Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão


deserto é, antes de tudo, o lugar no qual se torna mais manifesta a resistência do homem ao plano e à vontade de Deus: uma resistência que está dentro do povo de Deus, que nasce no coração do crente, mas também uma resistência de fora, originada pelas forças que se opõem ao plano de salvação de Deus. A resistência interna é uma oposição a Deus que se manifesta em preferir a segurança ao risco, a imobilidade ao dinamismo, o passado ao amanhã que Deus nos prepara.

Contra essa tentação lutam Moisés, os profetas, o próprio Jesus, quando repreende duramente Pedro, chamando-o de Satanás, porque recusava a perspectiva da cruz na vida do Mestre e queria continuar o discipulado assim como tinha-se desenvolvido até aquele momento. Deste modo, na peregrinação no deserto, o povo de Israel vê como único fim do seu caminhar a morte, distorcendo a meta fixada por Deus, isto é, a terra prometida, a vida plena. Um segundo elemento de resistência é a murmuração, a queixa que leva os israelitas a repetir:

"Por que Deus nos trouxe até aqui? Para nos fazer morrer?" e a lembrar com saudades a condição vivida no Egito, que era de dura escravidão: "Era melhor termos morrido pela mão de Javé na terra do Egito, onde estávamos sentados junto à panela da carne, comendo pão com fartura!" (Ex 16,3). Todo homem é constantemente tentado a fugir do lugar no qual Deus o colocou, de sonhar situações diferentes das reais, outros corpos ou outros lugares. Aparece então a tentação de voltar atrás, escolhendo outros chefes, outros critérios-guia.

A resistência externa, ao contrário, é originada por forças opostas ao plano divino de salvação, das quais a Escritura mostra amplamente a existência. A batalha do crente não se dirige só contra a carne e o sangue: há um inimigo que é o demônio, Satanás. É uma força sobrenatural que se ergue contra Deus e que nós vemos só em seus "mediadores", nas suas personificações: uma figura exemplar desta "potência do mal" é Amalek.

Ele é o inimigo que nunca é definitivamente vencido porque renasce continuamente, o inimigo irredutível de quem é tolice ter piedade, o inimigo astuto que assalta a caravana dos israelitas a partir da retaguarda, onde se encontram os mais fracos, os feridos, os mais indefesos... Mas, sobretudo, Amalek é o divisor que se insinua no meio do povo, no coração do crente, logo que este é vítima da contestação radical: "O Senhor está no meio de nós ou não? Então, Amalek veio combater contra Israel" (Ex 17, 7-8).

Tempo intermediário

Falar do deserto como tempo significa frisar o caráter de tempo intermediário: o deserto do Êxodo marca, na realidade, o tempo que decorre entre a saída do Egito e a entrada na terra prometida. A Escritura atesta também que ele se qualifica como um tempo no qual continua a agir a força e a potência de Deus, portanto um tempo de salvação: seria perigoso pensar que a salvação consiste somente na saída do Egito ou na entrada na terra santa!

A caracterização do deserto como tempo intermediário é um dado essencial da situação humana e histórica, bem antes da situação divina e teológica: a vida humana individual, coletiva, comunitária, popular, é marcada por tempos de preparação e de iniciação, tempos que podemos definir como intermediários. Pensemos nas várias etapas do crescimento humano, no catecumenato para quem se prepara a receber o batismo, no noviciado para quem entra na vida religiosa, no namoro e noivado para quem faz a opção pela vida matrimonial.


Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai

A realidade humana é estruturalmente marcada por tempos preparatórios e, por sua vez, em seu conjunto, constitui um tempo intermediário: é graças a esta dimensão que se cria uma tensão dinâmica para o futuro. O homem não pode ser só voltado para o passado, não pode viver do passado, mas deve dirigir-se para o futuro. Este dado antropológico é assumido pela Escritura, respeitado por Deus que quer levar à salvação o homem completo.

Mas a Bíblia não só assume a categoria do tempo intermediário, mas a privilegia, construindo a história da salvação como um suceder-se de tempos intermediários que preparam a plenitude, a totalidade. A revelação judaico-cristã confere uma enorme importância ao "tempo vindouro" e assim estabelece uma forte tensão dinâmica para o futuro. O tempo intermediário é, por essência, "provisório": não é um tempo de destino, mas um tempo através do qual devemos passar, uma condição necessária para alcançar uma meta, um fim.


