Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão


e os pobres

O beijo de São Francisco ao leproso
continua nas obras sociais de seus filhos

por Johannes Bahlmann, ofm

odemos dizer que o Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade) começou com São Francisco. Os frades franciscanos, sempre onde estiveram presentes, desenvolveram um trabalho social, não só religioso: isso faz parte do nosso carisma.
Nosso primeiro convento em São Paulo foi fundado em 1640, com a igreja de Santo Antônio e, sete anos depois, veio o convento de São Francisco. Os frades sempre atendiam os necessitados, pela porta de trás, enquanto na frente atendiam o povo no aspecto espiritual-religioso, pastoral.

O pão dos pobres

A partir daí veio o Pão dos Pobres ou de Santo Antônio, que continua até hoje: temos no convento uma padaria que, todo dia, distribui pão às 7 e 15 horas. O número dos atendidos diminuiu um pouco, porque, no centro da cidade, há agora muitas entidades que ajudam os pobres. É interessante ver que a fila aumenta ou diminui, dependendo da situação econômica do País. Nestes dias, atendemos cerca de cem pessoas. O pão é distribuído, também, nas outras entidades e projetos sociais que desenvolvemos.

O trabalho do pão se transformou nos projetos sociais que levamos para frente hoje, a partir do início da década de noventa, com a preocupação de fazer algo a mais com os necessi-tados. Em primeiro lugar, fundamos a Comunidade Missionária entre os Sofredores de Rua, que atende pessoas que moram na rua ou em cortiços no centro da cidade. A Comunidade Missionária se desenvolveu e houve vários desdobramentos, de tal maneira que hoje a fraternidade São Francisco, em São Paulo, gere oito obras sociais (cf quadro).


Alfabetição Santa Clara

A igreja de São Francisco é reconhecida pela arquidiocese como santuário franciscano, que deve cuidar sempre do espiritual, da pastoral e, do outro lado, do social. No centro da cidade, há, simultaneamente, uma presença de ricos e pobres, como os grandes bancos e as situações gritantes de pobreza. Ao contrário das outras grandes cidades do mundo, acontece que, enquanto nelas a pobreza está sempre à margem, em São Paulo a pobreza está tanto fora como dentro. Com o abandono do centro da cidade, vieram muitas pessoas.

Há casas que parecem bonitas, mas, se você entra, descobre que são cortiços, como por exemplo, o cortiço que atendemos, com 40 famílias em 36 quartos, com três banheiros. Aqui há mundos, submundos e submundos dos submundos. Aqui queremos estar presentes com nossas obras sociais.

Em conjunto

Normalmente, quando surge uma obra social, ela é muito ligada a uma pessoa carismática, mas a província franciscana quis que as obras, fundadas progressivamente nos anos noventa, fossem unificadas para trabalhar mais em conjunto. Queríamos introduzir uma nova modalidade para que a fraternidade fosse responsável e garantisse esse trabalho social, também para assegurar sua continuidade. Assim, as várias obras foram progressivamente unificadas no Sefras. Agora estamos montando uma rede entre as obras sociais de toda a província, para que façam parte do Sefras, mas cada fraternidade local continuando a cuidar de sua obra.

Estamos pensando em operar com entidades coligadas, que não são da província, mas nas quais os frades trabalham, sempre para atuar mais em conjunto. Outra proposta é trabalhar mais em rede em São Paulo, com outras entidades religiosas (entre elas, os salesianos e a Cáritas), para não ficar cada um com sua atividade, mas unirmos as forças e nos completarmos. Sobretudo, tentamos criar relacionamentos, porque não adianta se articular de cima para baixo, mas é necessário estabelecer parcerias entre os responsáveis.


Dom Paulo Evaristo Arns numa celebração no Recifram

Atualmente, temos quatro convênios com a prefeitura e nisso é importante que cada um se reconheça como um parceiro, porque, normalmente, em casos deste tipo, há um parceiro mais forte e um menos forte, criando um desnível em relação ao maior que dita as regras. Para podermos solucionar os problemas sociais hoje, devemos chegar, como parceiros, a trabalhar juntos e não como concorrentes. E, sobretudo, deve haver um relacionamento de gratuidade e não de interesses particulares, porque nosso interesse deve ser sempre o nosso público alvo, o necessitado, aquele que é carente.

Ele, por sua vez, é também parceiro nosso. Nós não podemos nos aproveitar do carente para colocar outros interesses, políticos ou econômicos, ou limitar-nos ao assistencialismo. Há obras que assistem sempre as mesmas pessoas e famílias, de geração em geração, em lugar de realizar uma verdadeira mudança nas pessoas, uma promoção humana. Hoje vemos claro, no terceiro setor, que a questão assistencial perdeu muita força e, ao mesmo tempo, está se priorizando tentar qualificar e profissionalizar, para que haja, realmente uma promoção humana. Esses carentes têm que se construir um futuro, conseguir um trabalho, uma moradia e viver sua cidadania.

