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A palavra viva: fonte de espiritualidade
Giorgio Paleari
Em todas as tradições religiosas há sempre um livro
e uma palavra sagrada que inspiram a vida das pessoas, representando o
fundamento sobre o qual se assenta uma visão de mundo. Tradicionalmente,
esta palavra não estava escrita e foi transmitida de uma geração
à outra oralmente. A oralidade vem antes da escrita e tem um poder
de recriação e de adaptação dos significados
ao contexto em que está inserida; muitas vezes, é uma palavra
memorizada e é na repetição que se torna eficaz.
No hinduísmo, os hinos dos Vedas são ensinados às
crianças desde pequenas e cantados com devoção. No
budismo do Tibet, o som das sílabas tântricas OM MA NE PA
ME HUM, acompanhados por gestos rítmicos, permite aos monges de
evocar a interdependência com o universo. O judaísmo solicita
que se aprendam as palavras bíblicas e que sejam repetidas ao longo
da vida. A oração do "shema" (Escuta, Israel...)
é ensinada e recitada pelas crianças e cantada pelas famílias
de manhã e de tarde. No islã, os versículos do Alcorão
são cantados e recitados, segundo diferentes tradições.
De acordo com o islã, no dia da ressurreição, cada
morto vai se levantar e recitar o Alcorão. Para cada versículo
recitado corretamente há a possibilidade de obter mais méritos.
Se, eventualmente, o devoto conhecer de cor todo o Alcorão, então,
similarmente ao profeta, terá como recompensa o paraíso.
No cristianismo, as palavras de Jesus e dos apóstolos começaram
como parte da tradição oral. Os discípulos escutaram
as palavras de Jesus e, a partir de comunidades diferentes, foram traduzindo
e aplicando os diferentes significados. Somente mais tarde foram escritas
e colocadas num cânone. Mas, mesmo nesta época, as palavras
não eram lidas, mas recitadas e dramatizadas, e estavam enraizadas
dentro da experiência existencial.
Segundo a tradição cristã, a mesma palavra de Deus
se fez carne na pessoa de Jesus. É ele a palavra viva que os missionários
comunicam. São Paulo faz uma clara distinção na 2ª
carta aos Coríntios (3,3): "Evidentemente, sois uma carta
de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com
a tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas
de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações."
Os missionários, portanto, carregam dentro de si uma mensagem que
está enraizada em suas próprias vidas. Mais do que isso,
propõem aos povos e às culturas que a busca de sentido pode
se efetivar somente num relacionamento profundo com o Senhor, Palavra
viva de Deus. A missão não pretende transmitir uma doutrina
que pode encontrar ressonância nas pessoas; ao contrário,
propõe a prática do seguimento de Cristo, Palavra viva de
Deus. O que move a vida do discípulo e o faz andar não é
tanto a retenção de uma visão bonita das coisas e
nem a aproximação a um texto escrito. Qualquer mudança
acontece pela experiência do divino que se aproxima do humano e
se insere numa iniciativa profunda de Deus que, com seu amor, envolve
a pessoa. É como se acontecesse uma sedução que arrebata
e desconcerta, que atrai e atemoriza. A experiência com a Palavra
viva e o relacionamento com Deus precedem a reflexão e o estudo.
O que a missão propõe é exatamente isto: cada um
deve se envolver com a Palavra viva de Deus que é a mesma pessoa
de Jesus Cristo. "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós,
e vimos sua glória..." (Jo 1,14).
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