Viajante cruzando o deserto

A Escritura utiliza o número quarenta para indicar o tempo provisório. Moisés passa quarenta dias no Sinai, antes de ver a glória de Deus (Ex 24,18), depois transcorre outros quarenta dias, antes de receber a lei (Ex 34,28), Israel passa quarenta anos no deserto (Am 2, 19), Elias caminha por quarenta dias no deserto, antes de chegar ao encontro com Deus (1Rs 19,8), Jesus passa quarenta dias no deserto, antes de iniciar sua missão de pregação e de anúncio do Reino (Mc 1,1-2).

Portanto, o número quarenta é um algarismo teológico que indica um tempo longo, porém não fechado sobre si mesmo, mas aberto ao futuro: é o tempo do provisório. Esse tempo intermediário do deserto é também um tempo de espera: não deve ser vivido na passividade, mas preenchido de desejo e de esperança. Somente se é animado pela espera, o deserto fica um tempo cheio de vida, de outra forma transforma-se em tempo mortífero e se torna uma "prisão". Agora, a "prisão", diferentemente dos tempos intermediários que preparam a um futuro, é um tempo de pura passividade, submetido à negatividade e à morte.

E pode levar à destruição. Ao contrário, o tempo do deserto é dirigido a um fim, visando a um futuro que constitui sua meta. Para Israel, o deserto é em função do encontro com Deus e do ingresso na terra prometida; para Jesus, é em função de seu ministério público: portanto, tem um termo bem definido rumo ao qual o homem, empenhado no caminho no deserto, deve tender com todas as forças.

Tempo da recordação

O tempo intermediário, além disso, é tempo que não pode passar em vão, sem deixar vestígio, e que nunca deve ser esquecido. Ele continua a viver na memória em nome de sua particularidade, da dureza que o caracterizou, do entusiasmo e da participação com a qual foi vivido. O tempo clássico da recordação, do memorial é justamente o tempo do deserto: para a Bíblia é a estação do diálogo amoroso entre Deus e Israel, "o tempo dos amores", constantemente sonhado e lembrado por Oséias e Jeremias.


Capela do mosteiro copta de Deir al Muharraq, do século 4 d.C.

Estes profetas relêem a experiência passada do deserto revocando-a em termos idílicos, mesmo "míticos", até fazer dela um "exemplo" colocado no futuro de Israel como uma possibilidade aberta. Na realidade, o povo no deserto não foi de maneira nenhuma assim tão próximo de Deus e fiel como aparece na sonhadora revocação de Oséias (cf Os 2,16-25). Antes, no livro do Êxodo, o Israel do deserto aparece como o povo infiel por excelência, desobediente e rebelde; porém, apesar disso, o profeta transfigura aquele momento do passado de Israel, fazendo dele um exemplo de obediência e de fidelidade:

"No deserto ela me responderá, como nos dias de sua juventude, como quando saiu do país de Egito". No cristianismo, o elemento dinâmico, sob forma de categoria escatológica, é tão constitutivo e ineliminável que o fiel e a Igreja devem colocar-se numa tensão de constante renovação para não esvaziarem o sentido e perderem a própria finalidade de sua vocação e esperança. Não é por acaso que, nos Atos dos Apóstolos, o nome com o qual são chamados os cristãos é "os do Caminho" (At 9,2), isto é, os que caminham como peregrinos, que avançam e não cessam de aguardar o Senhor.

Paulo chega a dizer, no rasto da espera ardente do tempo último, que já o tempo se tornou breve, se encurtou (1Cor 7,29) e o dia do Senhor é iminente: para o cristão e para a Igreja, o futuro tem mais peso do que o passado. Viver no passado significa não se situar no hoje de Deus, no "aqui e agora" no qual todo fiel deve instaurar seu relacionamento com Deus: um relacionamento que não é o de ontem ou de amanhã, e sim o que se decide e se vive no hoje.
Outra especificação bíblica do tempo do deserto é a de tempo de provação e de humilhação:

"Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor teu Deus te conduziu, esses quarenta anos, no deserto, para te humilhar e te pôr à prova, para saber o que tinhas no teu coração, e para ver se observarias ou não seus mandamentos" (Deut 8,2). De fato, é na provação, na humilhação e na solidão do deserto que o homem conhece a si mesmo e o próprio coração, assim como somente ali pode conhecer o outro, medindo a própria fidelidade ao Senhor nas provações que encontra todo dia.

