Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
|
Conquistados
por Alberto Garuti O protagonista principal numa história de conversão nunca é a pessoa que se torna cristã, mas é Deus que chama. Ele chama quem quer, não importa quem seja ou o que tenha feito antes. A seguir apresentamos três histórias de conversão de pessoas que percorreram caminhos diferentes. A primeira fala de um muçulmano argelino que conheceu o cristianismo em sua terra e, para poder abraçar a nova religião, teve que migrar para outro país onde vive sob outro nome. A segunda fala de um japonês que passou muitos anos de sua vida atacando o cristianismo e que, de repente, como Paulo, ouviu o chamado daquele Cristo que estava combatendo. A terceira fala de uma mulher cambojana que viveu quatro anos nos campos de extermínio em sua terra, que começou descarregando seu ódio contra Deus e acabou descobrindo nele amor e compaixão. As histórias são diferentes, os caminhos que Deus nos convida a trilhar são diferentes, mas todos levam ao mesmo ponto: o encontro da pessoa com Cristo.
Para quem é cristão, viver na Argélia muçulmana não representa um problema: a convivência é possível. Diferente é o caso de um muçulmano que quer se tornar cristão: isso é considerado um ato muito grave que pode levar até à pena de morte. Foi o que aconteceu, quando Abdul começou a aproximar-se da religião católica: a família considerou isso uma tragédia. Ele teria criado muitas dificuldades à Igreja argelina, se tivesse pedido o batismo, sem falar dos riscos que teria corrido quanto à própria incolumidade pessoal. Por essas razões, resolveu deixar pátria, família e trabalho e aceitar o convite de pessoas amigas para morar na Itália. "Se alguém amar o pai, a mãe... mais do que a mim, não é digno de mim." Abdul começou a sentir interesse pelo cristianismo desde criança: ficou bem impressionado pelo testemunho de algumas irmãs que visitaram sua casa, quando o pai faleceu; ficou fascinado pela figura de João Paulo II, a ponto de perguntar-se por que os muçulmanos não teriam alguém como ele. Já estava bem predisposto ao cristianismo, quando ouviu no rádio uma série de programas sobre essa religião. Foi uma reflexão que o impressionou profundamente: o fato de o Deus dos cristãos ser um Deus-amor, um Deus que, mesmo sendo todo-poderoso e criador do universo, resolveu tornar-se homem como nós e morrer pelo único motivo de nos salvar, para depois ressuscitar dos mortos. Um Deus assim não se encontra em nenhuma outra religião. O testemunho dos cristãos argelinos reforçou sua decisão
de conversão. Foi acolhido com muito calor humano e orientado nos
primeiros contatos com o cristianismo. Mas o acompanhamento de um orientador espiritual muito atencioso e o fato de ter se inserido numa pequena comunidade formada por pessoas de diferentes nacionalidades ajudou-o a sentir-se de novo em casa. A crise de adaptação foi superada graças ao fato de ter encontrado tantas pessoas atenciosas e amigas. Foi batizado, mas a família até hoje não sabe. Do ódio ao amor A PRESENÇA DE DEUS MESMO NUM CAMPO DE EXTERMÍNIO Refugiada na França após a libertação, lá acabou encontrando definitivamente esse Deus e se converteu ao cristianismo. Agora, em Marselha, leciona no instituto de Ciências e Teologia das Religiões. Ela é um testemunho vivo do encontro entre a "sabedoria budista" e "a loucura do amor" de um Deus que vem ao nosso encontro mesmo em situações tão terríveis. Assim ela conta sua experiência: DEUS COMO BODE EXPIATÓRIO
"O que lembro daquela experiência dramática é o sofrimento por ter perdido pessoas queridas, uma dor profunda ao ver meu país mergulhado naquela espiral de violência, que foi o genocídio praticado pelos khmers, e uma sensação terrível de que o homem, que estava se julgando capaz de construir uma nova sociedade, estava saindo daquela experiência totalmente derrotado. Inicialmente, eu tinha sentimentos de raiva e revolta. Lutava para impedir que essa violência acabasse comigo e com meus filhos. Para não cair na loucura total, eu precisava de um bode expiatório no qual descarregar meu ódio e minha cólera. A esse bode expiatório eu dei o nome de "Deus dos ocidentais": não era o meu Deus, era o Deus dos outros, nem sabia bem quem ele era. Mas isso não tinha importância: eu queria só alguém para poder lançar na cara dele todo meu sofrimento e minha revolta. Através de meus estudos, eu sabia que a potência dele enchia céu e terra. Mas, naquele inferno dos campos de extermínio, o meu ódio também enchia céu e terra, portanto tínhamos um ponto em comum. Depois de tê-lo insultado por dezoito meses, esse Deus silencioso tornou-se o companheiro de minha miséria. Ele fez sentir sua presença, deu serenidade à minha revolta.
