Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

CLAUSURA - Às raízes da missão

Há quem os defina "pessoas inúteis", "fora do mundo", "vidas desperdiçadas". São os homens e as mulheres que escolheram viver em mosteiros, retirados da sociedade, dedicando-se à oração e ao trabalho. Poucos os conhecem, também dentro da Igreja. Parecem afastados dos campos da missão, onde o Evangelho é desafiado.
Apresentamos três experiências concretas de comunidades monástica femininas e a de um missionário do P.I.M.E., cuja vida missionária é entrelaçada com a de "irmãs" contemplativas.
Leiam e tirem as conclusões.

Aventura Africana

Testemunho recolhido por Giampiero Sandionigi

Nossa aventura na África começou em 1987, mas, olhando para trás, nos damos conta de que é fruto de toda uma história anterior. O mosteiro das clarissas de Chiavari, perto de Gênova, no norte da Itália, do qual vimos, tinha ficado, nos anos setenta, só com quatro ou cinco irmãs idosas e pensava-se em fechá-lo. O bispo, porém, não quis e, com o reforço de quatro monjas de outra fraternidade, em poucos anos, a comunidade refloresceu com o ingresso de muitas jovens. Agora, o mosteiro passou para a cidade de Leivi.

A África chama

Em Bouar, na República Centro-africana, havia uma presença de clarissas francesas desde 1961, mas, depois de quase vinte anos, ainda não tinham vocações locais. Através dos capuchinhos italianos, missionários em Bouar, elas nos pediram de ajudá-las. Outros pedidos já tinham chegado da África anteriormente, porém, sempre respondemos negativamente, porque a comunidade era constituída quase toda por jovens ainda em formação. Desta vez, porém, a madre não fechou a porta. Por uma moção do Espírito, comunicou a demanda à fraternidade, pedindo-nos de rezar, para podermos entender se era realmente um projeto do Senhor.

A proposta gerou maravilha e tremor, porém, não sufocamos a semente e ficamos abertas ao Espírito. Por alguns meses, aquela semente ficou escondida nos corações, guardada com muita oração. De vez em quando, emergia na reflexão e no diálogo, depois tudo voltava ao silêncio. De um lado, alimentávamos em nós a maravilha e o desejo de aderir, do outro, tínhamos a consciência de quanto isso fosse desmedido e nos superasse.

Um dia, a madre nos pediu de lhe comunicar, sem falar às outras irmãs, as eventuais disponibilidades para partir, amadurecidas nos nossos corações.

Naquele período, estávamos particularmente atentas para perceber, nos acontecimentos, sinais que nos podiam orientar na escolha daquele projeto. Houve vários. Um deles aconteceu na sexta-feira santa de 1988. Durante a quaresma, a madre tinha-nos pedido de rezar e guardar aquela intenção. Ao meio dia da Sexta-Feira Santa chegou um telefonema das irmãs da República Centro-africana, o primeiro que recebíamos diretamente delas, renovando o convite. Todas nós sentimos nesse apelo o grito de Jesus: "Tenho sede!".

Alguns meses depois, três irmãs foram por 15 dias a Bouar, para estudar o projeto; a comunidade acompanhou-as com muita oração. Quando elas voltaram, percebemos que o Senhor tinha deixado uma marca no seu coração.

A saída

Em outubro de 1988, a comunidade decidiu dizer sim. A madre comunicara que tinha recebido a disponibilidade de oito irmãs. No fim de dezembro, foram escolhidas cinco.

Em maio do ano seguinte, partiram. Em Bouar, encontraram três irmãs francesas, que tinham ficado para facilitar nossa inserção. Passaram-nos sua experiência e ofereceram-nos um grande testemunho: deixavam a África no momento em que começavam a surgir as primeiras vocações.

As irmãs francesas eram um ponto de referência para os cristãos e nós continuamos. Todos os dias, damos comida aos pobres que nos visitam. À medida que aprendemos a língua local, estamos proporcionando também cursos de catequese. Uma das realidades mais lindas é a fraternidade com os sacerdotes e alguns leigos que se associam regularmente à nossa oração coral.

A vida na África reforçou sob certa medida nossa vocação de filhas de Santa Clara, porque nos impôs uma essencialidade e simplicidade muito grandes. A situação de insegurança, também política e social, impulsiona com força a escolher só o Senhor e as irmãs, isto é, as duas dimensões fundamentais de nossa vida.

