Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

Cidades ameaçadas

Edison Barbieri

Em 2015, a humanidade será maioritariamente urbana e pobre: 46% de seus membros residirão em densos aglomerados dos países subdesenvolvidos e 13% nas cidades do primeiro mundo. É aqui que o futuro social e ambiental da humanidade será decidido no século 21. A preservação de áreas verdes e a proteção de espécies ameaçadas constituem requisitos de um planeta sustentável. Mas é nas cidades, ironicamente, de onde a natureza já foi expulsa, que os homens terão que provar sua reconciliação com a água, o ar, a terra, a flora e a fauna. E, principalmente, com a sua própria espécie.

Pobreza e meio ambiente

No Brasil, os dados da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica - FIPE - da Universidade de São Paulo indicam que faltam 1 milhão e 300 mil casas nas áreas urbanas do país. Sem ter onde morar, as pessoas não respeitam as áreas de proteção ambiental e constróem suas casas em lugares sem condições sanitárias, água encanada ou esgoto, trazendo um prejuízo enorme para a própria saúde e para o meio ambiente.
Em 1940, 69% da população brasileira vivia no campo, mas, na década de 60, as grandes cidades começaram a inchar, devido ao êxodo da população rural. A industrialização da agricultura e o sonho de encontrar uma vida melhor foram os motivos principais desse fenômeno. O resultado foi que, em 1991, 75% da população (correspondente a cerca de 110 milhões) habitavam nas cidades. Sem capacitação profissional, na cidade, o homem do campo encontrou poucas oportunidades de emprego: a miséria cresceu, deteriorando a qualidade de vida das cidades como um todo, mas principalmente desta população advinda do êxodo, estranha à cultura urbana.
Na década de 80, a pobreza se tornou um desafio sem tréguas para o meio ambiente. A população pobre, sem ter onde morar, construiu suas casa em lugares sem condições mínimas de segurança, como encostas, beira de rios, embaixo de viadutos e pontes, depósitos de lixo e alagadiços. Para quem não podia apossar-se de um pedaço de terra, aqueles lugares tornaram-se a única solução para a moradia.

Favelas

Em 1994, o IBGE divulgou uma pesquisa que dizia que no Brasil havia 33.481 favelas. As maiores estavam no Rio de Janeiro: mais de 250 mil barracos espalhavam-se por toda a cidade e seu número não pára de crescer. As favelas da Barra da Tijuca praticamente triplicaram de tamanho em apenas 10 anos. A infra-estrutura urbana não foi suficiente para atender a todos os problemas: o lixo se espalhou, os esgotos surgiram a céu aberto e as doenças aumentaram. A ocupação desordenada devastou a vegetação urbana, o chão coberto por concreto e asfalto aqueceu o clima e impermeabilizou o solo. Nas chuvas de fevereiro deste ano, centenas de barracos foram levados pelas enxurradas.
O aluguel de um barraco na favela é alto: na Rocinha (Rio de Janeiro) não sai por menos de 120 reais e na favela de Heliópolis, em São Paulo, não se encontra por menos de 160 reais. Os que não possuem o suficiente para enfrentar essas despesas são obrigados a viver ao léu, tornando-se moradores de rua. Alguns deles andam com seus pertences amarrados em carroças, outros improvisam um teto em carros abandonados ou se refugiam debaixo de pontes.
O fantástico processo de migração ocorrido nos anos 70 no Brasil não se distribuiu homogeneamente por toda a malha urbana. Concentrou-se nas grandes cidades, sendo que 44% do fluxo migratório convergiu para nove áreas urbanas. O fenômeno provocou uma dramática inversão na localização da distribuição da riqueza. Até meados dos anos 70, a proporção de pobres no campo sempre foi duas vezes maior que nas cidades: 73 % e 35% respectivamente. Mas, em 1995, as taxas passaram para 32% no campo e 40% na cidade.
Pobreza e meio ambiente engalfi-nham-se a partir de então, num duelo sem tréguas nas periferias do país. Áreas ecologicamente mais frágeis como várzeas, alagados, fundos de vales sujeitos a constantes enchentes, beiras de córregos e vizinhanças insalubres de aterros, lixões e estradas tornaram-se o principal cenário desse embate.
Em Manaus, hoje, morrem 17 mil pessoas por ano devido às péssimas condições sanitárias em que vive a maioria da população. As casas construídas sobre os igarapés infestam a cidade. Durante a fase de seca, os igarapés baixam e o lixo invade o local onde estão as casas. Nos arredores de Manaus, não há água encanada, muito menos esgoto e o meio ambiente sofre em conseqüência da devastação do homem. Em casas com apenas um cômodo, moram, às vezes, até nove pessoas; a água é recolhida em bicas, córregos ou lagos, a saúde das crianças está comprometida. Manaus, infelizmente, não é uma situação localizada: em 1992, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária apontava que 60% das doenças infantis eram causadas por contato com água e esgoto não tratados.

Políticas ambientais

Pelas projeções da ONU, a população das cidades do mundo aumenta em cerca de 1 milhão de pessoas por semana, sendo que um terço vive em condições insalubres. Para os urbanistas, melhorar as casas que já existem é tão ou mais importante quanto construir novas moradias. Chegou-se também a um consenso, onde os países em desenvolvimento devem começar a incentivar políticas públicas que contenham o crescimento das cidades.
A Agenda 21, o documento da ONU que contém propostas de política ambiental até o próximo século, diz que o principal objetivo da política de assentamento humano é melhorar a qualidade de vida social, econômica e ambiental do planeta. Afirma que a questão ambiental, mais do que a preservação e defesa do patrimônio natural, é uma questão social, que deve se voltar também para a qualidade de vida na cidade.
As cidades bem planejadas podem ser núcleos de progresso, centro de tecnologia, cultura e de agitação de idéias. Podem se converter também em focos de onde advêm a violência, o crime e outras marcas sociais, como a prostituição e os menores de rua. A situação positiva ou negativa dos assentamentos humanos depende, em grande parte, das condições em que suas casas estão situadas. Depende, em geral, da qualidade de vida das cidades e dos bairros.
A problemática urbana cresce de forma trágica e enquanto não houver o envolvimento de todos os atores que interagem nas cidades, visando à construção do novos parâmetros, estaremos elaborando apenas documentos "bonitos" para aumentar o volume dos nossos arquivos ou o currículo de pesquisadores. As relações internacionais e as políticas de financiamentos necessitam de intervenções contundentes, principalmente nos países da América Latina.
Espera-se que, para o próximo milênio, a humanidade dê um passo concreto na reconciliação do homem com a natureza, a começar pelos bairros e cidades. Na recuperação da qualidade de vida será preciso organizar, em primeiro lugar, a ação e, nível local (ruas, bairro etc.) com a participação dos vários segmentos da sociedade, destacando-se particularmente o papel das Organizações não-governamentais (Ongs). Só assim as futuras gerações terão chances concretas de viver num planeta melhor.

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