Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
|
Pe. PAULO MANNA, missionário de vanguarda
A missão foi a chama que devorou toda sua vida. Na Birmânia, na imprensa, na direção de seu Instituto,
o P.I.M.E., Isso o levou à santidade, que será reconhecida com sua beatificação no dia 4 de novembro.
Uma vida pela missão Vito del Prete Pe. Manna viveu com esta única convicção: o Reino de Deus deve ser anunciado a toda a humanidade. Esta é a única coisa necessária. Por isso, colocou-se sem reservas a serviço do Evangelho. Para ele, uma verdade fundamental não pode ser posta em discussão: a salvação da humanidade concretiza-se através da pregação e da aceitação do Evangelho de Jesus Cristo. É necessário que Jesus Cristo reine nesta terra como no céu; que seja conhecido, amado, servido por todos os homens e não, como agora acontece, somente por alguns privilegiados. Mas poderíamos nos perguntar: por que ele se preocupava tanto com isso? Ele mesmo responde: O assunto missão foi a paixão de toda a minha vida. Durante trinta e cinco anos não estudei, não me preocupei com outra coisa.. Ele admirava a obra das missões, mas queria que se fizesse mais, mudando até o método de evangelização, para que se tornasse fácil para todas as pessoas o ingresso no Reino de Nosso Senhor, que é a única luz, a única salvação de todo homem que vem ao mundo. Um missionário fracassado Quando teve que renunciar à missão por motivos de saúde e ficar na Itália, sentiu-se um missionário fracassado. mas não desanimou: sinto-me todo e somente missionário. Não tenho outros interesses, outras atividades. Qual é a nossa tradição de espírito apostólico? É a de ser essencial e exclusivamente missionários: missionários no sentido mais verdadeiro, mais alto e completo da palavra. Quem entra no Pime deve saber que o Instituto não tem outra finalidade a não ser a missão entre os infiéis e que nós somos todos e somente missionários. Não vamos por um determinado número de anos, mas por toda a vida, somente para nos sacrificar, trabalhar e morrer pelo amor de Jesus e das almas; não vamos para a nossa afirmação pessoal ou para nos implantar como instituto, mas somente com o desejo de servir a Deus e à Igreja, com absoluto desprendimento.
O card. Paolo Marella, na apresentação do livro: Padre Paolo Manna, ontem e hoje, disse: Não tinha ares de intelectual e menos ainda de missiólogo. Era simplesmente um missionário do campo, a quem a doença tinha impossibilitado de continuar seu ministério na Birmânia. Apesar disso, era inflamado pela paixão de pôr-se a serviço dos missionários, de dedicar-se inteiramente à propagação da Fé. Ele sabia que não era um intelectual, menos ainda um doutor na teoria da missão, mas era um profeta, especialmente um profeta. Observava tudo e refletia profundamente sobre tudo que dizia respeito à missão, fazendo de Evangelho seu principal ponto de referência. O missionário deve se revestir do espírito de Cristo Para pe. Manna, o zelo apostólico, sem o qual não somos nada como missionários, existe somente num coração inflamado pelo amor de Deus. Isto somente é possível através do contato vivo com Deus, que o missionário consegue estabelecer através da oração e da contemplação. Ele é um homem que baseia o sucesso de sua vida e de sua ação apostólica na intensidade de sua vida interior. O missionário deve possuir o espírito de Cristo, revestido de suas virtudes, penetrado pelos seus sentimentos, animado por seu zelo, devorado por seu amor; deve ser um homem de altíssima perfeição evangélica, não inferior aquela que esperamos de um monge. O missionário deve ser aquele que representa, de maneira visível, a pessoa de Cristo. É de Cristo, primeiro evangelizador, que ele tira não somente a força, como também a própria estrutura de sua vida pessoal e de sua ação apostólica. Obediência ao Pai, a cujo serviço se coloca, até o ponto de pôr sua vida à disposição do Reino, até o completo sacrifício dele mesmo. O crucifixo nos fez missionários e é o crucifixo que deve alimentar em nós o amor para com os irmãos. Missionário, ele dizia, é o que de mais alto, heróico e perfeito existe no seguimento de Nosso Senhor. Missionário: ação ou contemplação?
Ele não aceita a objeção que alguns fazem de que missionário deve ser um homem de vida ativa... Não, o missionário é um homem de apostolado, que é a vida completa e verdadeiramente perfeita, porque é a vida que na terra viveu o Filho de Deu. Vida puramente ativa não existe. O missionário é Maria na contemplação e Marta na ação. Se deixarmos o contato com o Deus vivo, se não nos pusermos na escola de Cristo, toda ação apostólica torna-se um mero desperdício de energias. Mediante a vida interior, fazemos com que Pentecostes volte sobre cada
um de nós.
