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Tomado, partido e dado
Giorgio Paleari
Há três verbos que acompanham o momento central da celebração
da Eucaristia e que revelam a radicalidade da doação de
Jesus e, conseqüentemente, dos missionários: tomar, partir
e dar. Diz o Evangelho que enquanto comiam, Jesus tomou o pão,
abençoou, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: "Tomai,
isto é o meu corpo". Neste gesto está concentrada toda
a trajetória da vida do Mestre. No começo da vocação
de Jesus e dos missionários, há o chamado de Deus que, tomando
a iniciativa, os convida a elaborarem seu plano de salvação.
Não é suficiente, no entanto, ser chamado. A vida de Jesus
e dos missionários devem ser "partidas" e "quebradas"
para que o projeto de Deus se realize. A vontade de Deus e seus caminhos
"quebram" os pro-jetos pessoais, para que somente seu pla-no
se efetive. Num momento sucessivo, a vida torna-se significativa, quando
é doada completamente e se torna um canal de "vida em abundância"
para todos.
O significado da Eucaristia tem, propriamente no Cristo e em sua doação,
o momento culminante. Isso pode ser melhor compreendido, através
de uma lenda que, ainda hoje, é contada no continente asiático
e que revela o sentido profundo da doação missionária.
Num dos lugares mais bonitos deste mundo, havia um jardim no qual, entre
diferentes variedades de plantas, erguia-se um grandioso bambu. Ao mínimo
soprar do vento, o bambu se movia e dançava, alegrando o coração
do senhor do jardim que, todos os dias, passeava pelas trilhas e veredas.
O bambu e o senhor se amavam muito e se deleitavam com a companhia mútua.
Um dia, o senhor do jardim se aproximou do bambu e, com uma ternura toda
especial, disse-lhe: "Bambu, eu preciso de você".
O dia dos dias chegou. A alegria do bambu extravasava por toda parte.
Começou uma dança sem fim.
- "Estou pronto", respondeu-lhe.
- "Bambu, continuou o senhor, eu preciso cortar você".
- "Cortar-me? Por quê? Eu posso servir você, mas não
me corte, por favor".
- "Se eu não cortar seu tronco, você não pode
me servir".
Diz a lenda que no jardim, se fez um silêncio sepulcral. O vento
parou de soprar e até as borboletas fugiram amedrontadas. O momento
era trágico.
Abaixando a cabeça, o bambu respondeu com um fio de voz:
- "Pode me cortar."
Pela segunda vez, o senhor do jardim se aproximou do bambu e, com firmeza,
continuou: "Bambu, amado bambu, eu preciso cortar seus galhos e folhas".
- "Não faça isso, acrescentou o bambu. Sem eles eu
perderia a minha beleza".
- "Bambu, continuou o senhor, se eu não fizer isso, você
não pode ser útil".
Mais uma vez o bambu, cabisbaixo, acenou que podia cortar tudo.
Pela terceira vez, aproximando-se do coração e falando-lhe
com muita ternura, o senhor dirigiu suas últimas palavras. "Eu
preciso rachar no meio seu tronco e arrancar o miolo e o coração".
O bambu disse: "Pode fazer o que quiser. Corte-me e use-me como quiser".
Foi então que o senhor do jardim começou a cortar o bambu.
Tirou os ramos e as folhas. Rachou no meio seu tronco e arrancou seu coração.
Depois disso, com muito carinho, carregou o bambu em seus braços
até um lugar onde havia uma fonte de água. Uma extremidade
do bambu foi posta na fonte e em todo seu corpo começou a correr
uma água cristalina que se dispersava fora do jardim. Os campos
estavam secos e áridos. Fazia muito tempo que não chovia.
O arroz não conseguia brotar pela aridez do terreno. Foi, então,
que através do bambu a água começou de novo a dar
vida às plantas e à terra. Tudo refloresceu. O povo, que
andava tão triste e acabrunhado, porque não tinha comida,
recuperou a esperança e a felicidade.
O bambu era muito bonito quando estava no jardim, mas agora era ainda
mais bonito porque, através de sua vida, estava sendo um canal
de vida abundante para todos.
Tomado, cortado e dado, o bambu continua sendo a parábola de Cristo
e da vida missionária.
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