Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

por Ernesto Arosio

efinido como o missionário de "uma vida humanamente louca e sobrenaturalmente fecunda". Seria suficiente analisar o que fez na missão da Etiópia, na segunda metade de século 18, para colocá-lo entre os maiores missionários: escritor, professor, arquiteto, geógrafo, etnólogo, médico, mas, sobretudo, bispo missionário, precursor dos tempos.

Nasceu em 8 de junho de 1809, em Piová d'Asti, um lugarejo na Itália, filho de modestos camponeses. Logo na sua primeira juventude, expressou o desejo de ser missionário, assustando os pais que perceberam que iriam perder um valioso braço para a lavoura. Um irmão já tinha escolhido o caminho sacerdotal, mas Lorenzo Antonio Massaia, mais conhecido como Guilherme Massaia, nome que assumiu como frade capuchinho, e mais tarde, na Etiópia, como Abuna Messias, conseguiu o que desejava. Ordenado sacerdote em 1832, serviu na ordem até 1846, quando o papa Gregório XVI criou o vicariato apostólico dos Gallas, no norte da Etiópia, e nomeou Guilherme, primeiro bispo de um vicariato que existia somente no papel.

A iniciativa de criar um vicariato ligado à Igreja católica foi sugerida pelo explorador francês Antônio d'Abbadie, a convite do imperador da Etiópia. A cristianização da Etiópia era muito antiga, anterior à expansão do islã no fim do primeiro milênio. O imperador queria se abrir ao Ocidente, naqueles tempos de conquistas coloniais, e ter o apoio do Vaticano seria politicamente útil, diante das pressões do Egito.

A viagem para chegar à sua missão durou seis anos, entre a navegação pelo rio Nilo e a travessia do deserto e das montanhas da Etiópia. Quando iniciou a implantação da diocese, o bispo Massaia escrevia "que o bispo era Guilherme, o secretário era Guilherme, o médico era Guilherme, o professor da escola era Guilherme, o engenheiro, o pedreiro, o marceneiro, o alfaiate, o ferreiro e tudo que se poderia imaginar era Guilherme", porque estava sozinho para atender a tudo e a todos. Sua preocupação missionária não era de conquistar a Etiópia ao catolicismo, mas de fazer progredir aquelas tribos, conforme o seu lema: "Educar a África com a África". Criou escolas, colégio, seminário para formar sacerdotes locais que continuassem a ação pastoral e de conversão, quando os missionários estrangeiros se retirassem ou morressem. A África, naquele tempo, era chamada o cemitério dos missionários, devido ao isolamento, à falta de recursos, à dureza da vida nas aldeias.

Apesar de todo trabalho social médico em favor dos etíopes, em 1879, o imperador Joannes IV obrigou-o a sair do país. O imperador tinha decidido que na Etiópia não haveria lugar para mais de uma religião e todos deviam professar o cristianismo eutiquiano que se tornaria a religião oficial do império. Todos os súditos cristãos de outros ritos, como os católicos, tinham dois anos para passar oficialmente à religião oficial e os muçulmanos deviam se converter dentro de três anos.

É aqui que se revela a modernidade de Abuna Messias. Antes de deixar o país, escreveu uma carta ao imperador, defendendo a laicidade do estado e a liberdade religiosa: "Não é justo que todos os homens sejam obrigados a aceitar o cristianismo. Isso é ridículo diante da sociedade e, também, não é aceito por Deus. Pois, a religião é um ato de amor por Deus, sendo assim, por que alguém, sem a devida instrução, deve aceitar o cristianismo? Cristo disse: "Ide, ensinai e, a quem acreditar, batizai-o". Se acreditasse pela força, isso deveria ter sido imposto por Deus e não por um rei. Se um rei, na Etiópia, obrigasse todos a crer na sua fé, e se depois viesse um rei islâmico, este não deveria obrigar seus súditos a aceitar a sua fé?..."

A carta, naturalmente, não teve resposta e Abuna Messias voltou para a Itália, onde escreveu o diário de sua epopéia. Em 1884, recebeu o cardinalato e veio a falecer cinco anos depois.

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