconde um emaranhado de interesses coloniais e sangue. Foi colonizada em 1520, com a chegada dos portugueses que ocuparam também as ilhas Flores, Moluccas e Célebes. Estavam interessados nas especiarias e na extração da madeira de sândalo. Em 1656, chegaram os holandeses com os mesmos objetivos. Em 1859, as duas potências européias se acordaram para dividir a ilha do Timor: os holandeses ocuparam a parte ocidental da ilha, o atual Timor Oeste, e os portugueses o leste da ilha, ou Timor Leste.
As duas potências pouco se importavam com o desenvolvimento do território, a instrução e a evangelização: o que Ihes interessava era a exploração dos recursos da ilha para enviá-los aos mercados dos próprios países na Europa. Somente a Igreja interessou-se pela instrução e formou, no Timor Leste, uma elite de língua portuguesa que constituiu o segmento populacional intermediário entre a administração colonial e os moradores nativos. Em 1974, Lisboa decide, improvisamente, livrar-se de suas províncias e, em Timor Leste, se estabelece o caos. Surgem partidos: a União Democrática do Timor - UDT - que propunha uma descolonização gradual e a manutenção de uma estrita colaboração ou até uma federação com Portugal; a Frente Revolucionária de Timor Leste Independente - Fretilin -, um agregado de tendências de esquerdas, com forte consenso popular de nacionalismo, que se posicionara pela independência. O Fretilin congregava estudantes, trabalhadores e membros eclesiais progressistas. Um terceiro grupo minoritário era pela integração com a vizinha Indonésia. Os territórios de Timor Oeste já se tinham agregados à Indonésia desde 1949, aliás, a configuração territorial da ilha, próxima de um grande Estado como a Indonésia, podia justificar a natural anexão do Timor Leste. Na realidade, os 400 anos de colonização portuguesa tinham criado um sentimento de unidade profunda entre os timorenses do leste, fato que, no momento da decisão, fez com que a maioria deles optasse pela independência. Os contrastes não eram tanto sobre a independência, mas sobre o modelo de sociedade e de estado que os timorenses queriam organizar para si. Como a maioria das ex-colônias portuguesas, também no Timor Leste, venceu a esquerda socialista independente, com o apoio das bases rurais que sempre foram deixadas à margem pelo governo colonialista português.
Assim aconteceu com o Timor Leste que, sendo pequeno e não tendo apoio internacional, devia se alinhar com a China para sobreviver, fato, porém, que desagradava a Indonésia e a Austrália que não podiam tolerar ter a China comunista perto dos próprios territórios. Assim, após uma breve guerra civil que favoreceu o Fretilin, em 1975, a Indonésia ocupou militarmente Timor Leste. Os Estados Unidos, depois da recente derrota no Vietnã, não intervieram, deixando que a Indonésia ocupasse Timor Leste com o beneplácito da Austrália. Para Timor Leste iniciava um terceiro capítulo: após a colonização portuguesa, começava a violência da ocupação militar. A Indonésia não teve nenhum respeito pela população e pela propriedade dos civis. Com os bombardeios destruíram centenas de aldeias, revoltando os timorenses que fugiram para as montanhas e começaram a apoiar o Fretilin que se tornou um grupo de pouco milhares de guerrilheiros independendistas anti-indonésios. Criou-se, portanto, uma espiral de violência desumana e gratuita que perdurou por mais de 24 anos. Nesse período, fala-se de duzentos a trezentos mil mortos entre as ações da guerrilha, fome e doenças, mas ninguém poderá fornecer o número exato de vítimas. A guerrilha foi cruenta de ambos aos lados, seja por parte dos indonésios, que mantinham uma média de 20 mil soldados na ilha, como por parte do Frelintil - o braço armado do Fretilin. Apesar do minguado nUmero de guerrilheiros, os militares indonésios estimaram perdas entre 20-30 mil soldados.
