Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
por Giorgio Paleari
Os japoneses possuem algo que nenhum país cristão me parece ter: eles estimam mais a honra que as riquezas. São pessoas corteses umas com as outras. Uma parte considerável do povo sabe ler e escrever, o que é uma forma poderosa de aprenderem rapidamente as orações e as coisas de Deus". O que impressiona mais, no entanto, é a religiosidade japo-nesa, particularmente, indecifrável. Os monges budistas parecem-lhe estranhos, assim como seu comportamento. Além disso, Francisco vê que o universo religioso dos japoneses não comporta a noção de Criador, de criação, de uma lei religiosa e, menos ainda, de pecado. Com sua equipe tenta estudar o japonês, mas incorreu em alguns erros de tradução e interpretação. A tradução, por exemplo, do termo Deus por Dainichi, não é correta porque Dainichi, segundo os japoneses, é cada coisa e o mundo inteiro ao mesmo tempo. Não tem valor de um ser pessoal. Mais complexa ainda é a visão de Francisco a respeito da vida após a morte: somente os batizados podem alcançar a salvação. Assim, defuntos japoneses, tão venerados pelos "pagãos", estariam todos no inferno, uma realidade permanente. A única alternativa era fazer parte da Igreja, único caminho para alcançar o céu. Esta visão chocava-se com o retorno dos espíritos para se purificarem. Francisco escreve: "É uma desolação para os cristãos do Japão, quando dizemos que o inferno é sem remédio para aqueles que lá vão. (...) Muitos choram os mortos e perguntam-me se estes podem ser beneficiados por meio de esmolas e preces. Eu, no entanto, digo-lhes que não há remédio para eles. Sentem-se desolados, o que não me desagrada: dessa forma, não serão negligentes e não irão danar-se como seus ancestrais". O impacto com a cultura e as religiões dos japoneses continua a desafiar o missionário Francisco. De um lado, sente-se atraído e desafiado e, do outro, deve usar todas as argumentações para derrubar princípios que estão em contradição com o cristianismo. A abundância de seitas budistas desconcerta Francisco. Todas elas apresentam-se como caminhos normais de salvação e assim são consideradas pelos japoneses. A especificidade cristã é de um Deus que cuida do seu povo. A salvação não pode ser oferecida através de tantos caminhos. Tudo isso preocupava Francisco que, nem sempre, entendia exatamente o que os japoneses explicavam. A dificuldade da língua tornava-se um limite insustentável, mesmo com o auxílio dos intérpretes. O sonho de Francisco, porém, continuava sendo a China. Sabendo que os japoneses herdaram a escrita dos chineses e que o grande império chinês era mais monolítico e coeso, pensava que "convertendo o imperador da China", poderia converter boa parte do gênero humano. Francisco escreve: "A China é um país muito vasto, pacífico e governado por grandes leis. Há um só rei que é realmente obedecido. (...) Tenho a grande esperança de que tanto os chineses quanto os japoneses sairão de sua idolatria e adorarão a Deus e a Jesus Cristo, o Salvador de todos". Francisco tentará de tudo para ir à China, aventurando-se, sempre mais, por caminhos não traçados. O que sustenta seu empreendimento é a paixão por Jesus Cristo, o desejo de salvar almas. em 1552, no mês de maio, embarca para a China. Chega à pequena ilha de Sancian (ou Shangchuan), esperando entrar na corte do imperador. A saúde começa a deteriorar-se. Exausto, Francisco morre em 3 de dezembro de 1552. O corpo é enterrado em uma das praias da ilha. Foi beatificado pelo papa Paulo V, em 25 de outubro de 1619, e canonizado por Gregório XV, em 12 de março de 1622. |
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