Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Tema sempre difícil de ser
abordado, a experiência da dor causada pela morte é tratada
com sinceridade, nesta
entrevista exclusiva para Mundo
e Missão, com Alice Lanalice, fundadora da CASULO

Como e por que nasceu a CASULO?

- Sempre tive a mania de escrever. Não poderia ser diferente quando me confrontei com a dor pela morte da minha filha Eliana. Durante um ano inteiro, enchi vários cadernos relatando sentimentos, perguntando o sentido da vida e da morte, recordando momentos passados...

Além da escrita, conversava com meu filho, marido, psicanalista, amigos, rezava, lia, mas, principalmente chorava. Sentia falta de ter ao meu lado outras mães com histórias parecidas. Queria perguntar-lhes o que sentiam por terem perdido seus filhos, se conseguiam sobreviver, se a vida ainda tinha sentido. Sabia que outras mães sofriam como eu, mas onde estavam? Na esperança de juntar mães enlutadas, pensei em criar uma associação que tivesse o objetivo de apoiar o luto. Ao mesmo tempo, no final do primeiro ano, passando os cadernos a limpo, acabou nascendo o livro "O Perfume de Eliana". Com o livro quase concluído, fui acolhida pelo Instituto de Psicologia 4 Estações que ofereceu espaço para o seu lançamento e para criar a Associação. Em 20 de setembro de 2001, quando Eliana faria 27 anos, nasceu a CASULO - Associação Brasileira de Apoio ao Luto.

O que é "morte" e como é apresentada pela CASULO?

- A morte, por si só, constitui um mistério incompreensível, desde o começo dos tempos, e é um assunto de que ninguém gosta de falar. Assim foi para mim, especialmente por se tratar da morte da minha filha, no auge de sua vida, aos 25 anos de idade, num acidente automobilístico. E o que é a morte? Não sei. O que é a vida? Não sei. Tanto tempo dediquei a essas duas questões existenciais que desisti de achar respostas. Aceitei o fato como inexorável: todos morreremos um dia.

A CASULO não nega a morte: entende-a como uma etapa da existência. Não dizemos que a morte do ente querido foi "vontade de Deus", que a pessoa "já cumpriu sua missão" e agora se encontra "num lugar mais feliz" ou qualquer outra afirmação vinculada às crenças religiosas. Somos uma organização laica que recebe todas as pessoas, de qualquer credo, ou mesmo atéias, e que tem como objetivo fazer com que a pessoa viva melhor o seu luto.

O que significa "luto" e o que provoca nas pessoas enlutadas?

- Luto é a dor causada pela morte de alguém e viver o luto é viver essa dor. É um tempo obrigatório entre duas fases da vida: a que se deixa, pela separação do ente querido, e a que vem depois. É preciso se soltar da relação que existia para se construir uma verdadeira vida nova, sem esquecer a pessoa que se foi. O luto não é uma doença, mas pode vir a ser se a pessoa não o viver.

Choque, negação, raiva, culpa, depressão são as reações mais comuns que surgem no processo de luto. Estudos mostram que, quando as pessoas não lidam com esses sentimentos, a dor não passa. Compreender as emoções e os sintomas da perda são passos importantes para a superação do luto. Por tudo isso, a missão principal da CASULO é apoiar o luto e não ignorá-lo.

Como se consegue administrar o luto?

- Não há uma receita única para resolver o luto. Algumas pessoas procuram o terapeuta, o padre, o amigo, a família, o trabalho e até o isolamento; outras se juntam com seus pares para trocar suas experiências. Além disso, cada um lida com os sentimentos de um modo particular. Entretanto, algumas atitudes podem auxiliar na superação da dor: falar com amigos; não se culpar de nada; perdoar-se pelo que fez ou deixou de fazer; cuidar da própria saúde; procurar uma instituição ou grupos de auto-ajuda... Constantemente, ouve-se na CASULO que o testemunho não são só as palavras de quem já passou pelo luto, mas a sua própria sobrevivência. Isto significa que o convívio com os pares é importante para a cura do luto.

Quais as iniciativas que a CASULO oferece?

