Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
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2. Uma das maiores obras de Deus em favor de todos nós, uma das maiores "liturgias" de Deus, portanto, foi quando ele nos "presenteou" seu próprio Filho para ser o nosso Salvador. Desde muito tempo, Deus vinha se mostrando um "tremendo apaixonado" pela nossa humanidade. E, enfim, depois de um longo período de "noivado", em todo o Antigo Testamento, Deus acabou se "casando" com a humanidade, na pessoa de Maria. Realizou-se a promessa, realizou-se a profecia (cf. Is 62,1-5!). E deste "casamento" resultou - por obra do Espírito Santo! - uma "gravidez" e, por esta "gravidez", foi-nos dado Jesus, Filho de Deus, Emanuel (Deus-conosco!) (cf. Mt 1,18-25!): "O Verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1,14). Que maravilhosa obra de Deus em favor da humanidade!...
3. Por aí já dá para entender o que quero dizer com "Liturgia do Natal". Não estou pensando em primeiro lugar nas cerimônias das festas natalinas. Estou pensando na "Liturgia" do Natal, isto é, no enorme bem que Deus fez para nós, através do "sim" de Maria: O Verbo eterno de Deus "mergulhou", de cabeça, para dentro do imenso e abismal mistério da nossa existência humana. É muito amor por nós! Indescritível solidariedade!... Aquele que criou todo este infindo universo povoado de milhões e milhões de astros e galáxias, ele se faz pequenino como nós sobre este "minúsculo" planeta Terra. 4. Deste "mergulho" fundo e solidário de Jesus na nossa condição humana, até a morte (e morte numa cruz!), resultou enfim a definitiva vitória do amor, da solidariedade, da vida, sobre este nosso chão: Ressurreição e dom do Espírito! E daí resultou também que nós, humanos, pelo Batismo fomos elevados à dignidade de filhos e filhas de Deus (cf. Jo 1,12), membros do corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,12-31), participantes da vida divina, comensais do banquete celeste, "herdeiros da vida eterna" (Tt 3,4). Pelo dom do Espírito, fomos transformados em "geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista", para proclamar as obras admiráveis daquele que nos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa (cf. 1Pd 2,4-9; 9; Ap 1,5b-6; 5,6-10; 20,4-6). Família de Deus, Corpo de Cristo, Igreja, novo e verdadeiro "povo sacerdotal"!... Quanto bem Deus fez para nós!... Quanta "liturgia"! 5. Por isso, no Natal, podemos ouvir a auspiciosa notícia do anjo: "Não tenham medo! Eu lhes anuncio uma grande alegria, que deve ser espalhada para todo o povo. Hoje... nasceu para vocês um Salvador, que é o Cristo Senhor". E um coral imenso de anjos irrompe num alegre hino de louvor: "Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados" (cf. Lc 1,10-14). Paz na terra aos homens (e mulheres) amados por ele!... Deus nos amou e deste amor resultou para nós a paz, que no fundo é sinônimo de vida. E nisto está precisamente a sua admirável grandeza: "A glória de Deus é a vida do ser humano" (S. Irineu).
6. E nós, Corpo de Cristo, família de Deus reunida em assembléia para celebrar a divina Liturgia do Natal, dando graças ao Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo poderoso, proclamamos jubilosos: "No mistério da encarnação do vosso Filho, nova luz da vossa glória brilhou para nós. E, reconhecendo a Jesus como Deus visível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos" (Prefácio do Natal I). Ou também: "Ele, no mistério do Natal que celebramos, invisível em sua divindade, tornou-se visível em nossa carne. Gerado antes de todos os tempos, entrou na história da humanidade para erguer o mundo decaído. Restaurando a integridade do universo, introduziu no Reino dos Céus o homem redimido" (Prefácio do Natal II). E ainda: "Por ele, realiza-se hoje o maravilhoso encontro que nos dá vida nova em plenitude. No momento em que vosso Filho assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos" (Prefácio do Natal III). 7. Então, depois de dar graças, participamos da verdadeira Ceia de Natal, na qual o humilde Senhor se entrega a nós como alimento. Feito pão e feito vinho, corpo e sangue dele oferecidos, nós o acolhemos com nosso "amém" e a disposição sincera de formarmos com ele um só corpo bem unido. A Liturgia do Natal atinge então seu ponto alto quando, comendo e bebendo desta Ceia, celebramos a comunhão total do divino com o humano, celebramos a nova "cidadania" (a cidadania do céu!) que nos foi conquistada. Participamos do banquete comemorativo da grande obra do Salvador, pela qual nos tornamos eternos. Liturgia do Natal! 8. Por isso, após a comunhão, rezamos: "Ó Deus de misericórdia, que o Salvador do mundo hoje nascido, como nos fez nascer para a vida divina, nos conceda também sua imortalidade" (Oração depois da comunhão). A saber, no Natal invocamos Deus como "misericordioso", pois fez do seu Filho ressuscitado um eterno "hoje" em cada Eucaristia que celebramos e, cada vez que comun-gamos deste "hoje", fazemos a experiência de comunhão com a vida divina, com sabor de eternidade. E que assim seja sempre! 9. Não é o "aniversário" de algo
que passou que celebramos no Natal, mas a presença viva do Verbo
eterno do Pai que se faz Liturgia viva (permanente serviço libertador)
no chão de nossa história. Por isso, em toda celebração
litúrgica da festa de Natal, proclamamos o permanente "hoje"
do mistério: "O Senhor me disse: 'És meu Filho, eu
hoje te gerei'". Ou: "Alegremo-nos todos no Senhor: hoje
nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!".
E ainda: "Hoje surgiu a luz para o mundo: O Senhor nasceu
para nós. Ele será chamado admirável, Deus, Príncipe
da paz, Pai do mundo novo, e o seu reino não terá fim".
E também: "Revelastes hoje o mistério do vosso Filho
como luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação".
Liturgia do Natal, presença do eterno "hoje" salvador,
como obra da Trindade! Presença com sabor de Páscoa, pois
é a partir da Páscoa que podemos viver o Natal como festa
da luz, da vida, da paz! |
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