O rosto de Deus

Mas o deserto, justamente porque lugar de provação, é também tempo de pedagogia divina: no deserto nasce a fé, no tempo intermediário do deserto o homem deve lembrar, chegar ao conhecimento e à custódia da palavra de Deus no próprio coração. No deserto se começa a entender e a conhecer a Deus: em particular, chega-se a entender que Deus está próximo ao seu povo como um Pai, é zeloso como uma Mãe, é o amor fiel de um Esposo. É, pois, no deserto que se chega à fé, ao conhecimento, à intimidade máxima com Deus: no deserto Deus é Pai, Mãe, Esposo.

Vai-se ao deserto não para fugir dos homens, mas para encarar-se corajosamente, preparando o encontro face a face com Deus. Vai-se ao deserto para lutar contra os demônios, isto é, contra as angústias, os pensamentos que crescem de maneira desmedida, alimentando-se de si mesmos até tornarem-se presenças monstruosas no coração do homem, invulneráveis pela própria inconsistência. O próprio Jesus foi ao deserto guiado pelo Espírito Santo, "para ser tentado pelo diabo" (Mt 4,1): analogamente, o cristão vai ao deserto na convicção de sua fraqueza e fragilidade, portanto, da necessidade de um guia.

O deserto desvenda a verdade da condição humana, reduzindo o homem ao essencial, às necessidades elementares. Na espoliação do deserto o homem é reduzido a "ser" o próprio corpo: aí nos conhecemos mais do que nunca como "ser humano em um corpo". O deserto é, então, o lugar espiritual onde, antes de tudo, revemos nossa relação com nosso corpo e com o que lhe está estreitamente ligado: a comida que o alimenta, o vestido que o abriga, o sono que lhe dá repouso...

Na ausência da presença humana, na abstinência dos alimentos, de palavras e gestos corriqueiros do dia-a-dia, na dureza das provações e dos males que o deserto faz sofrer, experimenta-se o caráter pedagógico do deserto. O deserto liberta de tudo o que atulha e é supérfluo e purifica a fé das incrustações idólatras que a contaminam: o deserto é o crivo que revela a firmeza de um fiel. É ali que pode acontecer, por graça de Deus, o caminho de conversão das múltiplas paixões e apetites do homem ao único desejo: o do rosto de Deus.

Os israelitas no deserto mostraram sua infidelidade, tentando Deus, ao pedir-lhe que apagasse o fogo ardente de suas cobiças; mas esta provação ensinava a Israel a ser sedento de Deus e desejoso do seu rosto. Como testemunha o próprio Jesus, quando no deserto, depois de quarenta dias de jejum, "teve fome", essa provação mostra que o único alimento que pode saciar é a palavra de Deus (Mt 4,2-4; cf Dt 8,3). O deserto é, pois, um lugar pedagógico também para o cristão que, ali, sobretudo, aprende o essencial:

"Procurar, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça e todas as outras coisas - alimento, bebida, roupa...- serão dadas (por Deus) em acréscimo" (Mt 6,33). O caminho através do deserto é, portanto, uma necessidade para nós todos: precisamos repercorrer o deserto para perceber as próprias raízes da nossa fé, para aprender na carne que nossa vida não depende da economia dos bens, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.

Se nosso destino é o Reino, se nossa vocação é o jardim do Éden no qual Deus pôs o homem, devemos todavia atravessar o "vale de lágrimas", o deserto como lugar no qual aprendemos na nossa carne que somos destinados à vida divina. Sim, ir ao deserto é operar uma ruptura com um mundo bem definido, mas essa ruptura é em função de uma união mais íntima com Deus, porque é no deserto que é revelada a própria essência de Deus: o nome do Senhor foi entregue a Moisés justamente no deserto! O deserto é, então, o lugar por excelência da comunhão com Deus, o espaço e o tempo no qual entramos nos pensamentos de Deus, alcançamos seu "coração".