Pe. Manna via as obras, as realizações humanas e o dinheiro por meio do qual as obras se realizam mais como obstáculos do que como uma vantagem para o missionário. Ele citava o que muitos diziam: O que nós poderíamos fazer se tivéssemos mais dinheiro!, mas acrescentava que, apoiado nas muletas do dinheiro, ninguém irá multo longe. Pode ser que através desses meios humanos se realize algum progresso, mas não será nem verdadeiro nem duradouro. O missionário, apoiado no dinheiro, poderá até fundar novas comunidades e obter conversões, mas tudo isso tenderá a acabar, quando acabarem as ajudas e os recursos materiais. O missionário, para Manna, sem uma sólida e profunda fé, não existe e, se existir, não será o verdadeiro missionário de Cristo. O missionário: líder e santo O missionário deve ser e viver pobre, deve ser livre de todos os afetos que possam diminuir sua liberdade apostólica; deve reproduzir em si e em sua ação o amor e a humanidade de Cristo, deixando rastros de bem em qualquer lugar por onde passar; deve ser obediente ao projeto de Cristo, que se concretiza na ação da Igreja que é comunhão. Do missionário exige-se a máxima perfeição evangélica. Em poucas palavras, para pe. Manna, o missionário deve ser um santo. Não admira que, depois da viagem que fez às missões, nos anos trinta, tenha acabado por descrever assim a imagem do missionário: Não nos servem padres medíocres: precisamos de homens superiores, dotados do espírito de Deus, capazes de fundar, organizar novas comunidades e igrejas, capazes também de sofrer; não simples soldados rasos, mas líderes; não mercenários ou amadores, mas verdadeiros pastores no sentido mais sublime da palavra, que saibam dar Jesus Cristo às pessoas a partir dos tesouros de graça e virtudes que existem neles. Estes são alguns dos trechos mais significativos da espiritualidade que pe. Manna vivia e ensinava aos missionários. Representam os valores perenes que em qualquer tempo são exigidos ao apóstolo, ontem como hoje. Uma revolução na missão Ângelo Lazzarotto
Uma só coisa deve importar, uma só coisa devemos sempre almejar: ganhar almas para Jesus Cristo. Todo o resto nas missões deve ser simplesmente considerado como meio. Pe. Manna escrevia estas palavras em 1929, apresentando as conclusões às quais tinha chegado, por ocasião de uma viagem ao redor do mundo (na qual) visitei muitas missões do meu e de outros institutos. As observações sobre o método moderno de evangelização que ele decidiu escrever, depois de muita reflexão e oração, constituem talvez o mais genial e corajoso dos escritos de Paulo Manna, mas não eram destinadas à publicação. Ele fez cópias do manuscrito e enviou-as a algumas altas autoridades da Igreja, na esperança de ver enfim abrir-se uma decidida renovação dos métodos missionários. Mas estava consciente de que se tratava de uma verdadeira revolução e não se iludia. De fato, aquelas páginas de fogo ficaram sepultadas em algumas gavetas por meio século e foram publicadas somente no final dos anos setenta. Mudanças históricas A longa viagem através da Índia, Bengala, Birmânia, Hong Kong, Japão, China, com retorno através dos Estados Unidos, aconteceu entre o fim do ano de 1927 e o início de 1929. Situa-se na metade do decênio de pe. Manna como superior geral do Pime e marca uma drástica e profunda evolução no seu pensamento missionário. Ele certamente não ignorava antes as realidades do mundo asiático, mas aquela experiência prolongada fez com que encontrasse situações de porte excepcional e em rápida evolução. Também a possibilidade de se confrontar com personalidades de primeiro plano permitiu-lhe amadurecer suas convicções sobre as prioridades que deviam ser dadas na obra da evangelização. Teve a impressão de que o centro propulsor da atividade missionária, a Congregação de Propaganda Fide, era pouco incisivo e distante das missões. Constatou quanto anacrônicas e prejudiciais eram as proibições, ainda vigentes, conseqüência da infeliz questão dos ritos, de dois séculos antes: os católicos não podiam participar de cerimônias civis e de ritos em favor dos antepassados, julgados superstições.