Após um primeiro período de guerra e destruição, a Indonésia quis cativar os timorenses com programas de desenvolvimento e sociais, como construção ou recuperação de estradas, escolas e hospitais, superando tudo o que os portugueses tinham feito em 400 anos de ocupação. A respeito dos reais motivos para modernizar Timor Leste há divergência e discussões: um seria conquistar a simpatia do povo e tira-lo da influência do Fretilin. Outros sustentam que tudo isso foi um esforço da Indonésia para preparar uma infra-estrutura e, em seguida, apoderar-se definitivamente do território e das suas riquezas, após eliminar os habitantes locais. De fato, toda a administração local estava nas mãos dos indonésios e quando esses se retiraram, após o referendum do 30 de agosto de 1999, os soldados tentaram destruir tudo o que eles tinham construído anteriormente.
Os 700 mil moradores da pequena ilha de Timor Leste abraçaram, de maneira massiva, o catolicismo, durante a invasão dos muçulmanos indonésios. A Igreja precisou exercer um delicado papel de suplência civil num contexto de grandes tensões. Ora, com a independência abre-se o caminho para um retorno à sua missão estritamente pastoral
A colonização quatrocentenária portuguesa e a firmeza independentista do Fretilin conseguiram dar uma identidade ao povo e desraigá-lo do contexto geopolítico australiano. A quase total ausência do islamismo na ilha contribuiu para tornar os timorenses estranhos ao contexto asiático e até desconfiados, tanto que, no decorrer de 24 anos de ocupação, a Indonésia não exercitou nenhuma coação ou pressão religiosa para impor o islã. Pelo contrário, talvez por fins políticos, a liberdade de culto, de pregação, de ensino religioso nas escolas foi livre e subvencionada pelo governo de Jacarta. Além disso, o governo indonésio, ainda para cativar a benevolência do povo timorense, financiou consideráveis iniciativas e construções de edifícios eclesiais, como a catedral de Dili, uma das maiores igrejas do sudeste asiático.
A ocupação indonésia até impeliu os timorenses à conversão ao catolicismo. Se no momento da partida dos portugueses, em 1975, os católicos eram 200 mil (25% da população), em 1999, quando da saída da administração indonésia, eram 90%. Vários fatores contribuíram para a passagem da população ao catolicismo, como a obrigação, durante a ocupação indonésia, de se declarar a pertença a uma das grandes religiões (catolicismo, protestantismo, budismo e hinduísmo). A razão, porém, que mais explica esse repentino crescimento é sociopolítica. O catolicismo foi uma forte e eficaz referência cultural e de diferenciação da ideologia Indonésia de integração. A Igreja, com sua organização de paróquias, casas religiosas, instituições sociais, sacerdotes e religiosas que arriscavam a vida espontaneamente, apresentou-se como uma organização solidária e acessível ao povo humilde e uma alternativa à ocupação estrangeira. O Estado indonésio promovia a língua nacional; a Igreja promovia a língua local, o tetum, até na liturgia. O governo insistia para um controle dos nascimentos através de qualquer método: a Igreja a abria dispensários para educar e ensinar métodos nahirais. Os militares pediam aos sacerdotes que, nas homilias, falassem de integração com a Indonésia; eles, pelo contrário, defendiam a livre escolha por um referendo. Fala-se muito do atual bispo, dom Carlos Ximenes Belo, e de sua veemente
defesa da vontade popular, mas o mais duro foi o seu predecessor, dom
Martinho Costa Lopes, implacável defensor dos direitos humanos,
que foi obrigado a demitir-se e exilar-se em Portugal, em 1983. No lado indonésio, a situação e o apoio dos católicos não foi sempre claro. Inicialmente, havia um apoio tácito a tentativa de integração à Indonésia do território timorense. Depois dos excessos militares, houve uma cautelosa e tímida tomada de posição do episcopado indonésio sobre a violação dos direitos humanos. Por mais de um quarto de século, os timorenses ficaram sozinhos numa luta difícil, mas a teimosia, o desprezo do perigo e a determinação sem fim transformaram-se em certeza de vitória. Assim, aconteceu a vitória que estremeceu a economia local, mas avivou o espírito patriota.