Entre Deus e os pobres

por Costanzo Donegana

o dia 1 de dezembro de 1916, Charles de Foucauld é morto por um tiro de carabina nas têmporas por um jovem tuaregue. Havia escrito alguns anos antes: "Pensa que deves morrer mártir, despojado de tudo, estendido no chão, nu, irreconhecível, coberto de sangue e de feridas, morto com violência e dolorosamente". Foram seus "amigos" tuaregues que o mataram: por eles, Foucauld havia dado toda sua vida, tornando-se seu servidor.

Esse altivo povo nômade do Saara tinha-se tornado o "dono" da vida do irmão Charles: na sua pequena casa de um só quarto, eles entravam e saíam com a máxima liberdade e indiscrição. Era o amigo que podiam ir visitar a qualquer hora do dia e da noite. Haviam notado que, quando chamavam o padre, ele ia logo, sem fazê-los esperar. Ele tinha-se tornado realmente um homem "comido". Para ele não era só questão de praticar a hospitalidade, de prestar serviço ou de tratar um doente, expressões externas e, todavia, bem reais de seu amor: o dom de si mesmo, que ele fazia aos seus tuaregues, ia mais além.

Procurava penetrar nos segredos de sua língua, de suas tradições, dos costumes que são como o reflexo da alma de um povo. Passava a maior parte de seu tempo compondo uma gramática e um dicionário tamascec, recolhendo provérbios e poesias populares, não poupando nem tempo nem conversas. Até hoje, os habitantes do Hoggar (sul da Argélia) lembram que o "marabuto branco" falava sua língua melhor do que eles. Irmão Charles, de vez em quando, era oprimido por esta obra lingüística, sobretudo porque lhe impedia de dedicar-se ao trabalho manual, que ele considerava como a própria forma de sua vida de pobreza; todavia não duvidava que era seu primeiro dever. Para ele, era a maneira melhor para penetrar a alma dos indígenas, além de preparar os instrumentos de trabalho para os futuros missionários.

Gritar o Evangelho com a vida

A atração do deserto manifestou-se espontaneamente em Charles de Foucauld já antes da conversão, na medida em que sua alma se aproximava de Deus. Esta atração desenvolveu-se depois, seja pelo desejo de imitar Jesus, como para responder a uma necessidade de viver só com Deus, que se tornava nele sempre mais forte. Porém, não sentiu o chamado a retirar-se definitivamente no deserto, longe das relações humanas: esta opção não era motivada por um desejo de fugir dos homens.


Capela do eremitério de Foucauld

Todas as vezes que ele penetrava mais na imensidade do Saara, era para tomar contato com populações abandonadas. Umas vezes, o Irmão Charles procurava o contato com os homens, outras entrava pelo deserto adentro como em um lugar de encontro com seu Deus na contemplação. "Meu Senhor Jesus, como será pobre quem, amando-vos de todo coração, não poderá tolerar ser mais rico que seu Bem-amado! [...] Meu Senhor Jesus, como será pobre quem aliviará todas as misérias a seu alcance, pensando que tudo que se faz a um desses pequenos é feito a vós, e tudo que não se faz é negado a vós!".

Um dos ideais mais marcantes da espiritualidade de Charles de Foucauld é a pobreza, como elemento fundamental no seguimento de Jesus e como identificação, por amor, com os pobres: "ser da classe dos pobres, tratados e considerados como tais pelo mundo" (R. Voillaume). No deserto, ele encontrou o lugar do despojamento físico e espiritual, onde Deus o chamava à maior intimidade com ele e a experimentar a falta de tudo como maneira de compartilhar as situações de pobreza, insegurança, humilhação dos últimos da humanidade.


Dois irmãozinhos em seu interior

A pobreza, nesta luz, não era um fim, e sim um meio para sua identificação com seu Bem-amado, o centro e a paixão de todo seu ser: "Continuar em mim a vida de Jesus: pensar seus pensamentos, dizer suas palavras, fazer suas ações [...] que seja ele a viver em mim. Ser a imagem de Nosso Senhor na sua vida escondida: gritar, com minha vida, o Evangelho sobre os telhados. Vem: é preciso que a coragem iguale a vontade [...] É hora de amar a Deus. Procurar a Deus só". Este texto deve muito a R.VOILLAUME, Au coeur des masses, Paris, Du Cerf 1969.