- Para apoiar o enlutado, a CASULO dispõe de três frentes principais:

  • Atendimento individual: o enlutado é encaminhado a um terapeuta voluntário, que atende em seu próprio consultório (procura-se um terapeuta próximo à sua residência). Outro tipo, é o atendimento de grupo. Normalmente, a mãe que perde o seu filho é quem mais procura ajuda e quando algumas mães aceitam as mesmas condições de horário e local, forma-se um grupo.
  • Grupos de auto-ajuda, coordenados por moderadores. Esta opção nasceu para atender os enlutados que estavam na lista de espera. Foi organizado um curso para moderadores, pessoas identificadas com a causa do luto, pacientes para ouvir e dispostas a coordenar um grupo de enlutados. Cada grupo de auto-ajuda, formado por 5 a 8 pessoas, tem o compromisso de se reunir uma vez por mês, durante 13 meses.
  • Serviço S.O.S. - acolhimento particular, por uma ou duas pessoas da CASULO, diante de perda recente. No encontro com o enlutado, estabelece-se um diálogo entre ele e os que já passaram por esta dor. Geralmente, o enlutado fala a maior parte do tempo e isso é importante nesta fase. Depois de alguns encontros, ele é convidado a participar das atividades da Associação.
  • Além disso a Associação participa também de palestras, seminários e encontros.

TESTEMUNHO

uis Antonio Ferreira Rosmaninho, o Luba, era um jovem feliz e saudável, nos seus 16 anos de idade. Estudante de ótimo desempenho escolar, cursava o 2º ano do ensino médio. Dedicava-se, com prazer, também ao handebol, futebol, música e poesia. Subitamente, sofreu um episódio de diplopia (dupla visão) durante um jogo de handebol. Passou, também, a ter fortes dores de cabeça e sonolência, perdendo o vigor e a alegria marcante.

Passou por oito consultas com diversos especialistas, até que uma ressonância magnética do crânio, com resultados normais, trouxe a conclusão de que se tratava de enxaqueca. Infelizmente, não era o diagnóstico. Em 31 de agosto de 2001, durante um treino de handebol, Luba caiu na quadra, sofrendo convulsões. Internado no Hospital Albert Einstein, veio a verdade: dissecção interna de uma artéria envolvida na irrigação do cérebro. Era essa a origem das diplopias, dores de cabeça, dormências e auras visuais. Luba ficou em coma por 14 dias e, quando estava melhorando, foi vitimado, fatalmente, por uma infecção generalizada.

Uma imensa dor se abateu sobre nós: bem dizem que é a maior que se pode experimentar. A cada dia, procuramos viver nossas vidas com dignidade e raça. Temos tentado compartilhar nossa dor e nossas reflexões sobre a vida e a morte com quem convivia e amava o Luba. Sabíamos que ele escrevia poesias, mas nos surpreendemos com seus cerca de 90 poemas e ilustrações. Com a ajuda de seus amigos, pudemos editar o livro "Luba sem titubear". O lançamento foi na sua escola, a Escola da Vila. Foi a melhor forma de cada amigo seu ter um retrato do jovem que amou muito a sua breve vida.

Meu lado racional procurava explicar e entender tudo. Restava pouco espaço para a espiritualidade. Essa é minha nova tarefa: praticar a vida, tentando conectar-me cada vez mais ao próximo; desenvolver a crença de que temos, todos, algo de divino, apesar das imperfeições. Meu filho me ensinou a nadar melhor. É com ele que estou aprendendo a viver melhor, a ser uma pessoa melhor para mim mesmo e para os outros.

Fernando Rosmaninho, pai de Luba

MEIO TEMPO

Na trêmula fração
De precaução e receio
Ocorre o toque.
De todo o meu tempo
Me despeço
Sem gestos,
Sem palavras.
Adeus.
Estou esperando.

(Luba)

Casulo - Associação Brasileira de Apoio ao Luto
Rua Caçapava n.º 130 - Burgo Paulista
São Paulo - SP - 01408-010
a.casulo@uol.com.br
www.acasulo.hpg.com.br

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