| FALTA EMPREGO, NÃO TRABALHO
Costanzo Donegana
Tema da Campanha da Fraternidade (CF) de 1999, o desemprego é
um tema cada vez mais dramaticamente atual
São somos agência de emprego", declarou, no dia 17
de novembro, o presidente da empresa gerenciadora do transporte da cidade
de São Paulo, comentando a implantação da catraca
eletrônica nos ônibus: 342 máquinas que ocuparão
o lugar de 843 pessoas, provocando o medo de futuras demissões.
Um fato simbólico de uma sociedade onde a guerra da máquina
contra o homem produz vítimas sempre mais numerosas.
Crise mundial
O desemprego é um fenômeno mundial e em aumento: o relatório
de 1997 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelou
que um bilhão de pessoas no mundo não tem emprego ou estão
subempregadas. No Brasil, nos dois primeiros anos desde a implantação
do Plano Real (julho de 1994 - dezembro de 1996), perderam-se 755.379
empregos formais. Ainda não foram publicados os dados de 1997,
mas se pode facilmente reconstruí-los a partir do cálculo
do IBGE, que estima que a taxa de desemprego dobrou de 1994 a 1998, atingindo
o nível mais alto desde o final do período militar. No mesmo
quadriênio, a indústria registrou um aumento de produtividade
de 34%: é lógico creditá-lo mais às demissões
do que à criatividade das empresas.
Considerar o desemprego só um problema econômico é
minimizar seu impacto negativo, revelando a lógica do sistema neoliberal,
que coloca a economia acima de tudo, contaminando todo o mundo. Para o
neoliberalismo, as demissões são um dos meios necessários
para garantir a "saúde" do sistema produtivo: uma empresa
não consegue enfrentar a concorrência, é ameaçada
pelos juros altos, seu capital vai minguando... Uma solução
fácil é cortar as vagas. A medida, porém, não
resolve o problema, porque o custo da hora trabalhada no Brasil é
baixíssimo: segundo o salário mínimo, em 1996, era
de 0,93 dólares, contra 1,48 na Argentina e 4,58 nos EUA. Tomando
um outro parâmetro, a participação dos salários
no valor agregado da indústria brasileira, constata-se que ela
é uma das mais baixas do mundo: 23%. No Panamá, é
de 37%, na Índia, 38%, na Itália, 69% e 71% na Noruega.
Isso significa que o peso da mão-de-obra no custo da produção
no Brasil é muito leve e, por conseguinte, demitir para melhorar
a produtividade é errado econômica e humanamente.
Contra o homem
Há desempregados que caem em depressão ou em outros estados
psicóticos, até o suicídio; em muitos casos, o desemprego
tem uma clara correlação também com a doença
física. A razão está no fato de que, em nossa sociedade
capitalista, o trabalho identifica-se com o emprego e "é a
fonte principal de sobrevivência, fonte de integração
social, de identidade e do sentido de vida das pessoas" (Texto-Base
da CF, n.10). Neste contexto, quem perde o emprego, pode também
perder o sentido da vida, culpabiliza-se porque não encontra outro
emprego, porque não consegue manter a família; o homem sente-se
humilhado se só a mulher fica sustentando a família. Perde-se,
em conseqüência, a harmonia dentro das paredes domésticas,
chegando-se a casos de separação de casais.
Por quê?
O problema é muito complexo e as causas múltiplas, variando
também segundo países e regiões. Mas, atualmente,
há uma série de causas, que podem ser reduzidas a um denominador
comum: a revolução tecnológica, que alguns decênios
atrás gerou um forte aumento de empregos, mas agora é a
responsável principal pela sua drástica redução.
A informática, que reúne a computação com
a comunicação, aumentou a produção dependendo
sempre menos da mão-de-obra, gerando um processo frenético
de inovação, que condena à morte, por velhice precoce,
os produtos que ontem eram novidade. Desse processo é vítima
também o trabalhador, muitas vezes marginalizado e excluído
porque não consegue reciclar-se. A isso acrescente-se a desvalorização
enorme das matérias-primas frente à introdução
dos novos materiais: trinta e dois quilos de fibra ótica têm
a capacidade de transmitir a mesma quantidade de mensagens que uma tonelada
do velho fio de cobre. Isso significa fechamento ou redução
drástica das minas de cobre com demissões em massa de trabalhadores.
