Revista "MUNDO e MISSÃO"
História
CHINA:sedução
e segredos Texto e fotos de Ernesto Arosio
Despontando como uma potência econômica, depois de anos de isolamento pelo comunismo extremista e pela revolução cultural, a China é um país misterioso e atraente. Pelos palácios e templos ainda é possível perceber os ecos de um tempo em que a casa imperial era a sede central do poder no mundo, em que o filho do céu reinava sobre o Tien-hsia, o abaixo-do-céu. No decorrer dos séculos, outras vozes foram se sobrepondo aos comandos celestiais, marcando o povo chinês com uma silenciosa e paciente tenacidade. Esse mundo que se abre ao Ocidente não revela todos os seus segredos, mas fascina e envolve por sua história incomparável e originalidade ímpar. Visito a China pela primeira vez, depois de muito ouvir as experiências e as impressões dos outros. Conheço seu passado pelos livros e acompanho sua história presente pela mídia que, nem sempre, apresenta tudo às mil maravilhas. A Praça da Paz Celestial e aquele estudante diante do tanque, as execuções públicas e o silêncio diante de certas questões políticas e sociais, a Igreja católica oficial e outra clandestina, entre outras, permanecem, para mim e para o grupo com que faço essa viagem, questões pouco claras e até mesmo constrangedoras.
Nossos guias (tivemos três: dois homens e uma moça) esquivavam-se diante de questões mais embaraçosas. Segundo eles, tudo está bem no país, graças ao merecimento dos salvadores da pátria, isto é, Mao e o partido. Na visita à Praça Tiananmen, não quiseram nos mostrar o local em que os estudantes ergueram a estátua da liberdade e respondiam laconicamente que a pena de morte é justamente aplicada a criminosos. Passamos diante de algumas igrejas católicas que, curiosamente, estavam sempre fechadas. Muitas perguntas ficaram sem respostas.
Quanta gente! A primeira coisa que chama a atenção na China, logo ao sair do aeroporto, é a quantidade de gente, a confusão nos cruzamentos entre os carros, centenas de bicicletas e motocicletas (parecem sucata) que brigam para trafegar no caos e por um espaço para sobreviver. Esse caos, que nunca acaba, torna-se mais intenso no horário de pico, quando o povo vai ou volta para o trabalho: é uma multidão de gente que nunca vi em outros países. Noite adentro, esse desfile humano não pára, porque muitos preferem dormir perto do local de serviço, comem apressadamente nas ruas, visto que o trabalho, mesmo com uma miserável remuneração, é precioso para os chineses sobreviverem. As modernas avenidas de Pequim e Xangai com seus arranha-céus de centenas de metros de altura e com uma arquitetura futurista, desconhecida mesmo em outros países capitalistas, com luzes amarelas, com poucos policiais, armados apenas de um celular, e pouquíssimos mendigos, contrastam com os becos e as vielas superlotadas de mesas e pessoas, com os bares e botecos com seus fogõezinhos a gás, onde se prepara a comida na rua, na sujeira, em meio ao vozerio de pessoas meio bêbadas que acompanham uma música chinesa, numa mistura de fumaça e tristeza. Aí se encontra a China pobre, não sofisticada pela modernidade, e também muitos policiais, só que, dessa vez, armados. A China chegou, em 2000, a um bilhão e 300 milhões de pessoas! Pequim e Xangai estão beirando os 15 milhões. O progresso e seus malefícios acompanham o crescimento: a poluição atinge níveis insuportáveis e faz com que entre as dez cidades mais poluídas do mondo, sete sejam chinesas. A cada ano, há 170 mil mortos por causa da poluição. O dia-a-dia, para a maioria do povo pobre, sem trabalho e esperança, é difícil. A China é o país que registra o maior número de suicídios, especialmente de mulheres jovens e idosas. Uma vida regulada até nos detalhes por um governo policial, invisível mas onipresente, faz do chinês um povo enigmático. Todavia, muitas vezes, talvez até por causa das dificuldades de comunicação, tive a impressão de uma tristeza difusa, disfarçada, silenciosa.
