Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

 


por Roberto Malvezzi

m sua passagem por Pernambuco, Lula, mais uma vez, faz o pêndulo da história mudar e agora afirma que fará a transposição do rio São Francisco. Quem assumirá o ônus da morte progressiva do rio São Francisco? Quem assume o ônus da morte de tantos rios brasileiros que não chegam mais ao mar? Quem assume o ônus da contaminação de 70% dos rios brasileiros? Quem assume o ônus da contaminação do Aqüífero Guarani, o maior mar subterrâneo de água doce do planeta? A indústria com seus poluentes, à semelhança monstruosa do que aconteceu com o rio Paraíba do Sul? O agrobusiness, a grande vedete da TV Globo e do governo Lula, contaminando rios inteiros com agrotóxicos, eliminando nascentes como no oeste baiano, consumindo 63% da água doce do Brasil na irrigação, destruindo com plantio de soja os cerrados que formam a maior área de recarga do País?

A mineração e os garimpos? O setor de saneamento que lança 80% dos dejetos brutos nos rios brasileiros? Aliás, que adianta assumir o ônus depois que a tragédia está completa? Enfim, o que se quer mesmo fazer com a nossa água? Lula não é um homem insensível. Ele foi capaz de entender o projeto "Um Milhão de Cisternas" e o incorporou ao "Fome Zero". Na verdade, o "Sede Zero" está escondido sob o "Fome Zero" e não tem o trato que a questão da água potável merece na segurança alimentar de uma nação. Mas Lula foi capaz de lembrar que buscava água em lombo de jegue, que caiu de um e o jegue ainda quase o mordeu. Entretanto, ao passar por Pernambuco, Lula saiu afirmando que as "cisternas resolvem o problema da sede, mas não da produção". Por isso, pensa em fazer a transposição do São Francisco.

Esqueceram de dizer a Lula que a mesma água de chuva captada para consumo humano pode ser também utilizada na produção irrigada, sem impactar o ambiente e os rios, principalmente, o São Francisco. Só que essa lógica não é a das grandes obras, das empreiteiras, das corporações técnicas e nem consagra políticos que sempre sobreviveram vendendo e industrializando o mito da seca. É preciso falar muito claro: quem, em séculos, não foi capaz de colocar sequer um copo de água limpa e um prato de comida na mesa do povo, fracassou absolutamente.

A Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) fracassou, o DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra a Seca) também, a classe política fracassou, as corporações técnicas lotadas na CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco) e outros órgãos de governo fracassaram. Por isso, o semi-árido é uma das regiões com um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano), embora o País seja a 12.ª economia do planeta - em decadência - e aqui tenham sido investidos alguns bilhões de dólares. A inventividade da sociedade civil, a paixão, a decisão de resolver os problemas básicos do povo que deram certo, agora articulados na ASA (Articulação do Semi-árido). O projeto "Um Milhão de Cisternas", iniciativa da sociedade civil, agora incorporada pelo governo, é quase que a única iniciativa estruturante do governo Lula na direção do bem-estar popular.

O São Francisco não é a panacéia do semi-árido. Não tem água para tanto e definha. É preciso que esse governo leve a sério a advertência da NASA (a agência espacial americana): "a continuar nesse modo de lidar com o São Francisco, ele estará extinto até 2060". Alem do mais, seria preciso considerar que o estado brasileiro em pior situação de água é Pernambuco, mas, mesmo assim, possui uma disponibilidade de água de 1.270 m3/ano/pessoa, portanto, dentro dos marcos da regularidade. Abaixo de 1.000 m3/ano/pessoa é que se considera situação de escassez, segundo os padrões da ONU. Todos os demais estão em melhor situação.


O São Francisco não é a panacéia do semi-árido. Não tem água para tanto e definha. "A continuar nesse modo de lidar com o São Francisco, ele estará extinto até 2060"

O Piauí tem 9.185 m3/ano/pessoa e está próximo aos marcos de "riqueza" de água. Ceará 2.279, Rio Grande do Norte 1.654, Paraíba 1.349, Alagoas 1.692, Sergipe 1.625, Bahia 2.872. "O problema é o acesso a essa água, não a falta dela", como diz Aldo Rebouças, em seu livro "Águas Doces no Brasil". Lula ainda está orientando sua política para o semi-árido dentro de duas visões antagônicas: a da convivência (da sociedade civil) e da indústria de seca (que envolve empreiteiras, políticos e corporações técnicas lotadas de governo).

Elas são antagônicas e obedecem a lógicas completamente deferentes que terminam em objetivos e resultados também diferentes. A primeira, respeita a natureza, coopera com ela empodera o povo, eleva sua dignidade, sua qualidade de vida e sua cidadania. A segunda, depreda a natureza, mata os rios, saliniza o solo, destrói a cobertura vegetal, sustenta os interesses empresariais, a indústria da seca, a classe política e as corporações técnicas dependentes dos políticos. A primeira não precisa da transposição do São Francisco para resolver os problemas do povo. A segunda precisa dessa transposição para alimentar seus interesses.

A ministra Marina Silva afirma que a respeito do São Francisco, sua primeira atitude é de consenso, isto é, a revitalização do rio. Parece haver uma contradição entre a opinião de Marina e a atual de Lula. Hoje, ninguém mais nega a necessidade de revitalização - outra iniciativa da sociedade civil - embora o setor energético, a classe política e o setor da irrigação tenham desdenhado a idéia no seu início. Agora, sob o impacto da realidade e da opinião pública, não tem como negar a necessidade da revitalização. Entretanto, o dinheiro da revitalização está indo para as mãos de seus predadores num balcão de negócios dispersos, projetos soltos que jamais contribuirão para a recuperação efetiva do rio.

Ainda mais, não há como falar de revitalização sem relacionar a depredação do rio com o modelo de desenvolvimento imposto ao vale de São Francisco. A morte das nascentes, os olhos d'água, pequenos afluentes, a destruição do cerrado, faz com que a calha do rio se torne frágil, sem alimentação permanente, diminuindo assustadoramente sua vazão nos períodos em que normalmente não chove. Falta uma visão e uma prática real de gestão integrada de bacia hidrográfica onde cobertura vegetal, manejo do solo e preservação das águas estejam efetivamente relacionados. Prevalece a visão absurda e ridícula do agrobusiness que pensa em ser possível depredar a cobertura vegetal dos cerrados para plantar soja e, mesmo assim, supor que os rios continuarão intactos.

A saída para o semi-árido não está em grandes obras nem transposição dos rios. Isso é saída para empreiteiras resolverem seus interesses Essa é uma região de déficit hídrico, isto é, não falta chuva mas a evaporação é três vezes maior que a precipitação e o problema só é solucionável com a preservação da água em ambientes que não permitam a evapotranspiração, segredo das cisternas. A saída, portanto, está na multiplicação, aos milhões, de pequenas obras que retenham as águas da chuva de forma inteligente para o consumo humano e para os animais. A sociedade provou qual é o caminho correto. Não é preciso, portanto, que Lula incorra nos mesmos erros do passado, jogando bilhões de dólares no lixo, coopere com a destruição da natureza, alimente a indústria da seca e nada contribua com o povo.

O autor é membro da coordenação nacional da CPT.

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