Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

Morrer de fome
por falta de água

da redação

á 840 milhões de pessoas que não têm o que comer porque a terra em que vivem não produz por falta de água para irrigar o solo sedento. Para irrigar, é preciso muita água e esta começa a escassear no mundo, por vários fatores: desde os climáticos à evaporação, do desperdício à contaminação que a torna imprópria para uso humano e até mesmo a pirataria da água, através de poços abusivos. Investimentos, melhor distribuição e uso racional das reservas aqüíferas foram os temas tratados pela Fao, num congresso internacional com o tema “Os campos estão com sede”, no dia 10 de outubro de 2003.

O quadro traçado pelo congresso pode levar ao pessimismo porque, embora as reservas aqüíferas sejam abundantes, a distribuição é insatisfatória; há países com superabundância de água, esbanjando de maneira irracional e outros que nem o mínimo têm para a sobrevivência. O desperdício, além da inconsciência das pessoas que abusam da água potável onde ela poderia ser poupada, como na limpeza de ruas, calçadas, etc, é causado também pela produção irracional de alimentos que hoje requerem enormes quantidades de água.

A agricultura gasta 70% da água potável. Em 2030, conforme estimativa da ONU, a população mundial chegará a 8,3 bilhões de pessoas, com imprevisíveis conseqüências sobre a produção agrícola, sendo que, nos países em desenvolvimento, a demanda da produção alimentar será 60% a mais da atual. Haverá água suficiente para acompanhar esse aumento colossal? Embora haja uma enorme reserva de água potável subterrânea, teme-se que um elevado bombeamento possa causar, como já causou, uma diminuição dos veios aqüíferos, gerando um ressecamento das terras que se tornariam mais improdutivas, especialmente para quem não puder recorrer à irrigação barata.

Um perverso círculo vicioso. A solução que se espera é um esforço global para produzir colheitas com menor uso de água, uma irrigação mais racional, como o gotejamento já usado no nordeste brasileiro, a construção de poços impermeáveis para água potável que impeçam a evaporação, a redução do uso de fertilizantes e pesticidas. Isto é racionalizar o uso da água, investindo direta e indiretamente na diminuição da pobreza.

OS DADOS

  • 1,3 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável.
  • 840 milhões sofrem de fome crônica.

ÁGUA NO MUNDO

  • Água de chuva: 120 mil km3 ao ano.
  • Água de rios, lagos e veios aqüíferos: 40 mil km3, dos quais, todo ano,
    são retirados 8%.
  • Os países em desenvolvimento concentram 72% das importações
    alimentares do mundo.
  • África subsaariana: somente 4% das terras cultiváveis são irrigadas.

NECESSIDADE E CONSUMO

  • Cada pessoa precisa de 1-4 litros, por dia, para sobreviver.
  • Para uso doméstico, gastam-se 40/400 litros por dia.
  • Um quilo de trigo consome dois metros3 de água até sua colheita e, para produzir um quilo de carne, necessita-se de 5 a 10 litros.
  • A agricultura consome 70% das reservas hídricas.
  • As terras irrigadas somam 270 milhões de hectares, mas correspondem somente a 20% da superfície agrícola mundial.

“ÁGUA É DIREITO E NÃO MERCADORIA”

É costume, em todos os países, conceder a empresas o direito de propriedade sobre fontes de águas, especialmente as minerais. As empresas comercializam essas águas, ao preço que bem entendem, obtendo grandes lucros e levando o benefício apenas a quem pode pagar.

Para citar um exemplo, na Europa, um litro de água potável tratada e entregue pelas prefeituras custa 0,08 euro, enquanto um litro de água mineral custa 0,40/euro, sem contar o prejuízo da poluição causada pelas garrafas de vidro e de plástico. Começa a ser formada a consciência de que a água é um direito de todos, pobres e ricos, e, portanto, não pode ser concedida em propriedade a sociedades privadas, mas deve ser administrada pelos órgãos públicos em benefício de todos

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