Em Xian, uma noite, enquanto passeávamos perto de um magnífico hotel de estilo europeu, reservado aos turistas e chineses ricos, e nos sentíamos observados com desconfiança pela maior parte dos transeuntes, um rapaz, acompanhado de uma moça, aproximou-se e tentou começar um diálogo num nglês bem pobre. Quando alguns policiais apareceram, ele se afastou uns passos e nos alcançou na outra esquina: queria ir para o Ocidente. As famílias, que devem ter apenas um filho, moram em casas de 35m2; os empregos são escassos e o salário baixo. As mulheres, especialmente, parecem mais fechadas, mais sobrecarregadas; há muitos idosos sentados nas calçadas, jogando uma espécie de gamão. Na noite de 1º de julho, comemorava-se o 80º aniversario da fundação do partido comunista chinês, no moderníssimo centro de Xangai: casais jovens passeavam, muita gente amontoava-se no Pudong, grupos de turistas não chamavam a atenção de ninguém. Era festa, mas faltava o principal: alegria. A questão do filho único Voltando à questão da política do filho único, tentei puxar o assunto com os guias e a resposta era a mesma: o país precisa limitar os nascimentos para evitar futuras tragédias. Cada um dos dois homens que nos guiaram pela China tinha um filho, cursando a faculdade que o governo indicara. Para eles, estava tudo bem. Todavia, nossa guia tinha uma história bem triste. Sara (nome fictício) tem 26 anos, é solteira e sustenta os pais com quem mora num pequeno apartamento alugado. É jovem e bonita, mas não pode se casar porque, pelo casamento, passaria a ser propriedade da família do marido, apesar da igualdade que o regime comunista apregoa também para as mulheres, e seus pais poderiam morrer à mingua, de fome e na rua, despejados do apartamento visto que não têm nenhuma aposentadoria provento para suprir as necessidades mais básicas. A filha é o único sustento. A política do filho único é rigorosa nas cidades grandes, pouco importa se a criança é homem ou mulher. Um segundo filho faz perder o apartamento e acarreta, automaticamente, uma diminuição do salário. Nos campos, devido à necessidade de braços para a lavoura e porque a mecanização só existe nas grandes fazendas coletivas, o governo tolera um segundo filho, ainda mais se o primeiro for mulher. Quando perguntei como se resolveria o problema da falta de mulheres com quem se casar, um dos guias respondeu que, na China, o importante não é o indivíduo, mas o bem-estar do país. Incenso e oração Na China todas as religiões são livres e cada um pode praticar a que quiser: era a afirmação de todos os guias. Tudo tão livre, mas não consegui visitar nenhuma igreja católica ou protestante, porque não tinha licença dos responsáveis. Só não consegui entender quem eram esses responsáveis que deviam nos dar autorizações e permissões, já que tinha recebido licença de visitar o país. Nos passeios planejados pela agência de turismo chinesa, visitamos vários templos e duas mesquitas. O templo budista mais importante, o dos Lamas, em Pequim (Ver Povos e Culturas) é o maior e bem conservado da cidade. Disseram os guias que ele foi preservado da destruidora fúria estudantil da Revolução cultural, em 1966, pela ação direta de Chu en lai, ministro do exército, que mandou que este e outros monumentos importantes fossem protegidos pelo exército.