A Igreja sempre esteve presente no desenrolar dos acontecimentos, até a declaração de independência e a formação de um governo legítimo e agora terá o papel de ajudar a reconstruir a sociedade, na parte educativa, social e religiosa. O caminho não será fácil porque existem, especialmente no Fretilin, facções anticlericais, herdeiras da melhor tradição comunista russa. Mas, as pessoas que conseguiram levar o país à independência, saberão também levá-lo à plena democracia.
Quando Timor Leste tiver resolvido os problemas mais imediatos, como a organização do país, e se dedicar a identificar os lugares mais simbólicos da luta pela independência, não poderá esquecer a pequena igreja de Suai, devendo transformá-la num monumento nacional. No dia 6 de setembro de 1999, algumas centenas de pessoas foram massacradas dentro e no pátio da igreja, uma semana após o referendo sobre a independência. Entre eles, estava o vigário, pe. Hilário Madeira, de sentimentos anti-indonésios, mas também o jovem jesuíta, Tarsisius Dewanto, indonésio recém-chegado. Tudo foi destruído e queimado. As seis irmãs canossianas do convento em frente da igreja ainda se perguntam qual santo as protegeu, poupando-lhes a vida. Alguns milicianos queriam matá-las Depois foram carregadas num caminhão e levadas a Atambua em território indonésio e, por fim, soltas. Quantos defensores da independência foram mortos naqueles dias? E quantos civis? Ninguém sabe: talvez várias centenas. Como serão julgados esse crimes e violações dos direitos humanos, antes e depois do referendo sobre a independência? A resposta não é fácil por diferentes motivos. Em primeiro lugar, os principais responsáveis moram na Indonésia e Jacarta não está muito propensa a processar seus generais e soldados. Em 21 de fevereiro de 2002, um tribunal indonésio acusou formalmente sete pessoas, entre as quais o ex-governador do Timor Leste, Abilio Soares, o ex-chefe da policia, Herman Sedyono, e outros policiais e militares. A acusação seria de crime contra a humanidade: eles teriam provocado ou nada feito para evitar a chacina que seguiu à proclamação dos resultados do referendo, porém, são figuras que tiveram um papel secundário e, certamente, executaram ordens superiores. A opinião publica e as organizações humanitárias internas e internacionais pedem que sejam inquiridos os altos comandos militares, entre os quais o então ministro da Defesa e chefe do Estado maior, general Wiranto. Alguns propõem até um tribunal internacional, como dom Belo, que diz, claramente, não confiar nos processos realizados em Jacarta: "Acreditamos que somente um tribunal internacional possa processar os generais e os comandantes sobre as violências cometidas. Alguns diplomatas ocidentais nos dizem que o custo desses tribunais seria muito alto e politicamente complexo. Mas também existe um custo pelo falimento da justiça A justiça não pode ser o privilégio de poucos: deve ser universal. Então, o que está bem para a Croácia e Ruanda deve funcionar também para Timor Leste. Não se pode dar trégua a monstros políticos como aqueles que desencadearam a destruição no Timor Leste em 1999...". Entre os que não estariam completamente de acordo, está Xanana Gusmão, que venceu as eleições presidenciais, realizadas em 14 de abril 2002. Para ele, tido como o único personagem político que pode guiar a re-estruturação social e política do país, o Timor tem que deixar atrás de si o passado e olhar para o futuro." Somente depois de ter reconstruído legalmente o pais e constituído uma suficiente estabilidade interna, será possível fazer justiça e pedir a Indonésia, hoje com graves problemas políticos internos, de colaborar". |
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