Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Missionário: é alguém que se sente vulnerável

Giorgio Paleari

Uma pessoa é vulnerável quando se percebe limitada e não auto-suficiente. A experiência de que não somos os donos de nossa vida, a percepção de que todos temos que morrer e a experiência do sofrimento e da incapacidade de vencê-la, nos tornam pessoas extremamente vulneráveis. Estamos quase paralisados, diante dos grandes problemas humanos aos quais não sabemos dar uma resposta. Em vez de afirmar-se o poder da força, é a situação da fraqueza e da limitação que nos acompanha sempre. A mensagem do Evangelho atua como força também na fraqueza da limitação do missionário.
A raiz da vulnerabilidade do missionário é a mesma cruz de Jesus, sinal de fraqueza e de derrota. O paradoxo cristão é exatamente o fato de que Jesus Cristo não nos salva necessariamente do sofrimento, mas no sofrimento e através dele. O nosso Deus não quis salvar-nos através de uma ação poderosa, intervindo na realidade e eliminando a fraqueza humana. Ele nos salva, participando intensamente do nosso real sofrimento e fazendo sua morada no nosso meio. É somente no processo de fazer-se fraqueza e carregando sobre si nossas limitações, exceto o pecado, que ele pode redimir nossa humanidade. É o paradoxo da cruz como vulnerabilidade extrema e como única realidade capaz de trazer a redenção. Sem essa vulnerabilidade não há salvação, sem essa identificação completa não há redenção. Jesus fez-se vulnerável e fraco, assumindo sobre si a miséria humana até as últimas conseqüências.
Também o apóstolo São Paulo, um grande missionário, confiou, no começo de sua atividade, em sua capacidade de argumentação para convencer os outros a serem cristãos. Em Atenas, no areópago, citou os filósofos e as tradições gregas para interessar seu auditório. Na conclusão de seu discurso, quase todos tinham se afastado, dizendo que iriam escutá-lo uma outra vez (Atos, 17,16-34). Decepcionado com o resultado, são Paulo se transferiu para a cidade de Corinto e, ali, fez uma revisão do seu caminho missionário. Como conseqüência, adotou uma outra postura que procurasse fundamentar sua pregação mais na proximidade de Deus, na semente da Palavra e na fraqueza da cruz (1 Cor. 2,1-5), do que em sua argumentação humana e em seu prestígio. Somente confiando na vulnerabilidade da cruz é que foi possível, para são Paulo, centrar mais sua vida na iniciativa de Deus.
Para o missionário, a experiência da própria fraqueza e da própria limitação é a porta de entrada para confiar na misericórdia de Deus e para ser misericordioso com os outros. Somente quem passou através de um intenso sofrimento e fracasso, descobrindo a bondade e a ternura de Deus que salva, pode aproximar-se dos outros com um coração terno e bondoso. Somente quem se percebe vulnerável e limitado pode aproximar-se misericordiosamente dos outros e centrar sua vida no protagonismo de Deus... Desta maneira, é o próprio Deus que toma a iniciativa e leva a termo a tarefa missionária. É o próprio Deus que salva através de sua cruz e ressurreição.

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