Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - África
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SUDÃO - As ajudas internacionais favorecem a guerra "Mas nós ficaremos"- comprometem-se os missionários combonianos. Ernesto Arosio Um país destruído Dois milhões de mortos, milhares de mutilados e órfãos, dois milhões de prisioneiros na periferia de Cartum e milhões de prófugos em campos provisórios, ao longo das fronteiras do Chade, Uganda, Quênia, Etiópia e outros países que fazem fronteira com o Sudão. Estes são os números de uma guerra que dura há dezoito anos, cujo quadro é ainda mais trágico para a população negra do Sul, por falta de remédios, hospitais e comida, que morre vítima dos combates e da malária, do sarampo, de disenteria e outras tantas doenças. As raízes dessa guerras são antigas e profundas: desde o século passado, quando as populações negras eram caçadas pelos árabes do Norte para torná-las escravas. Continuou depois, quando o Sul, animista e cristão, foi agregado ao Norte, muçulmano, que continuava sua política de islamização forçada e o tráfico de escravos. Até pouco tempo atrás, falava-se de guerra de religião do Norte ou de libertação do Sul, mas uma veemente denúncia dos padres combonianos que lá trabalham revela uma trágica realidade. Ultimamente, a guerra é de todos contra todos, muçulmanos e cristãos contra grupos tribais que, antigos aliados, agora se posicionaram contra o Spla - exército de liberação popular do Sudão - por interesses imediatos, prontos a mudar de posição e de aliança, conforme a melhor oferta Os chefes das tribos querem riqueza e poder. O Sudão, como dizem os missionários que lá apostam suas vidas, é "uma vaca para tirar petróleo e diamantes". Petróleo que está nas mãos de russos e chineses. A denúncia dos missionários Os trinta missionários combonianos que trabalham no Sudão reuniram-se em Nairobi, no Quênia, para discutir a dramática situação do Sul e publicaram um documento, no mês de janeiro, em que expressam uma dúvida angustiante e um provocação: "a ajuda de um milhão e meio de dólares por dia que deveria ser aplicada na ajuda humanitária, pelo contrário, favorece uma guerra imoral e trágica que nada tem a ver com a liberação do povo .." e, numa desconcertante auto- acusação dizem que " as Ongs e as Igrejas contribuem para prolongar essa guerra com as ajudas humanitárias que, embora não intencionalmente, acabam por abastecer as facções em guerra". Perguntam-se, portanto, num grave dilema de consciência, se vale a pena continuar enviando ajuda humanitária, sabendo que, na sua quase totalidade, não somente não cumpre com sua finalidade, mas acaba nas mãos dos beligerantes. Alguns se perguntaram até se não era melhor cortar toda essa ajuda para forçar a paz. A inquietação dos trinta missionários combonianos explica-se pelo fato de que se encontram impotentes diante dessa situação que faz "progredir o despovoamento das aldeias, a carestia e impede aos pobres de ter um pouco de paz para reconstruir suas vidas e suas aldeias". " Os organismos humanitários, as Ongs e as Igrejas fazem o possível e o impossível para amenizar os efeitos dessa insana e incompressível guerra, distribuem ajudas que engolem um milhão e meio de dólares ao dia, o mesmo que o regime islâmico de Cartum gasta para manter a guerra". Essa é a clássica guerra suja, onde todos procuram somente os próprios interesses, tripudiando sobre a pele dos pobres, "que nada tem a ver com libertação, mas que se tornou uma imoral e trágica farsa", como denuncia o documento assinado. O regime islâmico do Norte persegue sua política de islamizar o Sul e despovoar as aldeias na região rica de petróleo. O Spla não mais representa o Sul, mas está dividido em inúmeras facções, cujos chefes querem regalias e porcentagens sobre as ajudas recebidas, enquanto o povo continua a morrer de fome. As Igrejas e as Ongs salvam os mais pobres Para Brenda Barton, representante do Programa Alimentar Mundial - PAM, encarregado pela Onu de amenizar a fome no Sudão, o documento assinado pelos missionários, que estão em primeira linha ajudando os mais pobres, é "um dilema, quando se analisa o sofrimento criado por essa guerra, sem esperança de rápida solução ". "De outro lado, para minimizar os efeitos denunciados, precisa-se mais ajuda em dólares. E esses irão cair, fatalmente, nas mãos dos beligerantes que acabarão comprando as armas e o povo continuará a sofrer". A falta de vontade internacional de pôr fim ao conflito vem dos interesses econômicos que estão em jogo. Sempre conforme a porta-voz da Onu, Brenda Barton, não são os missionário e as Ongs que têm poder de terminar uma guerra, mas "estas entidades, estando presentes nos lugares mais cruciais dos conflitos, são procuradas pelo povo que espera meios para sobreviver". Isso se torna um drama moral para esses operadores humanitários que, além de arriscarem diariamente a vida, ficam sempre mais impotentes diante da escassez das ajudas e do aumento das necessidades que precisariam aliviar. "Isso é angustiante - continua a porta-voz -, mas os missionários são os únicos que, ainda e apesar de tudo, têm a coragem de ficar e continuar". ...mas nós ficaremos Pe. Antonio La Braca, 64 anos, é um dos missionários que assinaram o documento de Nairobi e, há 14 anos, trabalha numa aldeia perdida no Sudão. Ele completa, numa entrevista ao jornal católico italiano Avvenire, que foi assinada a denúncia como uma provocação, confirmando que a atual guerra é "uma enorme farsa, um luta de poder, de negócios e de cupidez". O Sudão, na palavra de quem bem conhece a situação pela sua longa vivência, está reduzido a uma terra queimada, onde não há estradas, eletricidade, telefone. Existe somente o "nada" e a sobrevivência é possível somente pela enorme ajuda humanitária internacional, levada às aldeias por pequenos e médios aviões. Eles transportam alimentos e remédios, mas o custo é cada vez mais exorbitante. O pouco que ainda existe e funciona é devido aos esforços dos missionários e das Ongs. O padre explica seu desânimo porque o que eles fazem e as ajudas que conseguem acabam caindo nas mãos das facções armadas. Com isso, os missionários têm a impressão de que ajudam ainda mais os guerrilheiros que roubam e tiram do povo faminto . De outro lado, lamenta pe. Braca, se não prestassem essas ajuda, seria uma tragédia ainda maior. A presença dos padres e das Ongs é a única que ainda pode salvar, por isso, os missionários decidiram permanecer com os pobres, embora não consigam acabar com a guerra.
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