Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Cruzando as fronteiras

Giorgio Paleari

A missão é quase sempre associada à palavra "fronteira". A fronteira é, antes de tudo, o lugar em que se dão as batalhas mais decisivas e, também, o horizonte para o qual nos dirigimos e movimentamos, deixando atrás as posições conquistadas.
O missionário - como "pessoa de fronteira" e "pessoa que cruza fronteiras" - necessita deslocar-se constantemente. Não é possível parar num lugar e amarrar-se em algo conquistado. É necessário ir sempre além. Não se pode também ficar aprisionado na segurança das instituições. É necessário deslocar-se para a margem cultural e social. Missão é encontro de pessoas no caminho e não na segurança de uma casa. É ir ao encontro e não esperar que alguém apareça.
Há sempre um risco no fato de deslocar-se para a fronteira. A insegurança acompanha o caminho e as certezas vão assumindo contornos indefinidos. O ponto de vista muda no mesmo processo de percorrer o caminho.
Desde o começo, o movimento missionário esteve marcado pelo caminho nas fronteiras. Jesus não se fixou no centro, mas percorreu a Palestina a partir das fronteiras humanas e geográficas. Transgrediu os códigos da pureza ritual judaica a associou-se àqueles que estavam legalmente excluídos da salvação. Os apóstolos, desde que foram enviados por Jesus, dispersaram-se através das fronteiras rurais e urbanas do império romano e mais longe ainda. A exemplo do mestre, não queriam ser encapsulados nos confins do estabelecido. A missão, por princípio, é movimento e deslocamento para as fronteiras. O fato de fixar-se num determinado lugar significa deixar a missão morrer. A institucionalização excessiva é o túmulo da missão. Quando tudo se apresenta seguro e definido, a missão se eclipsa e desaparece. Tudo se fixa na estagnação do repetitivo e da monotonia. Somente quem está morto não se movimenta mais. É só na perspectiva da fronteira que a missão renasce e se dinamiza.
Às vezes, não é suficiente ir para a fronteira: é necessário cruzar as fronteiras. Houve um tempo em se passavam somente as fronteiras geográficas, hoje cruza-se qualquer tipo de fronteira, envolvendo novos desafios e oportunidades.
É próprio da missão cruzar as fronteiras e o missionário é um transgressor dos limites. Para Jesus, tratava-se de transgredir os limites impostos pela religião e pela cultura judaica; para os apóstolos, os estreitos limites do judaísmo. Mais tarde, os limites vão se caracterizar como fronteiras da exclusão, das culturas e dos povos.
O importante, neste caminho para as fronteiras, é, no entanto, o sentido de pertença a uma comunidade que, seguindo a ordem de Cristo, desloca-se e se torna, toda ela, missionária. O caminho solitário e individual para as fronteiras atemoriza e traz insegurança. O mesmo caminho, feito em mutirão, faz com que o sonho do Reino de Deus se torne possível e real. Um sonho individual pode ser ilusão, um sonho em conjunto torna-se realidade.

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