| O missionário como peregrino
Giorgio Paleari
Toda a história do povo de Israel é marcada pelo ato de
caminhar: Abraão deve deixar sua própria terra; o povo escravo
no Egito caminha por quarenta anos através do deserto; o próprio
Yahweh é percebido como uma presença íntima e móvel.
Mais tarde, as celebrações rituais retomam o tema do êxodo
transformando-o em peregrinação.
No Novo Testamento, Jesus é o peregrino que não somente
participa das peregrinações ao templo, mas que faz de toda
sua vida uma longa peregrinação para Jerusalém, onde
será preso e crucificado. Aos discípulos é pedido
que percorram o mesmo caminho até o sofrimento e a morte. A experiência
da morte e da ressurreição de Jesus converterá os
peregrinos galileus amedrontados (Mc 14,27) em verdadeiros missionários
que vão para toda parte (Mc 16,20). E é através do
seguimento de Jesus que os missionários vão se fazendo discípulos
do mestre.
Ser um peregrino é desinstalar-se continuamente; é fazer
da vida um contínuo deslocar-se de um lugar para o outro, solidarizando-se
com os desenraizados e migrantes; é tornar-se um companheiro na
busca de uma morada. Mas, ainda mais, o missionário aponta para
uma outra morada "porque não temos aqui cidade permanente,
mas estamos à procura da cidade que está para vir"
(Heb 13, 14).
O tema do enraizamento e do desenraizamento e, ao mesmo tempo, a vida
presente e aquela que deve vir representam uma tensão que gera
a missão. O caminho missionário acontece propriamente nessa
tensão constante entre o presente e o futuro.
A espiritualidade do missionário é caracterizada por uma
peregrinação em busca de uma morada definitiva. É
um deslocar-se constantemente para buscar o definitivo, superando o provisório,
o efêmero, o limitado e o temporário. A história da
missão e dos missionários representa uma epopéia
de andanças e de movimento de pés que se deslocam entre
trilhas e veredas, em florestas, em morros enlameados e sobre asfaltos
esburacados. É um caminho de encontros com culturas e religiões,
as mais diversas possíveis, apontando para além dos horizontes.
"Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura."
(Mc 16,15). Representa sempre uma busca e traduz-se em encontros: o encontro
de Deus e o encontro dos irmãos.
O peregrino não leva nada consigo, somente o essencial. Uma sacola,
uma roupa e um bastão são o suficiente. Há peregrinos
espalhados no mundo todo que dependem do apoio e da bondade das pessoas.
Há peregrinos urbanos que, nas grandes megalópoles, se solidarizam
com os despossuídos e põem suas energias a serviço
da vida. É preciso andar sem parar nunca, deslocar-se à
procura do absoluto e na realização do projeto de Deus.
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