Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

O princípio misericórdia

"Vi a opressão de meu povo, ouvi suas queixas contra os opressores, conheço seus sofrimentos, por isso desci para libertá-los" (Ex 3,7s)

O teólogo Jon Sobrino vem escrevendo textos e reflexões sobre o "princípio misericórdia". Segundo o autor, este princípio é o mais estruturante na vida de Jesus e, também, da Igreja. O missionário como pessoa da misericórdia encontra em Jesus sua inspiração. Não se trata de um sentimento de compaixão, nem de pena. Não representa uma atitude de alívio das necessidades individuais e, menos ainda, de uma atitude paternalista. É muito mais do que isso. Inspira-se num Deus que se debruça, desde a criação do mundo, sobre as condições humanas, que sente a dor de seu povo e a carrega sobre si e, conseqüentemente, decide intervir com uma ação libertadora. O que motiva a ação misericordiosa é a realidade do sofrimento. O povo era escravo no Egito. Deus ouve o grito e sente a dor da opressão. Movido por dentro, inicia o caminho da libertação. Jesus, contando a parábola do Bom Samaritano, mostra que o que move o samaritano é a dor e o sofrimento da pessoa ferida. Não é porque existe um mandamento a ser cumprido ou uma recompensa a ser recebida que a ajuda é oferecida. O verdadeiro ser humano é aquele que interioriza dentro de si o sofrimento do outro. Esta compaixão, como re-ação, é o princípio primeiro e último da atuação. O amor misericordioso reage diante do sofrimento do outro, injustamente infligido, para elimina-lo.
O lugar da missão é o ferido no caminho, é o outro esmagado à beira da estrada, é aquele que sofre injustamente. A misericórdia nunca foi ausente do caminho missionário. Hoje, mais do que nunca, torna-se o princípio motor da inspiração evangélica.

Quando a misericórdia é assumida a nível de princípio, torna-se uma categoria fundamental para a compreensão de toda a história da salvação. A Bíblia não teoriza sobre Deus e nem fornece definições de princípio sobre ele. Conta a ação de Deus na história em sua ação misericordiosa pelos oprimidos.

"Misericórdia é, portanto, o primeiro e o último; não é simplesmente o exercício categorial das chamadas 'obras de misericórdia', embora possa e deva se expressar também nestas. É algo de muito radical: é uma atitude fundamental perante o sofrimento alheio, em virtude do qual se reage para erradica-lo" (p.36). Jesus morreu condenado para exercitar a misericórdia de modo conseqüente até o fim.

As forças da anti-misericórdia chegam tolerar os sentimentos de misericórdia e os vários paternalismos, mas quando a misericórdia é elevada a princípio, então as forças contrárias reagem e querem destruir até quem a pratica.

O caminho missionário é, propriamente, um incentivo para que a Igreja e as comunidades cristãs se descentralizem pela misericórdia. O lugar da Igreja missionária é o ferido no caminho e o marginalizado na sociedade. Ela implanta o sonho dos pobres e dos oprimidos. Sendo um princípio, a misericórdia está na raiz e norteia todo o caminho missionário; A missão encarna-se na vida real de um povo sofredor e esmagado, leva a cabo o projeto de vida e denuncia as forças do anti-reino. Carrega sobre si, como Jesus, a maldade do mundo e ressuscita a esperança e alegria.

Alguém se pergunta como é possível acolher a imagem de um Deus misericordioso diante das vítimas do holocausto nos campos de concentração ou diante dos assassinatos em El Salvador e na Guatemala. Onde estava e está Deus nas grandes tragédias humanas? Por que Ele está tão ausente e mudo? O mesmo Jon Sobrino responde: "O fato de Deus deixar as vítimas morrerem é um escândalo irrecuperável, e a fé em Deus tem que passar através deste escândalo. Nessa situação, a única coisa que o crente pode fazer é aceitar que Deus está na cruz, impotente como as vítimas, e interpretar essa impotência como o máximo de solidariedade com elas".

O anúncio missionário, entre a misericórdia e a cruz, revela que o nosso Deus é vulnerável, sofredor e compassivo porque morre com os crucificados da história.

"Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressucitou"
(Lc 24, 5-6).

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