Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Cleusa Carolina Rody Coelho

Mártir da causa indígena

Giorgio Paleari

"Agora, quem vai cuidar de nós? Era a nossa mãe”. É a expressão dita por um índio apurinã, no enterro de irmã Cleusa. No dia 28 de abril de 1985, ela fora assassinada às margens do rio Paciá, na Prelazia de Lábrea – AM. Mártir da fé e da causa indígena, deu a vida pelos pobres e excluídos.

Frei Jesus Moraza conta como, no dia 3 de maio de 1985, encontrou o corpo de Cleusa: “Empurramos a canoa até a beira e os rapazes a colocaram no seco. Nesse momento, os meus acompanhantes alertaram-me sobre os urubus sobrevoando nas proximidades, pelo que saí da lancha e penetrei na mata, em direção aos urubus. Aproximadamente a uns 50 metros da lancha, localizei o corpo, parcialmente submerso, de bruços, totalmente despido, mostrando-se fora da água parte do crânio sem cabelos, as costa e as pernas... Meus acompanhantes, temerosos, insistiram que voltássemos atrás de maiores recursos”.

No pequeno opúsculo que a Congregação de Cleusa elaborou (1991), está relatado o seguinte: “Os exames médicos realizados no hospital revelaram a brutalidade com que tinha sido assassinada: muitas costelas quebradas, o crânio fraturado, o braço direito parcialmente separado do corpo, por instrumento cortante (talvez um terçado); havia fratura na coluna vertebral; pedaços de chumbo no tórax
e, especialmente, na região lombar, indicavam que tinha levado um tiro de espingarda. A sua mão direita não foi encontrada” (p.19-20).

Cleusa nasceu aos 12 de novembro de 1933, em Cachoeiro de Itapemirim, Estado do Espírito Santo. Quando terminou o curso normal, deixando um futuro promissor, decidiu ingressar na vida religiosa, na Congregação das Irmãs Missionárias Agostinianas Recoletas. Há alguns aspectos que dão a envergadura do compromisso e da vida da missionária. O caminho do martírio não aconteceu por acaso, mas foi a coroação de um itinerário de doação a Jesus Cristo e ao seu Reino, na trilha dos mais pobres.


“Comprometer-se com o Índio, o mais pobre, desprezado e explorado, é assumir firme a sua caminhada, confiante num futuro certo e que já se vai tornando presente, nas pequenas lutas e vitórias... Vale arriscar-se!”

Esse percurso influiu profundamente na visão de mundo e no horizonte de Cleusa. O tempo passado em Lábrea (AM), em vários momentos da existência, aproximou a missionária do mundo indígena (foi também coordenadora regional do Conselho Indigenista Missionário), dos menores, dos presidiários e dos pobres. Numa carta à delegada geral do Brasil, Cleusa escreveu: “Cristo é o ofendido, o marginalizado perseguido na pessoa do Menor, novamente exposto à fome e a outros danos piores. Temos de construir Fraternidade, é necessário, mas a justiça tem de estar na base de toda convivência humana”.

No período da celebração dos 25 anos de vida religiosa, em 1978, Cleusa não quis nenhuma festa e escreveu: “Você sabe que sou pobre por opção e que me sinto feliz em viver como tal. São orações, sim, que nos fazem falta, para um seguimento mais radical ao Senhor”.

O seguimento mais radical ao Senhor incluía uma intimidade exclusiva com Jesus e uma doação extrema aos irmãos pobres. “Nos momentos de folga encontrava tempo para ir à capela, onde, no silêncio, contemplava o seu Deus Eucarístico, que lhe deu forças para viver sua fé e de quem aprendeu as lições de amor e doação aos irmãos. A vida doada aos indígenas levou-a a prestar solidariedade ao tuxaua Agostinho, quando Raimundo Podivem e Edvar mataram a esposa e o filho dele. Não se importou com o perigo. Era lá, com os indígenas, que Jesus a chamava. Durante a viagem, os dois assassinos mataram o corpo de Cleusa. Ela está viva para sempre e é venerada no meio dos povos indígenas. Ainda ressoam as palavras do Evangelho: “Bem aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus (Mt 5,10)” e, também: “Tudo o que fizerdes a um destes pequeninos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40)”.

No dia 2 de maio de 1991, na Catedral de Vitória, ES, foi aberto o processo de beatificação de irmã Cleusa, mártir dos povos indígenas.

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