Os meses que pe. Paulo Manna passou na China foram teatro de acontecimentos cruciais: Chiang Kai-shek e Mao-Tsé-tung venciam os senhores feudais e abriam a China para mudanças radicais, incluindo o fim dos Tratados, através dos quais as potências ocidentais dominavam a política e o comércio do país. Propaganda Fide Frente a esta realidade explosiva, pe. Manna procura entender o que a China hoje exigiria e responde que o trabalho de Propaganda Fide foi grande, mas não basta. E continua: No momento atual no qual o antigo cai e se prepara um novo futuro, há outra coisa a fazer e mais. Hoje, na China, são derrubados os ídolos: o que há para colocar no seu lugar? Quando caíram os ídolos em Roma, entrou a Cruz; mas na China?. Em primeiro lugar, ele projeta uma reforma radical de Propaganda Fide, longe demais das missões e demais italiana e por isso pequena demais. Para isso, será necessário descentrar, criando sucursais nos vários países (sempre em dependência do organismo central), que possam entender a situação local e promover a coordenação e a unidade entre as dioceses. Aqui aparece uma idéia de colegialidade episcopal, que confere um rosto específico à Igreja em cada país. Ocidentalismo O aspecto que pe. Manna no seu escrito enfrenta com mais profundidade critica é o ocidentalismo. Ele faz uma pergunta muito questionadora: É verdade que a civilização levada pelos povos ocidentais com suas colônias, com sua invasão dos países infiéis prepara o caminho a Cristo?. E responde:
Eu vejo na civilização levada pelos ocidentais um grande obstáculo à penetração da nossa fé nos grandes povos infiéis, especialmente naqueles que se gloriam de uma própria civilização. A dificuldade é dupla: pelo mau exemplo que os ocidentais dão aos outros povos: o missionário não está em boa companhia com o soldado, com o colonizador; e pela veste ocidental com a qual o cristianismo se apresenta. Como remédio, ele propõe com clareza e força a inculturação, numa época na qual esta palavra ainda não havia sido criada: Todos sabemos que o cristianismo, nascido na Ásia, desenvolveu-se no mundo greco-romano. Agora, eu afirmo que esta forma externa do cristianismo, como foi greco-romana na Europa, assim deve ser chinês na China, indiana na Índia, etc. Confúcio e Buda podem dar à filosofia cristã tanto e mais do que deram Platão e Aristóteles... Os povo orientais são profundamente religiosos. Além disso, eles têm um patrimônio muito antigo de história e de civilização, que merece respeito e que não pode ser destruído pela propaganda religiosa de poucos missionários estrangeiros, que o ignoram e o desprezam. Religião e política Sobre a mescla entre fé e política no regime colonial da época, pe. Manna tem expressões de fogo: É esta maldita política que explica por que em certos países não é possível criar Igrejas indígenas. Os politiqueiros deste mundo sabem ser lógicos e espertos. Concedem também favores às missões, pelos quais nos apressamos a ser muito gratos; mas quantas vezes seu preço é a liberdade de nosso apostolado, a traição das almas!. Ele chega até à conclusão de que o verdadeiro motivo de muitas perseguições contra a Igreja na Ásia não foi a intolerância religiosa, e sim a cumplicidade das missões com a exploração política e econômica do imperialismo do Ocidente.
A solução será voltar a ser como os Apóstolos, nos esquecer de nossa pátria, de nossos costumes, de nossos direitos e ter presentes só os direitos de Deus e das almas. Só assim os povos vão nos escutar. Clero local
A parte mais ampla das Observações é dedicada à questão do clero indígena, elemento crucial, para pe. Manna, para a fundação de uma Igreja efetivamente local. Ele denuncia a formação ocidental dada aos seminaristas nas missões: escolhem-se só meninos muito jovens, que são fechados em seminários e, quando saem, o que sabem esses sacerdotes, formados à européia, da sabedoria de seus países, Índia, China, Japão, etc.? Eles ficam sendo quase estrangeiros no seu próprio país: esqueceram de ser indianos, chineses, japoneses e, educados à européia, não se tornaram europeus. Seria muito mais frutuoso escolher pessoas maduras, por exemplo, zelosos catequistas, que teriam uma eficácia bem maior de penetração, sabedoria e liberdade de movimento que tantos pequenos padres, muitas vezes cheios de exigências e não mais aptos a viver a vida de seus concidadãos. Demos a cada povo seu clero. A europeus padres europeus, a chineses padres chineses, a indianos padres indianos: é de novo a aplicação da inculturação. Por isso, os estudos deverão ser adaptados à cultura local, sem o impedimento do latim e apresentando a fé cristã nos seus elementos essenciais, despindo-a das vestes da teologia ocidental. Para conseguir aquele objetivo, pe.Manna chega a propor que não se imponha o celibato ao clero local das terras de missão, pelo menos naquele tempo. Ele acha que depois entraria naturalmente com a difusão e a consolidação da fé. As Observações de pe.Manna não foram levadas em consideração pelos destinatários. O Concílio Vaticano II, quase cinqüenta anos depois, iniciou o novo curso da missão, sonhado por pe.Manna. Embora, na prática, muitas das suas propostas ainda não foram realizadas. Sacerdotes para o mundo Giovanni Colzani
