Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

Irmã Laura Cantoni

s Yanomani vivem em amplo território entre a Venezuela e o Brasil. Mantêm pouco contato com o mundo ocidental, o que lhes permitiu manter o estilo tradicional de vida, a cultura comunitária, festas típicas... São um pouco mais de 20.000 pessoas semi-nômades, que vivem de caça, pesca e coleta de frutos da floresta, e de pequenas plantações, sobretudo de banana e mandioca. A cada 4 ou 5 anos, deslocam-se para áreas mais férteis, onde reconstroem a maloca e recomeçam o ciclo vital. Em 1975, os brancos descobriram ouro e outros minerais preciosos no território Yanomami. Assim, pouco a pouco, muitos garimpeiros invadiram a terra, destruindo a floresta e poluindo os rios. Trouxeram consigo doenças desconhecidas (gripe, diarréia, tuberculose, malária), contra as quais os Yanomami não possuíam defesas, e que dizimaram vilas inteiras.

Entre os anos 80 e no início dos 90, apenas do lado brasileiro, havia mais de 50.000 garimpeiros e 9.000 Yanomamis. Naquele ritmo de mortes por doenças ou violência, os Yanomami teriam poucos anos de sobrevivência. Graças à campanha SOS Yanomami, promovida por entidades eclesiais, antropólogos e ONGs, em 1992, uma mobilização internacional pressionou o governo brasileiro pela demarcação das terras indígenas e a retirada dos invasores. Naquele período de lutas entre a polícia federal e os garimpeiros, tempo de devastação cultural e de inumeráveis mortes Yanomami, a Diocese de Roraima reforçou sua assistência sanitária e educação.


Mulher Yanomami é responsável pela limpeza dos peixes para a refeição familiar

Dez anos depois, professores Yanomami, irmãs e leigos decidiram “registrar a memória do povo” e rediscutir a experiência passada, para transmitir a história aos filhos menores e assumir uma posição para o futuro. Assim nasceu esta experiência itinerante... A zona do Xitei (“pedra”, na língua Yanomami) encontra-se em uma área montanhosa (entre 750 e 1300 metros acima do nível do mar).

No coração da terra Yanomami, entre o Brasil e a Venezuela. Chega-se à base da missão em um pequeno avião de 4 ou 5 lugares, a uma hora e meia de vôo de Bela Vista. Do céu, avistam-se a floresta equatorial, compacta e impenetrável e, aqui e ali, clareiras abertas pelo garimpo.

Mochila às costas para visitar as 20 comunidades, horas de marcha pelas picadas da floresta, íngremes morros e atoleiros, rios e corredeiras sob pinguelas, um professor Yanomami vai à frente, para abrir caminho e nos defender, com arco e flecha, de eventuais animais ou répteis e, porque não, aproveitar para caçar algo, para não chegar à próxima maloca de mãos vazias. A acolhida, desde a das crianças até a dos mais velhos, é ótima. O professor reúne a comunidade e lhes introduz o tema. Em seguida, os que tiveram contato com garimpeiros contam sua experiência. Outros completam a narração. A comunidade inteira discute, reflete sobre o passado e compara com a situação atual; exprime-se através do discurso e de desenhos. “Eram brancos, enormes, brutos, barbudos como macacos. Eu era pequeno, lembro-me que meu pai, para me proteger, escondia-me em um buraco no chão ou debaixo da canoa emborcada”, relata um jovem.

