Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

Conflitos no campo - Para que este povo acorde

Cada ano, a CPT lança à opinião pública seu relatório sobre os conflitos do campo brasileiro. Uma espécie de Pnud [sigla do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento] da problemática agrária no Brasil, que é esperado e acolhido, até por meios de comunicação nada propícios para a denúncia da injustiça rural e para a reforma agrária verdadeira. A seriedade e a precisão do Relatório se impuseram, no Brasil e no exterior. Infelizmente, o elenco é de “conflitos”. O nosso Brasil no campo é um campo de batalha! Bem que gostaria a CPT de poder apresentar só números e feitos positivos, realizações concretas de reforma agrária e de reforma agrícola, um panorama idílico de paz rural.

Quem acusa a CPT de morbidez pessimista não conhece o nosso campo de perto. Há muito suor e muito pranto e muito sangue derramados em toda a infinita extensão do Brasil rural; em todos os Estados do País. Sangue, suor e pranto impotentes, frustrados, se contarmos somente com a política oficial do legislativo, do judiciário e do executivo. O relatório da CPMI da terra, “voto vencido”, afirma em sua “Apresentação”: “A responsabilidade pela grave situação em que se encontra o campo brasileiro deve ser compartilhada pelos três poderes da República”. E explicita a responsabilidade concreta que cabe a cada um dos três poderes, atendida a situação real do nosso campo.

E acrescenta, se referindo precisamente aos “conflitos”:

“A violência no campo está enraizada em um conflito distributivo de terra, que só pode ser solucionado por uma reforma agrária ampla e massiva, que democratize o acesso à terra e possibilite o desenvolvimento do campo brasileiro”. A reivindicação e a luta do povo camponês, sofridas e conflitantes, vêm sendo satanizadas pelos “poderes deste mundo”, através dos grandes meios de comunicação (que são os meios dos grandes) e, nesse ano de 2005, até pelo “voto vencedor” da CPMI da terra, apresentado pelo deputado Abelardo Lupion.

A política agrário-agrícola e a política indigenista estão sistematicamente pervertidas no Brasil. Há uma iniqüidade crônica, secular, no tratamento da terra, em nosso País; no reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e de todo o povo camponês; na definição do direito de propriedade e suas funções e seus limites; diante das exigências ecológicas da sustentabilidade e da harmonia que a Terra-Mãe reivindica como saúde da Criação e como segurança e bem-estar de todos em nossa casa comum.

Depois de quase 40 anos de vivência, entre revoltada e esperançada, dessa realidade do nosso campo, me confirmo sempre mais em três convicções:

- O latifúndio é iníquo, um mal maior, crime de lesa justiça e de lesa fraternidade. E o Brasil haverá de criar a lei dos limites da propriedade da terra no campo (e na cidade também, onde grassa “o latifúndio urbano improdutivo”). Contestando o relator da CPMI “vitoriosa”, é preciso gritar que “crime hediondo” e “ação terrorista” não é a ocupação de terras pelo povo, mas o latifúndio, pelo qual o povo é excluído da terra.

- Toda agricultura deve ser ecológica, sustentável, humanizadora.

- A reforma agrária há de ser integral, abrangendo a vida toda do povo camponês, as infra-estruturas de uma existência verdadeiramente humana, realizadora; com especial ênfase para os anseios da juventude.

Enquanto for preciso publicar um relatório anual de conflitos no campo, não haverá paz nem no campo nem na cidade. A política oficial agrário-agrícola, por ora, é com muita freqüência uma política de guerra na execução, na omissão e na repressão violenta, e também, com freqüência, uma política de mentira pela tergiversação dos dados que se entregam ao público. O atual governo anunciou ter assentado, em 2005, 127,5 mil famílias; quando apenas 45,7% o foram em áreas destinadas à reforma agrária; o restante, de acordo com o banco de dados da Luta Pela Terra, está em assentamentos temporários ou em assentamentos reordenados em terras públicas.

“Mais um ano sem reforma agrária” gritava na manchete de primeira página um jornal alternativo. “Os camponeses, concluía uma nota da CPT sobre o campo paraense, e poderia se referir a todo o campo brasileiro, continuam na sina da resistência, da força de construírem com as suas próprias mãos e também com o seu sangue (em dezenas de casos) a reforma agrária, justa e necessária”. O trabalho escravo continua a ser notícia, infelizmente, até no exterior, inclusive vinculando-o com certos produtos de exportação... Este relatório da CPT de 2005 destaca feitos emblemáticos de sofrimento e luta e simultaneamente de heroísmo e exemplaridade.

A irmã Dorothy, com um límpido testemunho evangélico de fidelidade ao povo e de perdão aos inimigos; o mártir compulsivo da ecologia, Francisco Anselmo Gomes de Barros, que foi até a oblação total da sua vida. “Já que não temos voto para salvar o Pantanal, dizia Francelmo, vamos dar a vida para salvá-lo”. Dom Luiz Flávio Cappio, profeta peregrino do Rio São Francisco, denunciando o hidronegócio e acenando para as soluções viáveis em favor do semi-árido e de todo o povo nordestino.

O MST na Marcha Nacional, sendo mais uma prova de capacidade organizativa e da continuidade histórica do movimento camponês no propósito de conquistar a terra para o povo. Destaques luminosos de uma imensa luta diária, muitas vezes anônima, que faz do campo brasileiro uma contenda entre a morte e a vida, entre a injustiça e a libertação. Francelmo entrega sua vida “para que este povo acorde”.

Este povo somos todos nós:

- a população brasileira do campo e da cidade, as autoridades responsáveis (ou irresponsáveis), o movimento popular, a intelectualidade comprometida com a verdade, as Igrejas de Jesus Cristo libertador, as Religiões do Deus da vida, a juventude que aspire a ter futuro...
Acordemos, então!

Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, MT

*Este texto é a apresentação da publicação Conflitos do Campo Brasil 2005, editada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

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