Para uma jovem africana é mais fácil entrar num instituto de vida ativa do que contemplativa e claustral. Porém, experimentamos que a chamada do Senhor, quando existe, suscita a mesma capacidade de acolhida que na Itália, por exemplo. Não partimos com a idéia de fazer propaganda vocacional, mas as vocações vieram igualmente, enviadas pelo Senhor.

Inculturação

Quando chegamos, muitos nos disseram que não poderíamos viver a clausura como na Itália. Porém, encontrando as primeiras jovens, compreendemos que não se tratava de viver entre a vida ativa e a contemplativa, mas de propor simplesmente nossa forma de vida. As jovens que contatamos e que atualmente vivem conosco manifestaram a intenção de seguir o Senhor assim.

A família na África tem um grande peso: as mulheres devem fazer o que a família diz. Por isso, o tempo de formação é mais longo. Quando uma jovem decide entrar no mosteiro, escrevemos uma carta aos pais, na qual explicamos, em pormenores, as regras de vida que a filha escolheu. Além disso, pedimos que assinem uma declaração em que aprovam ou, pelo menos, afirmam conhecer aquilo que comunicamos na carta. Até hoje, não tivemos grandes dificuldades com as famílias, mas poderia acontecer que um ou outro pai venha retomar sua filha.

Com as jovens que ingressaram na fraternidade, estamos no início de uma caminhada, ao longo da qual queremos entender como encarnar, eventualmente de maneira diferente, nosso carisma, na busca de formas que o tornem eloqüente para o povo africano. Na liturgia, utilizamos ainda o harmônio, acompanhado pelos atabaques, sem outros instrumentos, por enquanto. Introduzimos também a dança que, porém, assume formas diferentes das utilizadas no dia-a-dia.

A partida de algumas irmãs para a África marcou muito também a comunidade de origem, em primeiro lugar no que se refere à caminhada de fé no Senhor. Há maior elasticidade e disponibilidade à obra do Espírito. As monjas tomaram consciência de que o Senhor intervém quando e como quer. A comunidade inteira foi colocada em atitude de vigilância, de "eis-me aqui!", para que, no caso de emergência ou de necessidade, estejamos prontas a ajudar as irmãs na África.

A partida de cinco irmãs jovens nos fez recuperar o espírito franciscano. Havia forças suficientes para cuidar das irmãs idosas e para organizar trabalhos que nos garantissem a auto-suficiência econômica. Agora, voltamos a viver da Providência e a aprofundar os valores da insegurança, da precariedade, do abandono ao Espírito, essenciais para aqueles que seguem os passos de Francisco e Clara.

No sul das Filipinas

Giorgio Licini

O mosteiro trapista (ou cisterciense da estreita observância) de Vitorchiano (perto de Roma) na segunda metade de 1900, recebeu muitas vocações de jovens de diferentes países e com as mais variadas experiências eclesiais. Ao ponto de que, a partir de 1968, a comunidade pôde realizar seis fundações no mundo todo: uma na Itália, três na América Latina, uma na Indonésia e a última nas Filipinas.

Comunidade internacional

Para Matutum, na ilha de Mindanao, no sul das Filipinas, em 1995, foram dez de Vitorchiano (sete italianas, uma alemã, uma portuguesa e uma filipina), convidadas pelo ramo trapista masculino que já tinha um mosteiro nas Filipinas centrais. Atualmente, às dez primeiras uniram-se cinco jovens locais.

"Nós somos cistercienses - frisam as monjas -. Um elemento básico de nosso carisma é a vida comum, a partilha de tudo: da oração ao trabalho, porque nos fundamentamos na regra de são Bento. Naquilo que se refere ao trabalho, o mosteiro ainda não é auto-suficiente: encontramos dificuldades em comercializar nossos produtos artesanais e também o campo rende pouco, mas queremos nos sustentar sozinhas". Para elas, uma vida comunitária fervorosa e alegre é o primeiro sinal do testemunho missionário de uma comunidade trapista em Mindanao: a vida comum e a partilha de tudo são o ideal e o objetivo de toda a Igreja, em todo tempo e lugar.