A espiritualidade

Como entidade religiosa, não podemos nos limitar à questão social, mas devemos transmitir nosso referencial, que é Deus e o próximo, a partir do Evangelho. Ao mesmo tempo, como entidade religiosa, devemos transmitir valores, porque é muito fácil hoje dar uma casa, água, luz, mas isso não leva à modificação da própria pessoa, porque o ser humano precisa não só de uma mudança externa, mas também interna. Então, a questão social e a dimensão espiritual devem andar juntas. Estamos trabalhando, neste sentido, com a presença dos frades e das religiosas, mas queremos intensificar isso ainda mais, porque vemos que a questão do futuro é cada vez mais a religião e a espiritualidade.

Somos mais do que uma empresa, devemos ir muito além. Como fazer isso? Temos a proposta de engajar cada vez mais frades para trabalharem nas obras sociais, para marcarem cada vez mais presença, para estarem à disposição. Há também várias congregações femininas franciscanas, que estão dispostas a trabalhar conosco. Vamos nos encontrar como parceiros em nível de espiritualidade, do carisma. A proposta concreta é que trabalhemos e ajamos naquilo que é próprio do religioso, que liberemos os religiosos dos demais trabalhos que os leigos podem fazer, para salvaguardar a vida religiosa na sua genuinidade, dentro de uma obra social.

Estamos montando uma equipe (já existe uma pré-equipe) para cuidar da parte espiritual e religiosa, com cursos, seminários, atendimentos pessoais e em grupo, para zelar pela liturgia, promover celebrações. Eles estão à disposição em todos os níveis: dos frades, das religiosas, dos funcionários/as, voluntários/as e, também, do nosso público alvo. Criamos um grupo como se fôssemos uma família só, que tenta realmente viver a espiritualidade franciscana.

Mesmo que haja muitas obras sociais por aí, podemos fazer um trabalho pioneiro, porque vemos que hoje não há respostas sobre como fazer isso. Percebemos que, nos vários organismos, o pessoal está meio perdido, enquanto vemos que aqui há alguma coisa nova e, também, há muitas pessoas que nos procuram querendo trabalhar, ajudar.

O SEFRAS

Comunidade Missionária entre os Sofredores de Rua.
Acolhe a população que vive na rua ou em cortiços, oferecendo um lugar seguro e higiênico de convivência, criando condições para a reconstrução da vida e construção da cidadania. Há também uma mini creche com 25 crianças.

RECIFRAN (Serviço Franciscano de Apoio à Reciclagem).
Projeto em parceria com a Prefeitura de São Paulo e o Consulado Geral do Japão. Tem como objetivo promover a organização, profissionalização e o resgate da cidadania de catadores de materiais recicláveis.

Hoje, são cerca de 40 famílias. É uma cooperativa, o material é vendido em conjunto, de maneira que se obtém um lucro maior. Com essa renda, eles conseguem ter sua própria vida autônoma, ter uma casa, dar dignidade a seus filhos e, aos poucos, criar seu futuro.

G. fati (Grupo Franciscano de Apoio à Terceira Idade)
Acolhe pessoas em situação de abandono afetivo, espiritual e financeiro, com o objetivo de resgatar a auto-estima, a dignidade e a valorização da pessoa humana. Organiza atividades sociais, educativas, culturais e recreativas.

Casa de Clara
Cuida do setor da saúde: consultório médico e dentário, com médicos voluntários que atendem pessoas necessitadas.

Cefran (Centro Franciscano de Luta contra a Aids)
Atendimento às pessoas atingidas pelo HIV/Aids, atuando em três dimensões: corpo, mente e espírito. Atende cerca de 450 pessoas por mês (adultos e seus filhos, soropositivos ou não).

Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes)
Cuida de jovens que são afrodescendentes e carentes, para que consigam, através de pré-vestibular e vestibular, lugares na universidade. Até início de 2003, 1500 jovens conseguiram superar o vestibular e estão freqüentando as universidades com bolsas. Deles, mais de 40 estão em Cuba, com vagas oferecidas pelo governo daquele país.

Centro de Acolhida e Reinserção Social São Francisco (Albergue São Francisco)
Acolhe, todas as noites, 500 pessoas. No inverno, esse número chega a 600. É também albergue diurno, com 200 pessoas.

Fortalecendo a família
Auxílio às famílias desestruturadas, tanto no aspecto emocional como econômico, que recebem complementação da renda familiar, através do Programa Renda Cidadã, dos governos estadual e municipal. São organizadas ações com enfoque social e educativo e visitas. São atendidas 360 famílias.

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