Na entrada do recinto interno, grandes incensórios fumegantes espalhavam uma densa e acre fumaça, cujo forte cheiro obrigava os turistas a taparem o nariz, para não sufocarem. Os fiéis budistas aí rezam e fazem suas ofertas. Os salões são ricamente decorados com pinturas, que lembram os momentos mais importantes do Iluminado. Cada Buda está numa posição para indicar as virtudes que caracterizam o budismo: paz, tranqüilidade, felicidade, meditação, abundância e sabedoria. Espalhados pelos jardins do templo, há enormes sinos, esculturas de dragões e leões e os cilindros das orações. Em um pavilhão à direita do edifício onde está uma estátua de 18 metros de Buda, os lamas preparavam-se para seus rituais e, ao tinir de uma campainha, foram cantando sentar-se num lugar que somente eles podem ocupar. Os templos budistas são hoje lugares religiosos, mas também abertos aos turistas, excetuando a residência dos lamas. Na visita ao templo de Xangai, encontramos os mesmos incensos, os mesmos gestos, mas um monumento muito bem conservado, mais rico e decorado com uma enorme quantidade de documentos antigos sobre o budismo. Contam os lamas que, aos primeiros rumores da revolução cultural estudantil, o valioso Buda de jade foi retirado e enterrado em lugar secreto e só ultimamente reposto na capela maior do templo. Se esse primava pelo bom estado de conservação, em muitos outros lugares vimos templos abandonados e em ruínas. As mesquitas
Em Xian, visitamos a maior mesquita chinesa ainda bem conservada e em plena função como templo religioso. Era uma tarde luminosa e quente: os muçulmanos, usando chapéu em forma de um tubo branco, saíam das salas dos banhos rituais, dirigindo-se para a sala de oração, único lugar proibido de visitar. Os muçulmanos na China não são numerosos, mas foi uma agradável surpresa ver fiéis islâmicos sobreviverem após o governo de Mao. A estrutura do templo é tipicamente chinesa: animais e dragões em pedra, uma torre chinesa, tipo pagode, com três telhados sobrepostos, estatuetas representando os espíritos bons no lugar do minarete. Espíritos bons e maus Apesar da insistente e ameaçadora política marxista e do ensino anti-religioso e materialista que durou mais de quarenta anos, percebe-se que a cultura confucionista ainda está profundamente arraigada no povo chinês. Visitando museus, cidades, templos e uma casa pobre (é preciso pagar, para ser recebido como visita), vê-se que o povo ainda acredita fortemente nos espíritos bons e maus. Isto é parte da tradição religiosa chinesa, desde a sua pré-história até os dias atuais. Os espíritos bons, geralmente, são representados por estatuetas de pequenos e fantásticos dragões de um palmo de altura, postos como proteção em cima dos telhados e dentro das casas. Os espíritos maus, segundo a crença popular, perturbam muito, só andam em linha reta e são temidos por todos os chineses; portanto, para anular sua má influência e dano às pessoas, é preciso desnorteá-los. Assim as estradas antigas, até as que estão dentro dos palácios imperiais e nos templos, são interrompidas por curvas imprevistas e as entradas dos quintais e jardins das casas são barradas por muros. Pessoalmente, fiquei com algumas dúvidas sobre o verdadeiro significado desses espíritos maus em nossos dias. |
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O preço humano das grandes obras Visitando a China, pelo menos Pequim, Xangai e Xian, não se pode esquivar-se do fascínio dos grandes monumentos construídos ao longo de 2500 anos. Ainda que o estilo arquitetônico se repita demais nos templos e nos palácios reais, a grandiosidade e os espaços ocupados por estas obras, talvez, sejam os maiores do mundo.