O mosteiro de Matutum, evidentemente, ainda está no início de sua inserção na Igreja e na sociedade de Mindanao. Na cidade vizinha de Pomolok, o mosteiro é conhecido simplesmente como "a missão". Porém, o livro dos hóspedes indica mais de 300 passagens no último ano: muitos deles para reflexão e oração. "Há outros - comenta uma irmã - que vêm aqui somente por-que procuram um lugar acolhedor e equipado. Têm outros programas e atividades diferentes da simples partilha da oração litúrgica e do clima de silêncio que podemos oferecer-lhes. É toda uma educação ainda a ser feita. Às vezes, devemos explicar-lhes com muita paciência o que é um mosteiro e qual é sua finalidade. O primeiro grupo de jovens foi trazido aqui por um missionário do Pime, em 1998".

À procura de Deus

O que importa é começar. "Temos consciência - diz a abadessa, madre Joana - que a vida monástica feminina é praticamente desconhecida no sul das Filipinas, sobretudo, nosso carisma trapista. Por outro lado, há aqui uma presença mais difundida das famílias claustrais franciscana e carmelita. Ter colocado o mosteiro nesta região significa ter oferecido à Igreja um carisma que lhe faltava: mostrar o significado, através de uma comunidade monástica totalmente orientada à procura de Deus, do amor esponsal que une Cristo à Igreja. De fato, os monges e as monjas da Ordem cisterciense de estreita observância dedicam-se só à oração litúrgica e particular, à meditação, ao trabalho manual e à vida comum, excluindo atividades pastorais, assistenciais e culturais também válidas que, ao contrário, outras comunidades beneditinas assumem".

Em Matutum, porém, as monjas não podiam fechar os olhos diante da pobreza do povo. "Durante nossas reflexões sobre a 'conformação a Cristo', como fulcro de nossa experiência de fé - escreveu madre Joana num relatório - sentimo-nos desafiadas pelo exemplo e desejo de nossos santos fundadores de sermos pobres com Cristo pobre, considerando, sobretudo, as condições de nossos vizinhos. Isso nos levou à decisão de construir um dispensário médico, gerido por pessoal leigo, mas que nos permite estar mais próximas das pessoas ao nosso redor".

A vida como missão

A missão é uma nota fundamental da Igreja, também da monástica. A missão dos monges e monjas é sua mesma vida contemplativa, que eles procuram implantar em todo lugar, exatamente para que evangelize com sua própria existência. A fecundidade apostólica de uma vida escondida é misteriosa, mas não menos real daquela que provém de um compromisso missionário direto. No interior desta missionariedade fundamental, podem encontrar espaço algumas formas mais específicas de diálogo ecumênico e inter-religioso, favorecidas pelo fato de que os elementos essenciais da vida monástica pertencem a toda tradição religiosa. Outra forma de missão é a possibilidade oferecida aos hóspedes de partilhar a liturgia, que é uma catequese viva. Sem contar a oração comunitária e pessoal pelas missões.

As monjas de Vitorchiano

Vida e Esperança

Testemunho recolhido por Costanzo Donegana

O mosteiro de Nossa Senhora da Paz (Itapecirica da Serra, SP), das monjas beneditinas, vive concretamente a missionariedade na partilha do pão e da Palavra com os pobres das redondezas e na intercessão aberta ao mundo.

Ir. Gertrudes:

A vida monástica não tem por fim a ajuda aos pobres. Mas a preocupação de São Bento com eles era tão grande que chegou a dizer que o responsável pela parte econômica do mosteiro deverá prestar conta deles no dia do juízo final. Pede que sejam bem recebidos, pois é sobretudo na pessoa deles que o Cristo é recebido. O monge é impregnado de um zelo amoroso e terno para com os pobres.

Embora nem todas nós possamos exercer diretamente esse trabalho, o fazemos na pessoa da responsável. Daí vem a ação missionária do mosteiro em si, que não fica apenas na ajuda material, mas através dela vai atingindo cada pessoa em sua totalidade. Não se trata da atividade separada da irmã encarregada dos pobres, mas de todo o mosteiro em conjunto, com a participação concreta das irmãs, sob a direção da abadessa.

Nossa maior preocupação, desde o início, foi com os sem-teto: conseguimos construir seis casas e reconstruir três famílias moral e espiritualmente e estamos com mais algumas a caminho da recuperação. Providenciamos também, para várias casas, caixa-d'água, banheiro e chuveiro.

