Revista "MUNDO e MISSÃO"

Comunicação

 

dosos somos ou seremos (se Deus nos der a graça de chegar até lá); portanto, o tema da Campanha da Fraternidade deste ano atinge a todos. E é um motivo a mais para entender sua importância, para nos abrir a essa porção da nossa sociedade e também para nos conscientizar a respeito do sentido dessa etapa da nossa vida. As pessoas com mais de 60 anos constituem 8,6% da população do Brasil, que eqüivale a 15 milhões de pessoas. Em 1940, a porcentagem era só de 4% e, em 2020, a previsão é de 15%. Os números apontam para um crescimento progressivo e consistente da população idosa no nosso país, que, por isso, foi definido "um país jovem de cabelos brancos".

MARGINALIZADOS

O aumento da expectativa de vida no Brasil deve-se às melhores condições sociais e econômicas, sobretudo no nível sanitário, aos avanços científicos e ao rígido controle demográfico, que diminuiu a taxa de fecundidade nos últimos anos. Não são muitos os idosos que se conformam com sua condição, menos ainda aceitam ser chamados de "velhos", uma palavra que contém um significado negativo. Esta resistência é de todos os tempos e culturas, porque o ser humano quer uma vida longa, mas, ao mesmo tempo, sonha não envelhecer e se ilude que é quase imortal.

Esse fenômeno aumentou muito, especialmente agora, em nossa sociedade que valoriza só a eficiência, a produtividade, a juventude, a beleza, a força, a saúde. O processo de produção, a lei do mercado dominada pela concorrência, o consumismo, criam uma mentalidade - difundida pelos meios de comunicação - que penaliza o idoso. "Hoje existe um verdadeiro culto ao corpo, com a valorização da beleza física e da juventude. Veja-se a multiplicação das academias de ginástica e condicionamento físico, cirurgias plásticas, cosméticos e drogas que prometem milagres, buscados, sobretudo, quando a percepção do próprio envelhecimento começa a atrapalhar com o aparecimento das primeiras rugas, dos cabelos grisalhos, da pele mais ressecada.

A idéia subjacente a essas práticas é a de que a velhice feliz consiste em parecer jovem, o que leva muitos idosos a valorizarem excessivamente a juventude que possuíram, vivendo do passado e desconhecendo os valores de sua própria velhice". Nesse contexto, "o idoso é considerado um peso, alguém que onera a sociedade e não lhe fornece benefícios econômicos de forma direta. Conseqüentemente, o idoso é marginalizado" (Texto-Base CF 2003, n. 48 e 45). Agravam a situação vários preconceitos difusos na mentalidade comum e, às vezes, incorporados pelos próprios idosos, que os apresentam como incapazes, limitados, ineficientes (ver box).

O problema fundamental consiste no fato de que o idoso não é considerado pelas suas características peculiares, e sim por aquilo que "não é" ou "não é mais". Mas olhando sua situação do ponto de vista positivo, descobrem-se as grandes riquezas que a velhice - naturalmente bem vivida, porque envelhecer é uma das mais difíceis tarefas da vida humana - possui e pode oferecer às outras idades. "Os anciãos", afirma João Paulo II, "ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experimentados e amadurecidos. Eles são guardiães da memória coletiva e, por isso, intérpretes privilegiados do conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social".

INDICAÇÕES CONCRETAS

O Texto-Base da CF, na terceira parte, oferece indicações concretas de ação, que podemos sintetizar em quatro âmbitos:

1.º Pessoal. É importante, em primeiro lugar, uma mudança de mentalidade para valorizar os idosos nas características específicas de sua idade e na aceitação serena de seus limites. Os próprios idosos devem ser ajudados a viver a própria condição sem saudosismos do passado nem ilusões de reviver uma juventude que não volta mais, mas com uma auto-estima, que os torna ainda atores dentro da sociedade.

2.º Familiar. A família é o lugar natural onde os idosos podem continuar sua existência. A convivência com os filhos e netos deveria ser um intercâmbio de dons, que cada um coloca em comum conforme sua situação e os avós muitas vezes são ainda muito preciosos na educação dos netos, em particular quando os pais estão ausentes pelo trabalho.

3.º Eclesial. "Na velhice, é mais fácil encontrar-se com Deus e com as realidades religiosas e espirituais mais altas, pois o espírito está mais aberto e disponível para Deus e para seu mistério" (Id., 160). É muito importante desenvolver uma espiritualidade da terceira idade, que ajude a superar a amargura e o negativismo, para dar aos idosos uma visão da vida cheia de otimismo, que leve à auto-estima e à auto-aceitação, à abertura no relacionamento com Deus e com os outros. Há muitos idosos na Igreja (a começar pelo papa) que dão (e podem dar ainda mais) um profundo testemunho de vida cristã e uma contribuição essencial para as atividades pastorais.

4.º Social. A legislação sobre os idosos no nosso país é boa, mas pouco aplicada. O sistema de aposentadoria impede a grande parte da população idosa o acesso a uma vida digna. Entre as várias instâncias públicas, é importante estimular e mobilizar os idosos a participarem nos Conselhos Nacional, Estadual e Municipal do Idoso.

Além disso, há todo o campo assistencial dos idosos que não podem ficar nas famílias, e são acolhidos nos asilos, centros de convivência, casas-lar, etc. Aqui há um amplo espaço para o voluntariado das comunidades cristãs. Enfim, é sumamente útil estimular os idosos a participarem de cursos, como os das universidades da terceira idade e de atividades produtivas, que permitem sua inserção na convivência social e promovem sua auto-estima.

MITOS E PRECONCEITOS

Alguns mitos sobre a velhice precisam ser desfeitos:

A inteligência diminui com a idade. Não diminui: haja vista a produção intelectual, artística, empresarial, social e religiosa de pessoas acima de 60,70,80 anos ou mais.

O idoso não aprende. Inverdade: as universidades da terceira idade estão aí para provar do que os alunos idosos são capazes.

O idoso perde a capacidade sexual. Inverdade: o que ocorre é a redução da freqüência das relações sexuais.

Idoso só deve conviver com idoso. Errado: ele tem que conviver com outras faixas etárias, dar e receber experiências, afeto, emoções, num processo de relação com pessoas de outras gerações.

Velhice é doença. Inverdade: esquecemos que a doença atinge pessoas de todas as idades. Há idosos sadios física e mentalmente, ativos, participantes, produtivos em todos os campos.

O idoso está mais perto da morte. Errado: na sociedade atual, todos estamos próximos da morte, em razão de doenças, acidentes de trânsito, falta de segurança, entre outros fatores.

Idoso não tem futuro. Inverdade: tem que se preparar sim, porque ele tem futuro: não deve morrer socialmente, mas se preparar para viver a aposentadoria. Em razão do tempo livre que vai ter, deve fazer um projeto de vida para esse novo tempo social.

O aposentado é mantido pelo governo. Inverdade: ele contribuiu durante trinta ou mais anos para a Previdência Social. Agora é hora de obter retorno das contribuições feitas. Aposentadoria não é dádiva, é justiça.

Do Texto-base da Campanha da Fraternidade 2003

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