Dessa maneira, países que se baseavam principalmente sobre a exportação
de uma única matéria-prima, como Bolívia (estanho),
Chile (cobre), Zaire (cobre) tiveram uma forte contração
na sua economia, com dezenas de milhares de mineiros jogados na rua e
fortes tensões sociais.
Frente à desvalorização da matéria-prima e
da "mão-de-obra barata" assistimos à importância
determinante do conhecimento no processo produtivo. As novas tecnologias
exigem capacidade para usar os meios técnicos, contínua
requalificação para acompanhar as transformações
incessantes, conhecimento de línguas, sólida base cultural,
sobretudo matemática. O valor real de uma empresa e de um produto
depende sobretudo das idéias, informações na cabeça
dos técnicos e nos bancos de dados. Isso, evidentemente, gera uma
seleção, que penaliza quem não tem esses conhecimentos.
Também na agricultura, que no Brasil privilegiou o modelo agroex-portador
de alta tecnologia, quem pagou o preço mais alto foi o trabalhador,
obrigado a migrar para a cidade na ilusão de encontrar uma vaga
num mercado que já fechou suas portas.
Um fenômeno que vai crescendo cada vez mais é a financeirização
do mundo, que significa a circulação rápida e sem
barreiras do capital, que aumenta através de operações
financeiras parasitárias, que não produzem quase nada em
bens e serviços e reduzem muitos postos de trabalho. O capital
é cego e não obedece a nenhuma lei, domina a política,
dita as regras de comportamento das empresas e dos Estados, ignorando
as exigências sociais das nações.
Tudo isso incide na organização das empresas, obrigadas
a se reestruturar radicalmente: é a chamada "reengenharia
das empresas". Este processo provoca uma redução pesada
de vagas (de 40 até 75%) numa empresa e do emprego regular, dando
preferência ao trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado.
Alternativas
Para fazer frente a essa situação dramática, são
lançadas várias propostas: crescimento econômico,
ou sua redução, flexibilização das relações
de trabalho. Elas têm boas intenções, mas ficam dentro
da lógica do sistema que gera o mal que querem combater.
O problema não é aumentar ou diminuir a produtividade, mas
redistribuir seus benefícios. É extremamente perigoso querer
aplicar o critério da produtividade em tudo e por tudo como se
tivessem valor só as pessoas e as atividades "eficientes".
Outras propostas vão na direção da solidariedade.
Os economistas "clássicos" torcem o nariz diante disso,
mas, atualmente, há toda uma corrente de estudiosos que vê
na economia solidária uma alternativa ao capitalismo. Neste contexto
são valorizadas as pequenas empresas: "A microempresa, dizia
Herbert de Souza (o Betinho), é uma solução política,
porque tem a dimensão da possibilidade humana. A prova disso é
que, de cada dez empregos criados no Brasil, seis são oriundos
do setor. Não se trata de tornar grande a microempresa, mas de
fazer milhares por todo o planeta". E de criar uma rede de cooperação
e de intercâmbio entre elas.
O modelo capitalista do trabalho como emprego dentro do mecanismo trabalho-produção-salário
está em crise; isso, porém não significa uma crise
do trabalho em si. A economia vem reconhecendo hoje um "Terceiro
Setor" ao lado do mercado e do Estado, como gerador de trabalho:
o trabalho familiar, como o das mães de família; o trabalho
social, como cuidar de doentes, idosos, prisioneiros, deficientes e outros
sofredores; o trabalho ecológico, como a preservação
da natureza e do meio ambiente. Como se vê, não falta trabalho
na nossa sociedade. "É preciso, porém, encontrar meios
e caminhos para financiá-lo, redistribuindo a riqueza social [...]
As novas ocupações enquadradas no Terceiro Setor indicam
que a sociedade pode tornar-se mais humana e mais capaz de futuro, à
medida que valoriza, inclusive financeiramente, independente do trabalho
assalariado, as oportunidades de sustento seguro, os contatos sociais
e de desenvolvimento pessoal" (Texto-Base, n.104s.).
Há muitas outras possibilidades e propostas para lutar contra o
desemprego, como uma profunda reforma agrária, a diminuição
da jornada de trabalho sem diminuir o salário, a redução
ou o fim das horas extras, uma política voltada para o mercado
interno, através da distribuição de renda, etc. O
drama do desemprego, com todas suas conotações negativas,
abre uma perspectiva iluminante: o velho mundo capitalista não
é capaz de gerar vida. Só uma sociedade baseada sobre a
solidariedade, a participação, a comunhão tem futuro.
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