A cidade imperial ou cidade proibida em Pequim, foi construída entre os anos 14061420, e nela trabalharam milhares ou conforme alguns estudiosos até um milhão de pessoas. É chamada a cidade proibida porque era estritamente reservada ao imperador, à imperatriz, às concubinas e eunucos, aos altos mandatários e soldados que cuidavam da proteção do palácio. O complexo, muito rico em ouro e trabalhos de seda, tem uma superfície de 729.000m2. Toda vez que um imperador morria ou era afastado por algum golpe interno, toda a sua corte, desde a imperatriz até os mandatários mais próximos, devia seguí-lo na morte ou seriam mortos pelo novo chefe. Outro palácio imenso, onde trabalharam e morreram milhares de
operários, especialmente agricultores arrancados por meses do trabalho
nos campos (sistema semelhante à corvéia medieval) e prisioneiros
escravizados, é o Palácio Não se sabe quanto agricultores, ao longo dos anos, trabalharam na construção dessa obra e do Palácio Celestial, onde o imperador, no começo do ano chinês, promulgava o calendário e suas leis. Sabe-se, todavia, que era muito fácil seqüestrá-los e que eles deviam providenciar até a própria comida porque nada recebiam do governo imperial. Essas prolongadas ausências dos campos provocavam carestia de alimentos e mortes por causa da fome. Sabendo do preço humano dessas obras, magníficas e cruéis, é irônico ver os nomes: Salão da Benevolência e da Longevidade, Jardins das Virtudes, Salão das Ondas de Jade, Palácio da Felicidade e da Longevidade e assim por diante.
Outras duas obras realizadas contemporaneamente entre 225 e 200 a.C. a Grande Muralha e o exército de terracota também pagaram seus altíssimos custos com vidas. A Grande Muralha, certamente, é a maior obra de fortificação construída pelo homem. O imperador Qin, após ter conquistado e reunido a maior parte da China, eliminando os Estados feudais, quis construir uma colossal e imensa muralha de pedra e terra, com cinco metros de largura, dez de altura e seis mil quilômetros de comprimento (única obra da terra que pode ser fotografa da Lua), que subisse e descesse pelos cumes mais altos das montanhas, com bruscos desníveis e temíveis degraus. A obra devia defender a China das invasões mongóis, mas, devido aos acentuados recortes das montanhas, os exércitos não poderiam passar por ali, mesmo sem muralha que, portanto, acabou não servindo para muita coisa. Trata-se mais de um símbolo da reunificação da China. Os historiadores falam que mais de cem mil mortos, especialmente agricultores, foram jogados em seus aterros. No mesmo período, o mesmo imperador Qin teve mais uma louca idéia e construiu, em Xian, seu túmulo e de toda sua corte: todos enterrados de ma-neira a reconstruir, simbolicamente, a corte imperial, numa cidade subterrânea, inclusive com um exército de doze mil soldados, em terracota, de tamanho um pouco acima da estatura média dos chineses. O plano era de reconstruir um exército inteiro, em posição de batalha, com arqueiros, lanceiros, cavaleiros com seus animais, do soldado simples ao general. Cada estátua diferencia-se da outra em algum pormenor e é possível reconstruir as táticas de guerra utilizadas, através das armas e armaduras de bambu.
O imperador mandou cavar trincheiras a alguns metros de profundidade, dispôs o exército em posição de batalha ao redor de seu túmulo, recobriu-as com toras e treliças e mandou enterrar tudo. Na superfície, plantou árvores, criando uma floresta e campos cultiváveis. Para que não fosse descoberta a fabulosa obra, com seus tesouros trazidos dos palácios imperiais, mandou matar todos os que nela trabalharam, com suas mulheres e filhos. A história fala de setecentos mil mortos.
Em 1974, alguns agricultores da região cavaram um poço e foram encontrando pedaços de corpos em terracota: assustados, pensando que fossem maus espíritos, chamaram as autoridade do partido que foram aprofundando a escavação e trouxeram à luz essa oitava maravilha do mundo. Ao visitar esses lugares, ouvindo os relatos e lendo alguns livros, podemos entender outra faceta do chinês. O povo simples sempre foi escravizado direta e indiretamente pelas autoridades e morria trabalhando duro para o luxo do imperador ou para as finalidades do partido maoísta. Quem não se lembra das fotos dos anos 60 com milhões de chineses construindo os grandes diques, armados somente de cestos de bambu? Isso dá para entender também a facilidade com que o governo atual, embora querendo abrir-se à modernidade, aplica a pena de morte em lugares públicos, como um macabro espetáculo. Essa é a parte obscura de uma tradição cultural milenar em que a vida do povo nada vale. |
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