CONVERSÃO Hoje o "Deus dos ocidentais" tornou-se meu Deus, o Deus Pai que Jesus Cristo revelou à humanidade. Sem o Evangelho de Jesus, eu não poderia hoje contar minha experiência de vida em que Deus se revelou a mim como aquele que dá a paz mesmo nas circunstâncias mais terríveis. Conversão não é só ruptura com alguma coisa, mas realização de algo novo também. Eu tive que romper com uma mentalidade passada e, ao mesmo tempo, integrar aquela experiência terrível que estava vivendo com a nova visão da vida que me dava o Evangelho. O resultado foi uma sensação de harmonia e paz que me invadiu totalmente, sensação que só o Ressuscitado pode conceder. CONVERSÃO E MUDANÇAS Minha conversão produziu muitas mudanças em mim. Já não procuro, como antes, a perfeição. Aprendi a me aceitar como sou: uma mulher com suas fraquezas e suas capacidades. Essa aceitação se faz necessária para que possa me abrir ao Senhor. Hoje, aceito todas as alegrias diárias, sem temer a volta dos meus atos maus, como fazia no tempo do budismo. Enfrento as dificuldades com mais confiança: confiança na fidelidade desse Deus que não vai deixar que eu caia. Continuo, como antes, a fazer tudo para que o mal em mim não tenha a última palavra.
O silêncio me ajuda muito na oração: faz com que eu não transforme minhas orações numa longa lista de pedidos e que escute o que o Pai gostaria de me dizer. O medo das ilusões ajuda a me precaver contra a busca de emoções fortes e do sensacionalismo, comuns em muitas formas de religiosidade. Essa busca está muito na moda no Ocidente e pode afastar muito as pessoas do verdadeiro rosto de Cristo. Quanto ao pragmatismo, eu busco sempre analisar o impacto do Evangelho na minha vida. Não me interessa uma religião que se limita a dogmas, sem encarnação nas experiências da vida. Mas, o meu relacionamento com os cristãos ocidentais nem sempre foi fácil. Trata-se de um choque cultural. Uma expressão francesa fala de "quebra-cabeças chineses". Os católicos franceses, muitas vezes, se tornam para mim verdadeiros "quebra-cabeças chineses". Não entendo seu jeito de rezar que, às vezes, fica parecendo com uma espécie de barganha com Deus; não entendo uma religião que, muitas vezes, se torna uma demonstração intelectual, com ensinamentos autoritários que devem ser aceitos. Não entendo a aventura cristã reduzida a puro moralismo, tornado mais rígido ainda pela tradição. Não entendo por que o corpo deva ser vivido como uma realidade desprezível. Mas reconheço também que a Igreja da França está me acompanhando em minhas buscas há dezoito anos. Minhas críticas são as críticas de uma criança em relação à mãe, cheias de ternura. Sei que, sem a Igreja, nunca poderei crescer na fé. Gostaria que minha Igreja, apesar de seus vinte séculos, conservasse sempre o espírito de aventura de Jesus." Ele queria defender A BUSCA, AINDA QUE CONTRA A VONTADE
Como outros colegas, ele tinha ouvido falar do sermão da montanha, das bem-aventuranças, dos ensinamentos de Cristo sobre o amor aos inimigos, mas resolveu ir até as fontes. Assim ele narra o primeiro contato com Cristo: "Entrei num sebo e comprei um exemplar meio gasto do Novo Testamento. Comecei a ler o evangelho de São Mateus e me deparei com a descrição da genealogia de Cristo, com todos aqueles nomes para nós difíceis de pronunciar. Depois, encontrei a descrição de uma virgem que esperava um filho e de um anjo que aparece a José, dizendo-lhe que aceitasse Maria como esposa.