Tu és nada

por Carlo Carretto

grande riqueza do noviciado no deserto do Saara é, sem dúvida, a solidão e a alegria da solidão, o silêncio, um silêncio, o verdadeiro, que envolve tudo, que invade todo o ser, que fala à alma com uma força maravilhosa e nova, certamente desconhecida ao homem distraído. Para aprender a viver tal silêncio, o mestre de noviços permite-nos sair a fim de viver alguns dias "de deserto". Uma cesta de pão, um pouco de tâmaras, água, a Bíblia.

Caminhada de um dia. Uma gruta. O sacerdote celebra a santa missa e a seguir deixa na gruta, sobre um altar de pedras, a Eucaristia. Ficaremos a sós com a Eucaristia exposta dia e noite, durante uma semana. Silêncio no deserto, silêncio na gruta, silêncio na Eucaristia. Nenhuma oração é tão difícil quanto a adoração da Eucaristia. A natureza rebela-se com todas as forças. A sensibilidade, a memória, a fantasia, tudo se sente mortificado. Somente a fé triunfa; e a fé é dura, é escura, é nua.

"Não dá gosto adorar a Eucaristia", dizia-me um noviço. Mas é justamente a mortificação do gosto que faz com que a oração se torne forte e verdadeira. É o encontro com Deus acima da sensibilidade, acima da fantasia, acima da natureza. Este é o primeiro aspecto do despojamento. Enquanto minha oração permanecer ancorada no gosto, haverá altos e baixos; depressões irão se seguir a entusiasmos efêmeros. "É necessário despojar a tua oração", disse-me o mestre de noviços. "É necessário simplificar, desintelectualizar.

Põe-te diante de Jesus à semelhança de um pobre: sem idéias, mas com fé viva. Permanece imóvel num ato de amor diante do Pai. Não procures alcançar a Deus com a inteligência: jamais o conseguirias. Alcança-o com o amor: isso é possível". Após algumas horas - ou alguns dias - de tal ginástica, o corpo se aplaca. Já que a vontade lhe recusa o prazer sensível, não mais o procura: torna-se passivo. Os sentidos adormecem. A alimentação escassa, o prolongar-se das vigílias e a oração humilde e insistente fazem com que a casa da alma se transforme numa mansão silenciosa e pacífica.

A oração, então, transforma-se numa coisa séria, ainda que dolorosa e árida, mas tão séria que se torna indispensável. A alma passa a participar do trabalho redentor de Jesus. Ajoelhado na areia, diante do rude ostensório que continha Jesus, estava meditando sobre o mal do mundo: ódios, violências, torpezas, impurezas, mentiras, egoísmos, traições, idolatrias, adultérios. Ao meu redor, a gruta tornara-se tão vasta quanto o mundo, e interiormente contemplava a Jesus oprimido sob o peso de tantos males. Qual era minha situação em confronto com a dele?

Pensara eu, durante muitos anos, em ser "alguém" na Igreja. Chegara a ponto de considerar este edifício sagrado e vivo como um templo sustentado por muitas colunas pequenas e grandes, e sob cada uma delas os ombros de um cristão. Acreditava eu que também sobre os meus estivesse o peso de uma delas, ainda que pequena. Mas, enquanto meu primeiro mestre dissera-me: "Primeiro em tudo para a honra de Cristo-Rei", o último, Charles de Foucauld, sugeria-me:

"Último de todos por amor de Jesus crucificado". Encontrava-me agora lá, de joelhos, sobre a areia da gruta que assumira as dimensões da própria Igreja, sentindo sobre meus ombros a célebre coluneta de militante. Talvez houvesse chegado a hora de ver claramente. Após vinte e cinco anos, percebera que sobre os meus ombros nada se firmava e que a coluna era falsa, postiça, irreal, criada pela minha fantasia, pela minha vaidade. Todo o peso do mundo estava sobre Cristo crucificado. Eu nada era, nada de verdade.

C. Carretto, Cartas do deserto, Edições Paulinas, Caxias do Sul, 1969, pp. 23-28 passim.

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