Revista "MUNDO e MISSÃO"

Crianças

 

Pedro Miskalo

s ruas centrais das grandes cidades brasileiras são, ao mesmo tempo, casa, escola, igreja, clube, e lugar de trabalho para um número variável de crianças e adolescentes, entre sete e dezessete anos de idade. Nesse mundão sem eira nem beira, crescem pequenos párias, excluídos da família biológica e desprezados pela sociedade. Sua família é a “turma”, um aglomerado de outros não-amados, que saíram de casa por diversas razões. Os motivos apontados convergem para os mesmos pontos.

Atrativos que a rua oferece, quando irmãos e outros familiares já estão nela; fuga da violência doméstica, do abuso sexual, do descaso e da ausência dos pais; ou falta de condição econômica. A primeira vertente leva a um histórico problema social: pedir esmola, limpar para-brisas ou vender balas, mostrar habilidade com os malabares, etc. A segunda, leva a um questionamento radical: demonstra a implosão da estrutura familiar, a corrosão do alicerce social.


Lucio Beninati no primeiro contato, os voluntário vêm com brincadeiras, pequenos curativos e estratégias de educação informal

Nesse caso, é melhor viver na rua, onde a liberdade não conhece limites. Para se alimentar, as crianças pedem ao “tio” que lancha pelos bares e bancas, ou vasculham o lixo. Outras, principalmente os adolescentes, tentam pequenos furtos em supermercados ou assaltam transeuntes, e se expõem a serem levados ao distrito policial, de onde saem rumo à “escola do ódio”, a Febem; ou são logo dispensados. A maioria dorme sob marquises, viadutos e esconderijos, entre jornais e sórdidos colchonetes.

Alguns se encolhem pelos cantos, outros se aconchegam aos outros para se aquecer, quase sempre entorpecidos pela cola de sapateiro, crack ou maconha. Sem o afeto da família, sem o direito à saúde e à educação, as perspectivas para um futuro melhor são nulas. Pelo contrário, têm o caminho aberto para a tóxico-dependência e o conseqüente tráfico de drogas. Garotas se prostituem, algumas com menos de 12 anos. Para conter o desperdício desse potencial humano, surgem, nas metrópoles, diversos projetos para a promoção desses pequenos párias, e manter viva a criança, o “ser” que neles ainda se esconde!

“CHEIRO DE CAPIM”

Um destes projetos é o Cheiro de Capim. Para conhecê-lo melhor, entrevistamos Irmão Lucio Beninati, missionário do Pime, na rua conhecido como “tio frei”, um dos seus coordenadores.

M.M.: Por que o projeto ganhou esse nome?

– Muitas crianças cheiram cola e usam diversas drogas. O Projeto Cheiro de Capim oferece-lhes a oportunidade de cheirar algo diverso, criando nelas o desejo de sair da rua. No início, eu as levava para passar um tempo mergulhadas na natureza, eis porque o nome.

M.M.: O que a rua representa para esses meninos?

– É um mundo muito rápido, ágil, fugaz, com outro ritmo: o de zoar, de “dançar” ou não “dançar”, de “viajar” ou de ficar horas sentado, deitado em um banco com cobertor e um saquinho de cola, conversando bobagens, dormindo, viajando de olhos fechados ou juntando-se de repente para dar um “rolê”, apanhar alguma coisa, conseguir bagulho, algum trocado ou... planejar outra aventura. Enfim, a rua e a turma representam o que a família, a igreja e o bairro deixaram de oferecer e de representar.

M.M.: Onde atua e qual é o objetivo do projeto?

– O Cheiro do Capim trabalha nas ruas do centro de São Paulo, onde quer ter sólida presença, criando relacionamento e ambientes de confiança com as crianças e adolescentes que ali se encontram, esperando levá-los a criarem um novo projeto de vida. Ele só é possível graças à boa vontade de dezenas de voluntários.

M.M.: O trabalho voluntário é limitado. Como, então ...

– Em São Paulo, muitos projetos trabalham com crianças e adolescentes, mas todos durante o dia, quando elas perambulam, cometendo pequenos delitos, utilizando drogas, etc. À noite, geralmente se reúnem para dormir juntas. Assim, evitam os maus-tratos, a violência policial, as ameaças dos traficantes, etc. Como os voluntários trabalham durante o dia, decidimos enfrentar a noite, apesar dos riscos que ela esconde.

M.M.: Você falou de traficantes. Os meninos se drogam?

– A maioria, sim! Usar droga é uma linguagem de rua. Fala-se que a criança cheira cola porque está na rua, não o contrário! Tem também o tinner, a maconha, o crack. Cola e tinner excitam, mas, com o tempo, provocam confusão mental, desorientação, dor de cabeça, visão embaralhada, início de alucinação, inconsciência, convulsões, coma... podem até matar! Já o crack estimula e excita o organismo. É uma droga barata e seu efeito é rápido e devastador.

O consumidor normalmente pouco se socializa e não se preocupa com a aparência... O crack acaba com ele em todos os sentidos. Apesar do bom relacionamento com o pessoal do crack, na maioria dos casos a abordagem se dá com poucas palavras, um aperto de mão. Com eles, é mais difícil desenvolver nossas oficinas nas ruas.

M.M.: Por quê?

– Os efeitos da droga, a preocupação com a polícia, o medo de serem “cagüetados” e o tráfico dificultam a criação de um relacionamento.

M.M.: Fale-nos do trabalho.

– Acontece em etapas progressivas. No primeiro contato, os voluntários vêm com brincadeiras, pequenos curativos e estratégias de educação informal. É o quebra-gelo. Mais tarde, criam-se ambientes de confiança, com passeios, atividades culturais, filmes educativos e artesanato, atendimento médico-dentário, etc. Por fim, há o encaminhamento às Casas de Acolhida, Abrigos, Centros Comunitários e de Recuperação, se for o caso.

M.M.: Que resultados vocês têm?

– É difícil medir! Quando você lida com pessoas, cada uma reage de um jeito. Se alguém não conhece a ternura da mãe ou o apoio do pai, dificilmente deixa o único mundo que conhece. Mas, em média, a gente faz 80 atendimentos na rua, diariamente, e 2 encaminhamentos.

M.M.: E o apoio a vocês, como vai?

– Cada vez pior! Desde 1999, muitos convênios se fecharam. Todo dia a gente fica sabendo de projetos que trabalhavam com esse problema, Albergues, Casas de Acolhida, Centros Comunitários, Abrigos, ... que foram fechados. Com outros projetos, sem convênio com a Prefeitura ou com o Estado, aconteceu a mesma coisa. O trabalho voluntário é mesmo difícil, e os frutos... Ora, a sociedade vai colhê-los um dia. Certeza!

M.M.: O que empurra vocês para frente?

– Uma vez o cardeal Martini disse: “Os marginalizados não são a parte doente da sociedade, mas aqueles que levam as marcas de uma sociedade doente”. Essas crianças foram traídas por quem deveria dar-lhes amor. É o que a gente precisa fazer. Nossa missão é despertar humanidade em todas as pessoas e elevar a auto-estima, a afeição, o amor... nesses filhos não-amados! Nosso dever é semear e, pacientemente, esperar.

Lucio acrescenta: “A gente acredita que mais vale acender um fósforo do que amaldiçoar a escuridão”.

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