Tudo isso me pareceu como uma historinha piedosa e esquisita ao mesmo tempo. Quando, depois, descobri que uma estrela que apareceu do nada começou a orientar uma comitiva de peregrinos, achei que tudo isso não passava de um conto para crianças. Enfim, não era o que estava procurando". Mas o desejo de conhecer o cristianismo não abandona Ichiro. Já no fim do curso de Direito, reúne-se com um pequeno grupo de colegas para conhecer a Bíblia através de uma leitura de grupo. Junto com eles, havia algumas irmãs e um padre missionário estrangeiro. Se o desejo de conhecer Cristo aumentava em Ichiro, aumentava também o desejo de combatê-lo. Chegou um momento em que ele não agüentava mais a leitura dos milagres. "Cristo, pensava ele, deve ter sido certamente um grande líder religioso, mas não Deus certamente. Os milagres foram inventados pela Igreja primitiva para transformar o homem Jesus em Deus, mas não passam de contos populares." Nós pensaríamos que, chegado a esse ponto, Ichiro tivesse desistido, mas não foi assim. "Ele continua: "nasci no ano do javali. Esse animal é conhecido por lançar-se, de cabeça baixa, contra tudo o que encontra. Assim aconteceu comigo: resolvi mergulhar num estudo ainda mais aprofundado do catolicismo, pois tinha a convicção de que, através de termos como 'martírio' e 'missão', o povo tinha sido enganado durante dois mil anos." Assim ele começou a ler tudo que encontrava sobre Cristo, tanto os escritos a favor, como os contra. Terminado o curso de direito, inscreveu-se em Ciências Religiosas para aprender tudo que fosse possível sobre o cristianismo e poder defender um dia uma tese contra o Cristo, como ele é apresentado pelos católicos. A CONVERSÃO O quarto de Ichiro encheu-se de livros e ele passava os dias lendo e anotando, tentando enfim destruir o que pensava fosse o mito do Homem-Deus. Após dois anos e meio de pesquisas, a cristologia anticatólica do doutor Okimura estava pronta. A tese é apresentada aos professores para ser avaliada. Mas, no tempo entre a entrega e a defesa da tese, Ichiro sentia-se cansado e insatisfeito, desmotivado, como se não tivesse mais objetivos na vida. Cansado de tantos dias tristes e sem finalidade, lembrou-se do mestre Nakagawa Toen, no templo zen de Ryutakuji, que já tinha consultado em várias ocasiões, anos antes. Eis de novo o testemunho de Ichiro: "Nakagawa escutou-me em silêncio, com uma expressão que transmitia calor humano e paz. Quando terminei a descrição do que estava se passando comigo, ele com calma disse: 'Sinto que você alcançou a compreensão do cristianismo, mas tudo em você pára na inteligência. Para conseguir um conhecimento profundo, que envolva todo seu ser, você deveria receber o batismo'. Essas palavras serenas, pronunciadas calmamente, perturbaram-me profundamente. Nunca teria imaginado que um conselho como esse pudesse vir de um mestre zen". Todavia, Ichiro sentia que o mestre tinha razão. O cristianismo, embora sempre combatido, tinha penetrado tão profundamente em seu ser, a ponto de não poder mais ser negado e de não ser possível resistir. Sabia que para os catecúmenos estava previsto um curso de catequese em preparação ao batismo e para isso procurou a paróquia mais perto de sua residência. O pároco japonês o convidou a voltar na próxima quinta-feira, pela manhã. No dia marcado, Ichiro chegou, mas encontrou só um pequeno grupo de crianças brincando. Chegou o padre, reuniu todos numa pequena sala, rezou uma pequena oração e falou durante meia hora. Terminada a aula, saiu sem prestar atenção naquele grandalhão com ar de intelectual, misturado com as crianças. Ichiro ficou decepcionado, mas não perdeu a paciência. Durante a semana, a mesma cena se repetiu, sempre igual. Aos poucos, ele mesmo mudou e acabou tornando-se companheiro de brincadeiras das crianças. O BATISMO E O CONVENTO Em 12 de dezembro de 1948, Ichiro recebeu o batismo com o nome de Agostinho. A tese, que lhe custara tanto trabalho, já era sentida como um objeto estranho a ele mesmo. A respeito dela, comenta: "Esta tese já não representava os meus verdadeiros sentimentos". Não muito tempo depois, descobriu as obras de São João da Cruz e viu nelas muitas semelhanças com os ensinamentos zen. A espiritualidade carmelita o fascinava, e o conquistou, definitivamente, depois da leitura da biografia de santa Teresinha. Já derrotado por Deus, em todas as frentes, entrega-se totalmente a ele, pede para entrar no Carmelo e parte para a França, onde se prepara para a profissão religiosa e o sacerdócio. Ele tem a impressão que o olhar de mestre Nakagawa o acompanha e o anima mais uma vez, dizendo: "Vá, amigo meu, e não voltes para trás". Histórias que
têm sabor As três histórias fazem-nos lembrar três histórias de vocação que encontramos no Evangelho: a de Abdul nos lembra o chamado do jovem rico. Aos dois, Cristo exigiu que deixassem tudo para segui-lo. Abdul também teve que deixar tudo, terra, cultura e família, para poder ser cristão, mas diferentemente do jovem rico, deixou mesmo. Ichiro nos faz lembrar Paulo: os dois estavam querendo combater Cristo, e os dois o encontraram, cada um em sua caminhada para um determinado lugar que, nos Atos dos Apóstolos, é chamado Damasco. Claire nos lembra o bom ladrão: nas situações mais terríveis, os dois encontram Cristo, contra o qual tinham acabado de lançar os seus insultos. O Evangelho não aconteceu só uma vez. Repete-se hoje também em nossa vida. As três histórias foram
adaptadas |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]