Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

 



Articular da igreja do beato Odorico de Pordenone

Fonte batismal da igreja de São José Trabalhador

 

A arquitetura de uma Igreja deve ser o espaço onde o sublime torna-se sensível, onde a presença do Mistério se faz palavra. Uma beleza que brota da matéria inerte e torna-se arte, poesia material porque indica a presença de uma realidade superior: o Infinito

por Ernesto Arosio

escritor cristão russo, Dostoievski, referindo-se a tudo o que é belo, dizia que a beleza salvará o mundo. Todavia, outros autores modernos, olhando para algumas igrejas recém-construídas, perguntam-se: "Quando acabará a noite?". De fato, existem algumas igrejas modernas que não transmitem essa presença mística do divino, mas parecem mais salões de uso social. Não queremos falar nem criticar as capelas do interior ou das periferias das grandes cidades, onde o povo, em sua necessidade de ter um lugar de culto, constrói, com amor e boa vontade, quase refazendo a pobreza da gruta de Belém, onde nasceu Deus.

Aqui é o caso de igrejas nas cidades, verdadeiros salões que nem sempre transmitem sentido espiritual, ou de igrejas construídas no passado com amor e estilo, testemunho de arte dos tempos, que foram (re)deformadas por padres ou comissões paroquiais sem o mínimo conhecimento dos estilos arquitetônicos. Quanto seria útil, conforme indicações do Vaticano II, que nenhuma reforma ou projeto novo de igreja fosse realizado sem a aprovação e o acompanhamento de uma comissão diocesana de arte sacra.

A arquitetura sacra


Capela do Centro Missionário da sociedade americana do Verbo Divino de Techny (Chicago), obra do arquiteto David Woodhouse.

As linhas arquitetônicas de uma igreja devem indicar claramente que se trata de um lugar diferente das moradias e dos monumentos. A arquitetura poderá ser simples como a das antigas igrejas românicas, austeras e sóbrias, mas expressão do sagrado, ou ser rica como as igrejas barrocas cheias de detalhes, anjos e santos, mas que inspiravam a presença alegre de Deus.

O espaço sagrado, em sua essência, significa e sinaliza o lugar de encontro da comunidade e da pessoa com Deus e de Deus com a comunidade e a pessoa. A igreja deve ser o lugar onde predomina Deus e sua santidade, portanto, deve transmitir aos fiéis e visitantes sua presença quase sensível, em todo seu conjunto de beleza, sobriedade ou simplicidade, porém solene.

O valor de uma igreja não consiste tanto no estilo arquitetônico, mas no conjunto dos fatores: estilo, vitrais, adereços, pinturas que devem convidar à oração, para que o templo seja a "porta do Céu", um lugar de encontro, de repouso no Senhor, um espaço de fé, em outras palavras, um lugar da presença perceptível de Deus.

O edifício sagrado como sinal da presença de Deus


Interior da igreja da Cartuxa de São Donato Milanese, pintada por Valentino Vago.

Sandro Benedetti, arquiteto-chefe da Fábrica de São Pedro (Vaticano) diz que "as igrejas devem ser dotadas de valor artístico que não significa um problema de estilo - cada arquiteto é livre para planejar a construção do templo,... mas a forma arquitetônica deve tornar expressiva a qualidade peculiar, ontológica da igreja: a religiosidade e a cultura do tempo que devem ser percebidas não somente pelos contemporâneos, mas também pelas gerações sucessivas. Cada nova igreja deve ser capaz de expressar plenamente a misteriosa presença de Cristo na Eucaristia, isto é, deve ser a definição espacial e a articulação luminosa que destacam a evidência expressiva do lugar do altar - símbolo do sacrifício da comunidade - e ainda o aspecto coloquial e participativo da assembléia em relação ao altar".

O edifício sacro, portanto, deve solicitar - através de sua iconografia - a fé dos fiéis e ser um sinal imediato e sensível de sacralidade, também para os não crentes, deve enriquecer o espaço urbano em que ele está inserido. Deve ser o sinal explícito de uma presença religiosa na vida urbana, não porque os transeuntes sejam todos católicos praticantes, mas para que percebam que o edifício eclesial é diferente, um lugar que inspira sentimentos religiosos.

Para os católicos, a igreja é o espaço não somente de sentimentos e emoções religiosas, mas, sobretudo, da presença real de Cristo na Eucaristia entre seus discípulos e que, a partir dessa experiência de um Deus que lá vive, faz viver e pulsar todo o espaço. A arquitetura sacra é o meio para encarnar e mostrar essa presença, portanto, cada obra deve ser única e significante.


Projeto de uma igreja, idealizado pelo arquiteto americano Richard Meier de 1996.

Para conseguir vivenciar a sacralidade fundamental das igrejas católicas, o arquiteto pode usar todos os elementos construtivos à sua disposição, como pedra, madeira, tijolo, ferro, vidro, mosaico, pintura, que ele harmonizará para que, através dessa fusão, os fiéis se elevem até Deus e, como diz o arquiteto franciscano Constantino Ruggeri, especializado em luminosos vitrais, "Deus se faça presente no meio dos fiéis".

O projetista deve fundi-los num concerto de elementos e criar uma musicalidade apta para um lugar sagrado. Para conseguir esta fusão harmônica e melódica que expresse Deus, o arquiteto pode até não ser cristão, mas deve ter uma forte experiência religiosa porque não está construindo um monumento para um herói, um edifício público e social, mas uma casa de Deus para Deus e seus fiéis.

Uma igreja para os fiéis


A contestada e moderníssima catedral da Sagrada Família, em Barcelona - Espanha

Altar central da Abadia beneditina de Farfa, século 13, em Rieti - Itália

Atualmente, não existem cânones fixos de construção, mas há normas ditadas pela liturgia e pelas necessidades da assembléia a qual deve se sentir bem acomodada e possa participar plenamente do culto.

Não é mais o celebrante e seus ministros que realizam o culto, mas toda a assembléia, na harmonia das partes e das funções. É isso o que determina, na prática, o tipo de projeto e sua beleza na sua funcionalidade.

O fiel deve ser intimamente levado a participar, envolvido no ato que acontece no altar e, portanto, tem que poder ver e se sentir presente em qualquer lugar em que estiver e ter a possibilidade de circular, em momentos particulares do ofertório e da comunhão, sem se amontoar caoticamente, ou dificultando a concentração mística que a liturgia deve proporcionar.

Outro elemento importante é a luz, para que não somente clareie o ambiente, mas embeleze o edifício, dando uma luminosidade envolvente que realce a sacralidade do espaço eclesial, criando uma atmosfera de contemplação e de oração.

A igreja do futuro, portanto, deve ser alegre, causar emoções espirituais não porque está carregada de enfeites, mas porque expressa e materializa a presença do Deus Pai, o "Deus da nossa alegria", que, através da Eucaristia, oferece sua força espiritual para a caminhada dos fiéis.

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