Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

 

1.º De tantas coisas bonitas de minha infância, sempre gosto de recordar o seguinte: depois que fiz a primeira comunhão, num certo domingo, após o almoço, fui obrigado por meu pai a retornar com meu irmão para a igreja, a fim de participarmos da catequese de perseverança. Já tínhamos ido à missa na parte da manhã. Agora, tínhamos que percorrer oito quilômetros a mais, de volta à cidade.

E a pé! Acontece que, por isso mesmo, chegamos atrasados. O frei que estava dando catequese, ao nos ver chegando atrasados, nos repreendeu severamente em público. Eu, muito chateado, comecei a chorar. Mas chorar mesmo, atrás de uma coluna da igreja! Uma religiosa franciscana, a querida irmã Nívea, que auxiliava na catequese e nos conhecia, pois estudávamos no colégio delas, ao me ver soluçando atrás daquela coluna, sentou-se ao meu lado, carinhosamente me abraçou, passou a mão sobre minha cabeça, com palavras de ternura e de conforto ...

Não me lembro do que o frei ensinou nas suas aulas de catequese. Mas do gesto de amor da irmã Nívea, nunca me esqueci, até hoje. Esta lição de Evangelho ficou gravada bem fundo no meu coração. E procuro colocá-la em prática, na medida do possível, também nas práticas celebrativas. A pessoa de irmã Nívea, embora já desaparecida num trágico acidente, continua viva no seu amor que ficou em mim para sempre.

2.º Algo parecido aconteceu com o povo de Israel. Experimentou o amor misericordioso e confortador de Deus por ocasião da saída do Egito. O gesto amoroso de Deus, que enxugou as lágrimas desse povo sofrido, ficou gravado no coração do povo. E cada vez que o povo se recordava daquele gesto, se sentia feliz, recobrava as forças para continuar a caminhada.

Mesmo depois de sérias infidelidades à aliança e de conseqüentes desgraças, a recordação da ternura de Deus fazia o povo se levantar e prosseguir seu caminho. Recordar que Deus continuava operando em favor do povo (liturgia!), renovava e fazia crescer a fé... Deus não era visto nem sentido como uma verdade abstrata, mas como Alguém que estava aí, marcando presença, operando sempre e com eterna misericórdia.

3.º Na plenitude dos tempos, este Alguém (que Deus é!) se fez nós na pessoa do seu Verbo encarnado. Assumiu o nosso corpo. Tocou o nosso corpo e se deixou tocar por nós. Sentiu tristeza. Chorou. Lamentou-se. Irou-se. Exultou de alegria. Sua simples presença amorosa, transpirando ternura e paz, produzia o maior bem-estar às pessoas oprimidas e carregadas de tensões emocionais.

Desarmadas diante do seu modo de ser profundamente acolhedor, as pessoas se sentiam curadas, renovadas. "Vai, tua fé te salvou". O fato de simplesmente deixar que este Alguém amasse - que fosse a Liturgia do Pai! - já era motivo suficiente para crescimento na vida e na fé.

4.º Também depois da ressurreição, o Senhor continuava sendo sentido como Alguém. A Boa nova era sentida não como uma doutrina, um enunciado filosófico e de sabedoria de vida, mas como Alguém marcando presença consoladora e animadora. Ele caminhou para Emaús e se deixou perceber ao partir do pão. Ele soprou sobre os seus. Ele comeu à beira do lago.

Depois, continuou sua Presença atuante por seu Espírito. Presença esta que passou a ser celebrada - sentida muito presente! - mediante inúmeros gestos e sinais (batismo, fração do pão, imposição das mãos, unção, oração, a própria reunião dos irmãos e irmãs etc.). Esta experiência é que fazia (e faz) os cristãos crescerem na fé e no compromisso comunitário.

