Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Ásia


Monges budistas em oração

Após o vendaval dos khmers vermelhos que arrasaram o Camboja, a Igreja começa a ressurgir por caminhos imprevisíveis

Mekong é um rio impetuoso, quando, nas cheias, rompe as barragens e se torna o patrão de tudo o que está ao longo de suas margens. Destrói, mas também deixa o terreno preparado para a semeadura. Ele é o exemplo do que aconteceu no Camboja nos últimos trinta anos. Os khmers arrasaram o país, mas ele está ressurgindo com mais vigor.

Uma cidade onde a Igreja está renascendo, com muitos esforços e sacrifícios e por circunstâncias milagrosas, é Kompong Cham, sede de uma prefeitura apostólica. Nela vive Bun Nath que, ainda criança, nos anos setenta, conheceu o missionário francês André Lesouef, membro das Missões de Paris. Como muitas crianças, embora não cristãs, Bun Nath gostava de freqüentar a casa do missionário, sem prever sua importância no futuro da Igreja de Kompong Cham.

 

O VENDAVAL DOS KHMERS VERMELHOS

Em 1975, os khmers vermelhos combateram todas as religiões presentes no Camboja, expulsaram todos os religiosos estrangeiros, proibindo-os de voltar sob pena de prisão e morte, e aprisionaram todos os monges budistas. No meio da tempestade política que arruinou o país por mais de 17 anos, Bun Nath não esqueceu a lembrança do missionário que era amigo de todos, especialmente das crianças, sem pretender sua conversão ao cristianismo. Durante o regime dos khmers, até a vida particular das pessoas era regulada e gerenciada pela Angkar (a Organização do Khmer) que escolhia, a dedo, com quem cada um devia casar.

Assim aconteceu com Bun Nath: casou e teve quatro filhos: uma menina, um casal de gêmeos e um menino. Com o passar dos anos, descobriu-se que os gêmeos e o menino eram portadores de uma doença incurável, provocada pela incompatibilidade sangüínea entre os pais. Assim, em 93 e em 97, morreram os gêmeos, com dez anos, e Tench Rataná também está marcado pela doença que não deixa esperanças de sobrevida. Somente a primogênita, por motivos e causas desconhecidas, está viva e com saúde. No início dos anos 90, após a retirada dos vietnamitas e a derrota dos khmers vermelhos, o Camboja reiniciou os contatos internacionais.

Com essa tímida e restrita abertura, alguns missionários, expulsos 15 anos antes, puderam voltar. Entre eles, estava pe. André Lesouef. Os missionários e os estrangeiros, em geral, não podiam se deslocar livremente no país, mas somente com a devida permissão do governo e por um tempo controlado. Pe. André conseguiu uma licença para voltar a Kompong Cham e ficar dois dias e uma noite. Já estava com mais de setenta anos, mas algo o guiava nessa viagem. Ficou os dois dias no mercado da cidade, procurando, entre as pessoas, algum rosto conhecido, ou esperando ser reconhecido por algum dos antigos cristãos.

Pedia informações e mostrava velhas fotos, mas voltou desiludido pelo silêncio e por não ter conseguido um nome ou uma notícia sequer dos seus antigos paroquianos. Quatro meses depois, inesperadamente, recebeu uma carta. Era de Bun Nath que, no envelope, tinha colocado uma antiga foto de quando era criança e algumas coordenadas para que o padre, se quisesse, pudesse reencontrá-la. Foi uma surpresa para pe. André e o começo de um evento que marcará o futuro da Igreja de Kompong Cham.

O padre voltou à cidade, procurou entre as bancas do mercado e reencontrou Bun Nath. Durante os anos da revolução, ela nunca tinha esquecido o padre André e tinha prometido a si mesma que, se no futuro fosse possível, ela se tornaria católica. Em 1991, se fez batizar na Igreja metodista, sempre esperando poder reencontrar pe André, até que o reencontro aconteceu. Pe. André voltou para sua antiga paróquia que não mais existia, hospedou-se por alguns meses na casa de um tio de Bun, começou a procurar um terreno com uma casa que se tornou a única igreja da cidade. Por mais de dois anos, administrou o catecismo a Bun Nath e seus filhos que, no fim, receberam o batismo, enquanto o marido preferiu ficar budista.

AS NOVAS COMUNIDADES

Bun Nath conseguiu entusiasmar uma moça, Tharim, sua colega no mercado, e sua família e, também, Songvat. Assim, a pequena comunidade de poucas pessoas lentamente aumentava. Juntou-se também uma família dos khmers, a etnia tradicional do Camboja e mais outras pessoas. Tharim e Songvat decidiram dar um passo a mais no caminho de uma consagração, constituindo o núcleo daquela que seria a primeira experiência religiosa feminina da Igreja cambojana, após o vendaval dos khmers vermelhos. Mais tarde, chegou da vizinha Tailândia, a Congregação das Irmãs da Santa Cruz.

Ultimamente, esse pequeno grupo de católicos favoreceu o surgimento de outras pequenas comunidades no interior do município. Em geral, essas comunidades se iniciam ao redor de um ou dois cristãos batizados que, às vezes, tinham passado uma temporada nos campos de prófugos na Tailândia e, de volta às suas aldeias, se tornaram iniciadores e animadores de pequenos núcleos cristãos. Hoje, na Prefeitura Apostólica de Kompong Cham, estão presentes nove sacerdotes de diferentes nacionali-dades, outras tantas irmãs e 25 leigos catequistas que colaboram na animação e expansão de várias comunidades. Já pe. André, por causa da idade e saúde, deixou a responsabilidade da prefeitura apostólica e foi substituído por Anthonysami Susairaj, missionário das Missões de Paris, mas de nacionalidade indiana.

A Igreja durante os anos dos khmers vermelhos


Igreja católica em Kompong Tom, Camboja

A Igreja do Camboja deve seu declínio às freqüentes mudanças de governos e invasões a que o país foi submetido desde os anos 60. Após a retirada dos franceses, o governo filo-americano do general Lon Nol tentou manter uma neutralidade diante da guerra do Vietnã, país vizinho, mas começaram as revoltas em algumas regiões com a sustentação dos norte-vietnamitas, depois houve a entrada de um corpo militar estadunidense que operava no Vietnã do Sul e, enfim, a conquista pelos khmers vermelhos. Nesses anos de luta e guerra civil (1960-90), a Igreja praticamente foi cancelada do mapa do país, com a expulsão de sacerdotes, religiosos e religiosas estrangeiros, a prisão e morte de religiosos cambojanos e vietnamitas. Com possibilidade de retorno dos missionários estrangeiros, a Igreja começou lentamente a ressurgir e, atualmente, conta com duas prefeituras apostólicas, um vicariato (Phmom Peng) e os fiéis seriam cerca de 25 mil, na maioria de origem vietnamita.

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