Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
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A oração é terapêutica? Ernesto Arosio Em 1988, foi feita uma pesquisa no San Francisco General Hospital, na Califórnia, EUA: quatrocentos pacientes com doenças coronarianas, foram divididos em dois grupos, cada um com duzentas pessoas, de maneira aleatória. Por um período de dez meses, entidades cristãs rezaram por os membros de um grupos mas não para os do outro. As pessoas que foram convidadas a rezar, conheciam somente o nome dos doentes, mas nunca os encontraram pessoalmente. Os pacientes sabiam da experiência de que estavam participando, mas não sabiam em qual grupo tinham sido colocados. Também o pessoal que os assistia, embora conhecendo a experiência, não sabia a qual dos dois grupos os doentes pertenciam. Dessa pesquisa e relativa análise estatística, resultou que os pacientes que foram objetos da oração dos fiéis desconhecidos, confrontados com os pacientes do segundo grupo, tiveram uma melhor reação à doença, seu estado físico era melhor que o dos outros, estavam mais animados e precisaram de menos remédios. Outros estudos conduzidos na mesma linha de pesquisa e relatados em revistas científicas demonstraram que, entre os doentes que participavam ativamente de liturgias, orações comunitárias ou rezavam individualmente, houve uma redução de mortalidade em comparação à daqueles que, em lugar das orações, recorreriam a tranqüilizantes ou remédios em doses elevadas. Esses resultados levaram alguns pesquisadores a propor de considerar as práticas da oração como outros remédios ainda bastante controvertidos nos últimos anos, como o Prozac, medicamento antidepressivo, chegando a dizer jocosamente que "Prozac e oração" são o futuro da medicina. Outros profissionais chegaram a sustentar que a oração deveria ser prescrita como qualquer outro remédio terapêutico. O debate entre profissionais de medicina suscitou reações fortes e opiniões diferentes: há quem diga que as pesquisas não foram muito científicas, mas experimentalmente insuficientes e ainda fracas no âmbito estatístico, porque estaria se trabalhando sobre aspectos que podem ser psicológica e emocionalmente importantes para os doentes, mas de eficiência terapêutica ainda duvidosa. Apesar dos debates, houve tentativas e propostas, como a de querer obrigar o médico a rezar com o paciente ou marcar na ficha médica do doente, sua história religiosa. O campo é muito delicado, ainda mais num país como os Estado Unidos, onde a liberdade pessoal - como dizem - é maior valor e deve ser respeitada por todos. Não podemos, porém, subestimar as pesquisas e as iniciativas como as da Harvard Medical School que promoveu cursos de espiritualidade para pacientes, parentes e médicos com grande aceitação por parte de todos e sucesso para os doentes, ou aquela de quem propôs que, na formação médica universitária, fossem incluídos cursos de espiritualidade. Não queremos aqui entrar na questão científica, complexa e de difícil análise, mas somente lembrar que cura e religião sempre andaram juntas na história religiosa da humanidade. Religião e saúde A religião, pela sua natureza, coloca-nos em contato com Deus ou uma divindade. Para os cristãos, Deus é essencialmente amor, criador e providente, alguém que se comunica com seus filhos. Nessa relação filial, é natural que o fiel peça tudo a Deus - como nos ensina Cristo no Pai Nosso, incluindo sua saúde. Com essa confiança no Ser Supremo e Todo Poderoso, ele pode conseguir uma melhora e até o total restabelecimento de sua saúde, isto é, um milagre. Alguém pode dizer que isso não passa de um simples efeito psicológico e auto-sugestivo, mas esse efeito psicológico é extremante potencializado, quando existe essa confiança religiosa, que se alimenta na oração e na liturgia. Já Jung, um dos mais famo-sos psicólogos de nosso tempo, escreve que "há pacientes (psicóticos) cuja cura depende unicamente de uma confissão mais ou menos completa". Na tradição de todas as religiões, desde as mais primitivas e simples, sempre houve e ainda há uma estrita relação entre doença e divindade, sendo que a doença pode ser provocada ou curada pela divindade ou força sobrenatural. Daí os despachos, os ritos de cura, as incorporações, todos com a mesma finalidade: obter a cura através da divindade. Nenhuma tradição religiosa foge dessas liturgias de cura. Na Bíblia, em particular no Evangelho, encontramos quase em cada página, doentes que recorriam a Cristo para obter curas e milagres. Jesus impunha somente uma condição: a fé. É o caso da mulher que perdia sangue há anos, do centurião que, embora pagão, pede a cura do seu servo, sem falar da ressurreição de pessoas mortas (desfecho das doenças), como o filho da viúva de Naim ou do amigo Lázaro. As religiões tradicionais dão ainda mais importância a essas liturgias de cura porque o homem primitivo, envolvido numa visão mágica da natureza, acredita que doença e cura são devidas à ação benevolente ou irada dos espíritos. Por isso, recorre aos vários tipos de pajés, babalorixás, despachos e sacrifícios para se curar. Sem ir muito longe, encontramos esta convicção até em nossa sociedade tecnológica, em que muitas pessoas, além dos hospitais, procuram benzedeiras e curandeiros. Cristianismo e saúde No lado cristão, a cura mediada por um fato religioso sempre esteve presente, desde o início do cristianismo, ainda mais porque o cristianismo apresentava um Deus amoroso e pai, num mundo atormentado por muitos espíritos e divindades vingativas. Ao longo da história da Igreja, o povo construiu santuários em honra de Jesus Cristo, Nossa Senhora e santos, às vezes, misturando cultura e superstição, muitas vezes em lugares quase inacessíveis, mas onde a tradição falava de eventuais aparições e que, logo, se transformavam em locais privilegiados de curas. Lembremos o mais famoso neste últimos século, o santuário de Lourdes, na França, onde o sinal de presença de Nossa Senhora foi uma fonte de água milagrosa. Aqui no Brasil, é só visitar as salas dos milagres dos
inúmeros santuários marianos e de outros santos espalhados
em todos os cantos, para perceber a ligação que o povo faz
entre cura e devoção. Foram verdadeiros Nosso povo, aliás, tem devoções que revelam sua confiança e fé na cura através da intercessão dos santos. Se voltarmos ao passado, quando ainda se desconheciam as causas e as curas de tantas doenças, veremos a devoção ardente a Nossa Senhora do Bom Parto, dos Remédios, da cabeça, entre outras. Infelizmente, muitas parturientes e crianças morreram devido à falta de higiene, hemorragia e outros problemas que aquela época não conseguia resolver. Concluindo, devemos reconhecer o grande valor terapêutico da oração individual e comunitária, seja pelo efeito psicológico sobre o doente, mas muito mais pela fé na proteção divina obtida através dessa comunicação amorosa. Para a Igreja, todas essas pesquisas não revelam nada de novo, mas confirmam a extrema necessidade da prática de visitar os doentes nos hospitais ou nas próprias casas. Visitar os doentes não é somente um ato de amor e caridade cristã, mas também um ato de solidariedade terapêutico, que pode ajudar a melhorar a saúde. |
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