Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - Europa

Eduardo Guedes

Moscou era chamada também de “terceira Roma” (depois de Roma e de Constantinopla), porque, nos finais da Idade Média, libertadas finalmente da ocupação tártara, as terras russas tornaram-se uma das mais prome-tedoras regiões para a difusão do cristianismo.

Até a revolução de 1917, Moscou tinha mais de mil igrejas, e ainda hoje, não obstante a provação de 70 anos de regime comunista ateu, a Igreja ortodoxa russa (IOR) continua a ser a maior entre as Igrejas orientais. Mas as expectativas, criadas com a queda do regime comunista e com a chegada da liberdade religiosa, estão a deparar-se com dificuldades antes não previstas, com sérias conseqüências no diálogo ecumênico. Nos últimos 12 anos, as relações entre a Igreja ortodoxa e a católica, não obstante o esforço continuado de diálogo, tem enfrentado regularmente momentos de difícil compreensão recíproca, apesar de se reconhecerem como “Igrejas irmãs” e de não haver divergências em questões de doutrina.


Nas fotos, imagens da devoção ortodoxa na Rússia, agora livre, novamente incipiente, mas forte e generosa.

Recentemente, fizeram-se sentir novas tensões quando, no início de fevereiro, Roma anunciou que seriam criadas quatro dioceses católicas em terras russas e que ficariam unidas numa “província” com um “metropolita”, que teria sede em Moscou. O patriarca Alexis II, numa entrevista, classificou a iniciativa da Igreja católica como “invasão da Rússia” e a Igreja ortodoxa informou o Vaticano de que não era desejável a realização da visita do cardeal Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, prevista para finais de fevereiro. O metropolita Kirill, responsável pela “relações exteriores” do Patriarcado de Moscou, disse que as relações com a Igreja católica tinham entrado “num beco sem saída” e que agora seria necessário um período de reflexão antes de retomar o diálogo. O núncio apostólico em Moscou, mons. Georg Zur, alguns dias antes do anúncio oficial da decisão de Roma, tinha informado confidencialmente o Patriarcado de Moscou, mas as reações negativas da Igreja ortodoxa transbordaram imediatamente para a imprensa.

A posição da Igreja católica, como foi sublinhado pelo arcebispo Tadeus Kondrusievich – atualmente metropolita da “província” da Rússia – é que a criação das dioceses é um assunto interno da Igreja católica, que tem o direito de organizar-se de acordo com as suas necessidades pastorais. Segundo as estimativas da Igreja, os católicos na Rússia são cerca de 600 mil; existem oficialmente 302 comunidades paroquiais e 108 locais de culto, entre igrejas e capelas, espalhados pelo território russo. Note-se que, até 1991, havia, na Rússia, oficialmente, apenas duas igrejas católicas em função (uma em Moscou e outra em Leningrado), embora existissem comunidades clandestinas e algumas “casas de oração” toleradas pelo regime comunista. Até 11 de fevereiro, os quatro bispos responsáveis pelos católicos eram administradores apostólicos e tinham sede respectivamente nas cidades de Moscou, Saratov, Novossibirsk e Irkutsk. Tendo em conta a “sensibilidade” da IOR, as novas dioceses não tomaram o nome das cidades onde residem os bispos, mas os nomes das “catedrais” onde têm sede. Assim foi criada a diocese da “Mãe de Deus” em Moscou, a de “São Clemente” em Saratov, a da “Transfiguração” em Novossibirsk e a de S. José em Irkutsk.

O território canônico


Nas comunidades do interior a vida religiosa é mais intensa e os fiéis voltam às celebrações

Em 1988, com as novas liberdades iniciadas com a “perestroika” de Mikhail Gorbachov, tiveram lugar as celebrações oficiais do milênio do “batismo da Rússia”, que, como era tradicional, coincidia com o batismo do “senhor” da região, então o príncipe de Kiev, Vladimir, “o Santo”. Uma delegação da Igreja católica foi oficialmente convidada e as relações estabelecidas entre o Vaticano e a URSS abriam novas perspectivas. Mas, três anos mais tarde, o cenário alterou-se. Na Ucrânia ocidental, os fiéis da Igreja greco-católica (de rito semelhante ao da Igreja ortodoxa, mas ligada a Roma) começaram a reivindicar a devolução de seus templos, fechados ou entregues à IOR, quando Stalin decidiu que os greco-católicos não tinham direito à existência na União Soviética. As tensões entre os católicos de rito oriental e os ortodoxos chegaram a “vias de fato” e a Igreja ortodoxa acusou Roma de ter se apoderado, pela força, de vários templos ortodoxos e de estar fomentando a destruição da Igreja ortodoxa naquela região da Ucrânia. Em maio de 1991, Roma cria duas administrações apostólicas na Rússia, uma para a parte européia e outra para a Sibéria, e o Patriarcado de Moscou começa a falar de “invasão do seu território canônico” e de “proselitismo católico” entre os fiéis ortodoxos. No início da década de 90, havia na Rússia muito interesse pelo cristianismo e pela religião em geral, e efetivamente os católicos eram uma pequena fração dos grupos religiosos que avançavam na URSS, aproveitando a nova abertura.

Desde as religiões orientais aos pregadores de Igrejas livres americanas, que enchiam estádios, tudo era novo e interessante para quem antes esteve impedido de se informar livremente sobre a religião. No entanto, parece que as suscetibilidades da Igreja ortodoxa foram mais atingidas pelas iniciativas da Igreja católica do que pelas atividades de outros grupos (os fiéis das Igrejas batistas são bem mais numerosos do que os católicos). Para as Igrejas orientais, existe, de fato, o conceito de “território canônico” que, em geral, coincide com o território de uma nação, mesmo se é considerado lícito dar assistência aos próprios fiéis residentes no território de outra Igreja.

Mas, segundo a Igreja ortodoxa, a Igreja católica não está só dando assistência às populações de etnia polonesa, alemã ou lituana de origem católica, mas dirige o seu apostolado aos russos que, quer batizados quer não, são considerados “rebanho” da Igreja ortodoxa. Para a Igreja católica, mesmo no respeito das tradições ortodoxas da Rússia, prevalece a liberdade de consciência, independentemente da origem étnica do cidadão. Além do mais, dioceses católicas já existiam na Rússia antes da revolução comunista, por isso não se está fazendo nada de substancialmente novo.

Visita do papa mais difícil?

É do conhecimento geral que João Paulo II gostaria de ir à Rússia e que essa visita teria um significado especial para o papa que viveu num país comunista e que não esteve alheio à derrocada do comunismo na Europa. No entanto, como já repetiu várias vezes o patriarca Alexis II, a Igreja ortodoxa pretende, primeiro, resolver os pomos de discórdia, que se sintetizam em “invasão do território canônico”, “proselitismo”, “situação na Ucrânia ocidental”.

Uma “vídeo conferência” que, no dia 2 de março, ligou o Vaticano a Moscou e a outras cidades européias, num encontro de oração pela juventude, teve um grande eco na capital russa e foi apelidada de “visita virtual” do papa, na impossibilidade de poder deslocar-se pessoalmente à Rússia. No entanto, há “conversas de bastidores” em que se diz que as coisas não estão tão mal como podem parecer. Apesar de tudo, o diálogo avança e, além do mais, o presidente Vladimir Putin estaria interessado em que a visita de João Paulo II se realizasse. Dada a tradicional ligação entre a Igreja ortodoxa e o poder civil, não é de excluir que, de um momento para o outro, os obstáculos possam desaparecer.

Eduardo Guedes é jornalista em Moscou

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