UM RELATO IMPRESSIONANTE

O testemunho de Antônio, o respeitado tuxaua (cacique), impressiona: “No começo, havia só Yanomami. Éramos muitos. Fortes, alegres, com muitas mulheres e crianças. Os Yanomami trabalhavam muito, tinham plantações de banana, mandioca, fumo, batata doce... Os homens fabricavam arcos e flechas para caçar; as mulheres cultivavam a terra, plantavam, recolhiam frutos. A floresta e os rios davam tudo o que servia para viver com saúde e alegria. Fazíamos festas, chamávamos os parentes das malocas vizinhas, cantávamos, comíamos, jogávamos, dançávamos e rezávamos juntos. Se alguém ficasse doente, o xapore (curandeiro) preparava remédio e tirava o espírito mau. Os Yanomami eram felizes. Um dia, vieram os brancos. Passavam de avião e de helicóptero sobre a mata e sobre a maloca, fazendo um barulho ensurdecedor. A gente tinha medo, muito medo. Mulheres e crianças choravam, fugiam, escondiam-se.

Os brancos abriram uma pista de pouso. Mais tarde, curiosos, os índios acompanhavam o barulho, para ver o que era aquilo. Começaram a visitar os brancos. Ao invés de caçar e plantar, acampávamos perto da pista para ver aqueles homens, as máquinas, os motores, todas aquelas novidades que jamais tínhamos visto. Os garimpeiros cortavam árvores, faziam grandes buracos no leito dos rios, vasculhavam a terra amarela. Aviões chegavam carregados de combustível, alimentos, ferramentas, homens. Subiam cheios de sacos de pedras. Os garimpeiros diziam: ‘amigo, amigo’, e davam arroz, farinha, peixe. Em troca, os indígenas trabalhavam, ajudavam a escavar, a transportar tambores de gasolina e pedras, um trabalho estafante. Os garimpeiros nos enganaram: obrigavam a gente a trabalhar muito para encontrar ouro e, em troca, davam-nos um resto de comida e roupa usada.


Mãe amamenta enquanto faz desenhos com integrantes da tribo

Os Yanomami não trabalhavam mais na sua lavoura. Viviam ao lado da pista e pediam tudo aos garimpeiros. O garimpeiro queria fazer sexo com as adolescentes e oferecia comida em troca. As mulheres tinham medo. Muitas jovens foram violentadas e mortas. Em uma maloca, os garimpeiros amarraram os três homens presentes e violentaram algumas jovens. Uma decidiu resistir, foi morta a facão sob os olhares de todos. Eles trouxeram doenças: febre, tosse, dor de cabeça, diarréia, que o xapore não conseguia curar. Muitos Yanomami morreram e outros foram assassinados com veneno, a tiros de fuzil ou a cacetadas... Por vingança, também alguns Yanomami mataram garimpeiros. Em 1993, vi com estes olhos o massacre na maloca Haximu: dezesseis mortos com arma de fogo, ou a golpes de facão, ou queimados. Os Yanomami não queriam mais ter filhos, porque nenhum deles sobreviveria.

As famílias se extinguiam, o povo estava no limite, vivia desesperado”. Percorro as picadas na floresta, entre restos de um ou outro garimpo. Em uma comunidade, a oito horas a pé da missão, ouvi muitas histórias de violência, de exploração, de destruição física e social. Surpreende-me a alegria rumorosa e acolhedora das muitas crianças que agora povoam as comunidades e o ritmo de vida que se normalizou depois da expulsão dos garimpeiros. Apenas tambores apodrecidos de gasolina, velhas telas de plástico, charcos pútridos na floresta, ausência significativa de homens e de mulheres de determinada faixa de idade lembram aqueles tempos difíceis. “Agora, nosso povo cresce, está feliz. Organizamos de novo nossas festas.

Não queremos mais os exploradores do ouro de nossas terras!”, afirmou com voz forte e decidida Xiriana, o patriarca de uma comunidade, que perdera muitos filhos na época do garimpo. Espero que este povo, inteligente e alegre, orgulhoso de suas tradições e acolhedor, que ressurgiu daquele primeiro contato violento com os garimpeiros brancos, consiga sobreviver também ao contato, não menos difícil, com nossa hodierna sociedade ocidental, portadora de muitos bens materiais e de um estilo de vida completamente diferente do deles. A verdadeira riqueza não é o ouro, mas as relações humanas.

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