O clero católico não pode ficar estranho à obra de conversão do mundo. O assunto lhe concerne absolutamente de perto e nenhum padre o pode ignorar ou desinteressar-se. Esta convicção levou pe. Manna a fundar, em 1917, a União Missionária do Clero, com a ajuda do bispo dom Guido Maria Conforti, seu grande amigo e fundador do Instituto dos Missionários Xaverianos. Foi este que apresentou o projeto ao papa Bento XV e que recebeu a comunicação da aprovação oficial por parte da Santa Sé. A clarividência de pe. Manna e de dom Conforti levou-os a ultrapassar o limite dos próprios institutos, para se colocarem na dimensão da Igreja missionária universal: não queriam procurar vocações para si, mas tornar missionária toda a Igreja. A intuição de pe.Manna foi perceber o papel insubstituível dos sacerdotes em função do anúncio do Evangelho, da educação da consciência do povo de Deus e do despertar das vocações.
Ele sentiu que só uma reforma global, cultural e espiritual teria sido capaz de favorecer o caráter apostólico do ministério sacerdotal. Seu sonho era uma pastoral na qual os pastores das almas inculcassem a necessidade de uma ampla participação do povo cristão nas obras do apostolado missionário. O ponto de partida era o idéia teológica de
que os sacerdotes foram criados exatamente em vista da missão, porque a primeira e fundamental função da Igreja é a evangelização do mundo, de todo o mundo. Meio século depois, o Concílio Vaticano II iria confirmar, com sua autoridade, que o dom espiritual, recebido pelos presbíteros na ordenação, não os prepara para uma missão limitada, mas sim para uma missão imensa e universal de salvação até os confins da terra (PO 10). A União Missionária do Clero (Obra Pontifícia a partir de 1956, agora com o nome de Pontifícia União Missionária) guarda ainda toda sua atualidade, mas, infelizmente, não conseguiu expressar sua potencialidade. A maioria dos sacerdotes resiste a enxergar e realizar sua missão na dimensão universal apontada por pe. Manna.
Unidos para evangelizar Ângelo Rusconi O ecumenismo tem uma importância superior à própria propagação da fé entre os não-cristãos, porque esta não será plena e total sem a união dos cristãos, assim pe. Paulo Manna escrevia no livro Os irmãos separados e nós, de 1941. A obra abre-se com a oração pela unidade de Jesus, no evangelho de João, comentada por ele: não é só o supremo desejo de um Coração infinitamente amante, mas um comando para todos aqueles que crêem nele.
Todo o seu discurso sobre o ecumenismo é desenvolvido na ótica da evangelização; a convicção de sua urgência nascia da experiência sofrida: Os missionários cristãos na Índia, na China, no Japão cometeram um erro fatal, procurando converter uns à Igreja anglicana, outros à presbiteriana ou à luterana. Eles esqueceram que estas diferentes formas de cristianismo nasceram sob o impulso de circunstâncias particulares e locais. É por esta razão que fracassam miseravelmente.
Não sabem apresentar o espírito do cristianismo. Cita o que lhe confiara um chinês: Os missionários vieram nos dizendo que tínhamos deuses demais e depois apresentaram mais de 160 credos cristãos diferentes!. A partir destas constatações, pe. Manna lança-se com seu ardor característico, num tempo em que a dimensão ecumênica ainda não fazia parte da consciência e da prática dos católicos: As divisões são o mal maior da cristandade, o verdadeiro mal do mundo. É por elas que os povos cristãos perderam o caminho da paz e aos não-cristãos nossa religião aparece sem força demonstrativa.
Como sempre, a proposta de solução de pe. Manna coloca-se prioritariamente no nível da espiritualidade: No fundo de toda divisão parece que haja a doutrina, mas muitas vezes a doutrina é só um pretexto: ao contrário, há sempre soberba e pecado. A união viria automaticamente quando formos mais cristãos; porque a Igreja de Cristo não é um organismo jurídico bem combinado que, caído em desordem, se possa arrumar através de mútuas concessões e ajustes. |
|||||||||||||||||||||
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]