Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
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Caminhar no diálogo Giorgio Paleari O cardeal Francis Arinze enviou aos bispos de todo o mundo uma carta sobre a espiritualidade do diálogo O diálogo inter-religioso necessita de uma sólida espiritualidade. Antes de ser uma atividade, o diálogo é um encontro e uma exigência da fé cristã. Está enraizado profundamente no mistério trinitário, num Deus que é amor e comunhão. "Este é o modelo eminente para as relações humanas e o fundamento do diálogo." Deus comunicou-se à humanidade em vários momentos da história, mas, num modo único, enviou seu próprio Filho, Jesus Cristo. Ele, encarnando-se, assumiu tudo o que é positivo e, em sua kenosis, - aniquilamento - esvaziou-se a si mesmo e solidarizou-se com o ser humano até o fim (Fl 2, 5-8). "Assim quando os cristãos encontram outros crentes, são chamados a ter os mesmos sentimentos de Cristo, para seguir os seus passos." O cristão tem como compromisso uma constante conversão para Deus. E, junto com as pessoas de outras religiões, ele busca "a face de Deus" (Sl 27,8). Quando o cristão entra em contato com o povo de outras crenças, necessita manter uma clara identidade religiosa. "O diálogo inter-religioso não exige que o cristão coloque de lado alguns elementos da fé cristã ou da prática, colocando-os entre parênteses, e menos ainda colocando-os em dúvida. Ao contrário, os outros crentes querem claramente conhecer quem estão encontrando". Dois pontos são cruciais para o diálogo: "a firme convicção de que Deus quer que todos sejam salvos (cf. 1 Tm 2,4) e que dá sua graça também aos de fora dos limites visíveis da Igreja (LG, 16; Redemptor hominis, 10)" e, também, a convicção de que "Jesus Cristo (...) é o único e somente salvador de toda a humanidade", sendo a Igreja o lugar em que os meios de salvação se encontram em plenitude. Com essas convicções, não é necessário ter medo do relativismo religioso. O diálogo está sempre associado ao anúncio ("Diálogo e Anúncio" 77-85). Os dois não são intercambiáveis, mas estão interconexos (RM, 55). "O anúncio leva à conversão no sentido da livre aceitação da boa nova de Cristo e de tornar-se um membro da Igreja. O diálogo, do outro lado, pressupõe a conversão no sentido de um retorno do nosso coração a Deus, no amor e na obediência à sua vontade (...)". No processo dialógico, vislumbram-se contatos e diferenças com outras pessoas. Embora reconhecendo a ação do Espírito nos outros, "deverá ser respeitada a unicidade da fé cristã". O texto do cardeal Arinze sugere, na conclusão, que a "espiritualidade que anima e sustenta o diálogo inter-religioso é aquela vida na fé, esperança e caridade". Fé em Deus que é criador e Pai de toda a humanidade; esperança aberta que não busca os resultados imediatos e caridade dialógica, como dom gratuito de Deus. E, por último, sugere-se a necessidade de uma profunda oração e do sacrifício que nos colocam sempre na busca da comunhão com todos os outros. Deus assume uma postura dialógica em seu próprio ser. Ele co-munica-se com os seres humanos, com o cosmos e com a realidade, ao longo da história. Nosso Deus é, por excelência, um "ser dialógico". Antes de tudo, entra em diálogo com as pessoas da Trindade e, depois, estabelece uma relação profunda, escolhendo como interlocutor, a pessoa humana. A missão, na perspectiva do diálogo, é muito mais do que um método ou uma atitude, é a própria razão de ser. Há diálogo da experiência religiosa, quando pessoas de diferentes crenças comunicam o próprio caminho para Deus. Há diálogo em favor da paz, quando há um esforço conjunto de construir unidade e superar os conflitos. E há, também, o diálogo dos intercâmbios teológicos, quando adeptos das várias religiões comparam e refletem os dados da própria fé. Na experiência de escuta e de comunicação com o outro, o missionário transforma-se. Surge um desejo profundo de busca de unidade em Deus e de respeito profundo da diversidade. |
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