Anos atrás, começamos um trabalho com meninas da redondeza que costumavam vir pedir esmola para suas famílias. Aos poucos, conseguimos reuni-las num grupo chamado "Meninas de Nazaré" (Nazaré é o local do mosteiro reservado ao atendimento dos pobres). Elas passavam os fins de semana aqui, pernoitando em Nazaré, e as monjas as instruíam, dando-lhes catecismo, aulas de português e outras matérias, de música, artesanato, etc. Preparadas para um trabalho nas próprias famílias, essas começaram a vir ao mosteiro, aos domingos, para a Missa e depois se reuniam em Nazaré. Esse grupo que reúne, agora, as famílias, além de jovens e crianças, tem o nome de "Grupo da Transfiguração".

Atualmente, são 20 famílias num total de 50 membros, que passam parte da manhã dos domingos aqui: rezam, aprofundam a leitura da Sagrada Escritura (lectio divina), brincam, estudam e conversam. Agora estamos, com nosso bispo, tentando construir um salão no bairro para eles e, no futuro, uma igrejinha, que será dedicada a Santa Escolástica.

Algumas das "Meninas de Nazaré", conseguiram fazer o Ensino Fundamental e agora trabalham; outras freqüentam um curso de costura que uma senhora lhes dá no mosteiro, duas fizeram o curso de inglês. Muitas pessoas nos ajudam nessa obra de caridade. Recebemos, através de um padre do Pime, ajuda da Itália para a distribuição de alimentos. Muitas pessoas e famílias amigas trazem roupas, calçados, leite, dinheiro; uma escola de inglês, através de uma de suas professoras, nossa amiga, oferece bolsas de estudo.

Toda terça-feira estou à disposição das pessoas para distribuir mantimento, roupa e remédios: ajudamos regularmente 50 famílias por mês. Este contato é muito importante também do ponto de vista humano e espiritual: há famílias que, assim, começam a participar do "Grupo da Transfiguração". Até os pedreiros, que estão reformando nossa igreja e que vêm de longe, começaram a participar do grupo. Algumas professoras voluntárias, no dia de atendimento, ajudam cuidando das crianças ou dos adultos, dando catequese e formação humana.

Para poder ajudar os que realmente são pobres, tenho contato com, pelo menos, um membro de cada família e através dele posso conhecer a situação da casa; nisso me ajudaram muito as Meninas de Nazaré.

Ir. Elisabeth

Desde que são Bento começou a formar comunidades monásticas, ele acolhia meninos no mosteiro. Por muitos séculos, houve sempre (nos mosteiros masculinos e femininos) uma escolinha. Os monges, mais tarde, desenvolveram isso com a abertura de colégios e as monjas com a catequese, na parte externa do mosteiro, para crianças e jovens dos arredores.

Nós percebemos que na redondeza há uma grande carência material e espiritual. As crianças vêm e pedem catequese, sem talvez saber o que é. Quando iniciam, não sabem nada nem fazer o sinal da cruz. Eu tenho o gosto de ensinar que vem da vida do mosteiro, procurando passar o que eu recebo aqui dentro. Sou a responsável da catequese, com outras irmãs que me ajudam. Damos os cursos de primeira comunhão, crisma e, para alguns, de preparação ao casamento e batismo de adolescentes, para o qual está aumentando a demanda pela chegada, ao nosso bairro, de migrantes do Nordeste e do Norte.

Madre Marta Lúcia:

Para algumas meninas adolescentes que freqüentam o mosteiro damos formação moral em aulas individuais. Um fruto prático do trabalho de Nazaré e da orientação moral das adolescentes é que as meninas que tiveram essa formação são as únicas de toda a região que não engravidaram na adolescência. Aqui é muito comum meninas com 13-14 anos já terem filho. Mas aquelas que, desde pequenas, receberam nossa formação, agora já com 17-20 anos estão trabalhando, cursando o Ensino Médio e não passaram pelas experiências negativas das outras. Pouco tempo atrás, havia muita prostituição no nosso bairro e, agora, com o movimento da catequese e o "Grupo da Transfiguração", está se diluindo bastante. É sinal que as meninas receberam algo maior: valores importantes para a vida.