5.º O que eu gostaria de acentuar é o seguinte: só quando sentimos Deus como Alguém é que seremos capazes de crescer na experiência de fé. E o lugar privilegiado de fazer essa experiência é na celebração litúrgica. Pois aí não se trata de entrarmos em contato com idéias, mas com Alguém. Como chama a atenção Robert Goffy, num artigo sobre a celebração como lugar da educação da fé: "O cristianismo não é somente uma doutrina à qual o cristão adere. É Alguém, a saber, é a Pessoa do Filho de Deus feito ser humano, que pelo poder do Espírito nos leva ao Pai.

Não são as idéias que possamos adquirir sobre Deus que vão nos salvar, é Deus mesmo, em Jesus Cristo enviado ao mundo para a salvação de todos os seres humanos. A Boa Nova da Salvação, o Evangelho, é o próprio Cristo, 'único mediador entre Deus e os seres humanos', não um saber sobre este Mediador" (R. Goffy, "La celebración, lugar de la educación de la fe", Phase 118, 1980, p. 269).

6.º Por isso, podemos dizer com R. Goffy que a celebração litúrgica é o lugar privilegiado de educação da fé. "Lugar" não entendido como espaço privilegiado de doutrinação, ou melhor, de transmissão de idéias sobre Deus. Mas "a celebração é lugar da educação da fé porque é a fé em ato: é Palavra de Deus anunciada à assembléia que a acolhe; é reencontro entre Deus e seu povo; é profissão de fé do povo da nova Aliança; é um ato de testemunho" (ibid., 271).

7.º Assim, "na liturgia da Palavra não lemos um texto, escutamos alguém que nos fala. Não prestamos atenção à leitura de um texto venerável por sua antigüidade, escutamos Deus que nos fala. Quando lemos um texto, entre 'escutar' e 'ler' há uma grande diferença. Quando lemos um texto, não pensamos (ou pensamos pouco) no autor da obra. O que nos interessa são as idéias expostas, as descrições feitas, as análises do coração humano. Por outro lado, quando conver-samos com um amigo, ficamos geralmente mais atentos à sua pessoa do que ao que ele diz.

Mais exatamente, nós nos unimos ao amigo, acolhendo as palavras com as quais ele nos confia o seu segredo. As palavras que ele pronuncia têm uma cor, um valor próprio, pois ele se dirige a nós pessoalmente. Assim acontece com a proclamação da Palavra de Deus na celebração litúrgica. Trata-se de uma palavra que nos é dirigida pelo Senhor confiando-nos seu segredo. Quando a escutamos, somos convidados a estar atentos Àquele que nos fala: Deus" (ibid., p. 273-274).

8.º O mesmo se diga a respeito dos gestos e sinais sacramentais. Através deles o Amigo (Deus) nos confia o seu segredo, o seu amor gratuito, o seu apoio, o seu conforto, a sua cura, o seu apelo etc. Por eles somos "tocados", "acariciados" por Deus. Mas isso se torna perceptível e, conseqüentemente, educador da fé, na medida em que tivermos uma apaixonada consciência de que estamos celebrando Alguém, e o fazemos com a totalidade do nosso corpo envolvendo emoções, afeto, coração, levando em consideração a cultura e época em que estamos vivendo.

9.º Interessante que, quase imperceptivelmente, celebramos a ação deste Alguém a toda hora. É nas rodas de conversa de amigos. É no ônibus. No trabalho. Em qualquer lugar. A toda hora, a partir de acontecimentos concretos de nossa vida, dizemos "Graças a Deus", "se Deus quiser", "queira Deus", "Deus o livre", "Deus me livre", "meu Deus", "meu Deus do céu", "Deus te acompanhe", "Deus te guie", "vai com Deus" etc. Temos a natural sensação de sermos "tocados" permanentemente por Deus.

10.º Nossas celebrações litúrgicas deveriam transmitir a experiência cristã de um Deus vivo que, amorosamente, fala, se comunica com seu povo e age na nossa história. É uma questão a ser pensada ...

Leitura

LITURGIA - um direito do povo de Frei José Ariovaldo da Silva, ofm e Pe. Marcelino Sivinski (org.), Editora Vozes, Petrópolis - RJ - 2001

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