Revista "MUNDO e MISSÃO"
Drogas
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TABEBUIAS Quando os fatos são mais fortes que os argumentos "Ninguém é irrecuperável: uma utopia?" São Paulo, 5 de março de 2001 Querida Zirdinha Oi vó, tudo bem? Sei que você não gosta muito de ser chamada de Zirdinha, mas eu acho um apelido tão carinhoso, tão fofo! Além disso. só eu te chamo assim, o que me dá uma sensação de proximidade e de intimidade muito gostosa. Ah, vai, não faz essa careta! Como estão as coisas por ai? Por aqui, tudo bem, a mesma vidinha de sempre. Continuo namorando e fazendo minhas revisões e traduções, graças ao meu diploma de Letras, que eu tanto penei para conseguir. Sei que essas notícias não são novas para você, pois mesmo estando longe você tem acompanhado a minha vida. Ainda assim senti vontade de escrever para matar a saudade. Na verdade, minha vidinha não continua "a mesma de sempre". Como você já deve estar sabendo meio por cima, fui convidada para escrever um livro sobre a vida de algumas pessoas que se livraram das drogas na Fazenda da Esperança (estou te enviando um exemplar junto com essa cartinha). É estranho: eu nunca havia escrito nada antes e agora o livro já está na 4º edição. Acho que o momento foi muito propício porque o tema da Campanha da Fraternidade deste ano é sobre drogas e estamos no ano internacional do voluntariado, fundamental para o funcionamento e expansão da Fazenda. Mas mesmo quem não tem nenhum envolvimento com a Igreja Católica pode apreciar o livro, porque fiz questão de escrever para todos os públicos - ateus, evangélicos, judeus etc -, o que justifica o fato de termos escolhido um ex-procurador de justiça para escrever o prefácio. Sei que você vai estranhar o título: Tabebuias. Será que seus conhecimentos de botânica serão suficientes para matar essa charada? Não sei, mas não vou contar o mistério. Você terá de olhar a orelha do livro para descobrir! Foram três meses e meio de trabalho intenso e o lançamento foi no dia 4 de janeiro de 2001. Praticamente vivi em função disso durante esse tempo, mas foi recompensador, mesmo quando eu não sabia se o que eu havia escrito ia ou não ser aprovado. Posso dizer com certeza que, até agora, fazer esse trabalho e conhecer a Fazenda foi um dos eventos mais marcantes da minha vida. Quando cheguei à Fazenda da Esperança Guaratinguetá - existem 16 no Brasil e duas em Berlim -, não pude acreditar no que estava vendo: centenas de tóxico-dependentes sendo "tratados" gratuitamente com um único "remédio". o amor incondicional ao próximo, que resgata a dignidade que existe em cada um, mesmo se às vezes ela permanece escondida atrás da violência, por exemplo. Eu, cheia de preconceitos, que defendia a prisão perpétua, por exemplo, tive a sensação de que puxaram o meu tapete: dar uma nova chance para um traficante?! Um assassino?! E, além disso, amá-lo intensamente, vendo-o como um todo indivisível, e não apenas como um "malvado" irrecuperável? Quando conheci dezenas de pessoas recuperadas, até mesmo ex- assassinos, tive de mudar certos valores e admitir como era egoísta e prepotente. Não vou contar o livro todo senão perde a graça, mas o que me chamou mais a atenção, além desse amor incondicional ao próximo, é que na Fazenda da Esperança não existem psicólogos, sedativos, isolamento: as pessoas trabalham, até mesmo os portadores do HIV, e vivem em comunidade, sempre tendo o Evangelho como o centro de suas vidas. Durante o ano que permanecem na Fazenda, mudam realmente de vida; a desintoxicação é uma conseqüência dessa mudança. Muitas histórias me impressionaram também, como a de um ex-traficante de drogas. Depois de muitos problemas familiares, Paulo acabou parando nas ruas, ainda criança, sem dinheiro, sem nenhum apoio. No começo, ainda pedia comida, mas depois se revoltou e começou a traficar e "a atirar com um revólver em cada mão". Ficou muitos anos nessa "rotina", mas depois de ter sobrevivido a um tiro à queima-roupa, Paulo decidiu sair daquela vida e foi para a Fazenda da Esperança, Como ele sempre faz questão de ressaltar, Deus sabia que ele não havia nascido para aquela vida. Como você vai ler no livro, hoje ele é uma das pessoas mais educadas que conheço, e pode-se perceber, sem pieguice, que é um homem em paz consigo mesmo, capaz de ajudar o próximo, mesmo os mais arredios. Se tivessem me contado esta história, eu não teria acreditado... Ele ficou na Fazenda para ajudar os novos recuperandos ou hoje tem dois filhos e uma linda esposa! Leia o livro, vó larga de ser curiosa! São historinhas curtas e reais, que fique bem claro, escritas em forma de ficção. Assim você não vai poder dizer que o livro é maçante! Entre outros temas, há uma parte sobre a vida de vários voluntários, inclusive da do frei Hans, do Nelson e outros, que foram os que começaram o projeto, sobre como todos vivem o Evangelho, sobre a importância das freiras para os recuperados e, também, sobre o trabalho e a vida dos aidéticos. Fiquei feliz de saber que com esse livro eu vou poder ajudar as pessoas. Eu andava muito triste porque uma das minhas melhores amigas, a Fabiana, sabe?., foi assassinada por um viciado em cocaína alguns meses antes de eu começar a escrever o livro. Consegui transformar meu sofrimento numa coisa boa e útil, tanto para mim quanto para aqueles que querem ser pessoas melhores, independentemente se têm ou não alguma ligação com droga. Bom, vou ficando por aqui, pois tenho muita coisa para fazer ainda hoje. Um beijo de sua neta. Christiane OBS: Não sabia muito bem o endereço ai em cima, mas se os carteiros entregam tantas cartinhas para o Papai Noel no Natal, eles também vão te encontrar. AH, dê um beijo na Fabiana por mim. |
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