Ir. Elisabeth:

Nós vivemos a missionariedade de maneira particular através da intercessão, que é um dos aspectos principais da nossa vida, além da busca de Deus, que está em primeiro lugar. A intercessão pelo mundo, "pelos pecadores", como se dizia antigamente. Rezamos pela Igreja, pelas suas necessidades atuais, pelo papa, pelas pessoas que não têm fé, pelos jovens e pelos acontecimentos que conhecemos através das notícias do jornal, que podemos ler todos os dias.

Madre Marta Lúcia:

Prova disso é que há, freqüentemente, telefonemas, bilhetes e cartas referindo-se a situações familiares, doenças, dificuldades de vários tipos e pedidos de orações às irmãs. É muito freqüente as pessoas ligarem, depois, dizendo que o problema foi resolvido. Também no atendimento aos hóspedes há esta dimensão missionária: eles pedem para conversar com as irmãs ou para serem acompanhados num retiro espiritual ou para contar problemas familiares, solicitando orientação e orações. Então levamos esses pedidos para o ofício divino, porque quando recebemos a consagração, o bispo nos entrega o livro da Liturgia das Horas justamente para interceder pela salvação do mundo; e o fazemos quando vamos ao coro, sete vezes durante o dia e a noite.

Ir. Elisabeth:

Um outro aspecto são os grupos que vêm ao mosteiro, especialmente de jovens, de outras paróquias ou dioceses, que pedem uma palestra sobre um assunto específico ou para nos conhecer, para um discernimento vocacional. É muito freqüente também que passem aqui um dia ou um final de semana.

Madre Marta Lúcia:

O lema de são Bento é ora et labora (reza e trabalha), então, todo o trabalho deve brotar da oração, da união com Deus e tudo isso que fazemos, seja a oração litúrgica, seja o trabalho com os pobres, seja a catequese, seja a orientação no parlatório, se não brotar da oração, se não for fruto da vida de união com Deus, ficaria só como uma realização pessoal das irmãs. Só unida à oração, a missão tem frutos.

Irmandade Espiritual

Mariano Ponzinibbi

Enquanto estava me preparando a partida para minha missão, em Bangladesh, pensei escrever ao mosteiro de carmelitas da minha cidade, para pedir à madre uma irmã espiritual, como foi santa Terezinha. Recebi a resposta da ir. Eliana, minha nova irmã: "Há muitos anos, fiquei impressionada pela foto de uma pequena criança bengalesa numa revista missionária. Era uma criança marcada e mutilada pelo horror da guerra. Coloquei aquela foto na minha cabeceira e rezava por ela, tão distante e, ao mesmo tempo, tão próxima ao meu coração. Quando a madre me comunicou que queria me confiar um missionário que ia para Bangladesh, senti uma grande alegria: um sinal para mim".

O relacionamento com o mundo contemplativo, porém, vem de muitos anos antes. No mosteiro das Adoradoras Perpétuas de Monza, no norte da Itália, minha tia, ir. Maria Madalena, passou 63 anos na oração e na oferta de seu sofrimento. Estudei teologia na mesma cidade e sua experiência marcou de maneira particular minha vocação missionária. Tive a possibilidade e a graça de recolher seu último suspiro, na época em que estava esperando, (e tudo parecia em vão) o visto para Bangladesh. Três semanas depois da morte da tia, o visto chegou. Uma irmã me confiou que ela tinha dito: "Meu sobrinho partirá para a missão depois de minha morte; assim, do céu, poderei ajudá-lo e segui-lo melhor".

Depois de três anos de missão, entrei em contato por correspondência com as clarissas do único mosteiro contemplativo do país. Embora nunca tenha conseguido visitá-las, meu relacionamento com elas, durante dez anos, foi intenso: notícias recíprocas, confidências, orações.

Tudo isso foi confirmado por um fato significativo. O recém eleito bispo de Rajshahi, dom Paulinus Costa, foi fazer a primeira visita oficial a minha missão. Depois das boas-vindas com danças, oferecimento de flores, vivemos juntos uma hora de adoração eucarística na igreja. Alguns meses depois, o bispo, falando comigo, comentou: "Fiz várias visitas pastorais às missões, mas só na sua iniciei com uma adoração eucarística".

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