Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

COLÔMBIA: sonhando a paz

Gianfranco Zintu

Mampuján é um povoado do departamento de Bolívar, uma das regiões mais violentas da Colômbia. Seus 1300 habitantes, em menos de 24 horas, tiveram que abandonar a aldeia, suas casas, suas terras e tudo, ameaçados pelo grupo paramilitar, Autodefesas Unidas de Colômbia (AUC) e se refugiaram em Marialabaja, ocupando a escola de San Luis Beltrán, a Casa da Cultura ou procurando hospedagem em casas de amigos e familiares.

Entre dois fogos

A região está sendo submetida a sangrentos conflitos entre guerrilha, exército e paramilitares pelo domínio dessa zona estratégica. Até o momento, havia dominado a guerrilha e agora a ofensiva paramilitar pretende limpar o território dos guerrilheiros. Os deslocamentos forçados respondem ao objetivo de tirar qualquer tipo de apoio à guerrilha e matar os "sapos" (informantes da mesma). Os enfrentamentos contínuos criam uma situação de pânico e de terror entre a população civil que padece esta guerra absurda. Na luta entre a guerrilha e os paramilitares, quem perde, quem morre é o povo acusado de pertencer a um bando ou a outro.
Mampuján teve sorte: não mataram ninguém. Entretanto, está começando a sofrer todas as conseqüências do deslocamento: como resolver as necessidades básicas de alimentação, água, educação e saúde. As pequenas comunidades da paróquia lançaram o primeiro chamado à solidariedade e recolheram cerca de 3 toneladas de alimentos que serviram para suprir as necessidades, antes da chegada das instituições públicas e das Ongs. Depois de mais um mês, chegou a ajuda do governo, mas a corrupção soube aproveitar da situação para buscar seus interesses.
Corrupção, deslocamentos e falta de reformas sociais são alguns dos ingredientes que se apresentam em Marialabaja e que refletem a situação do país. Acrescente-se o tráfico de droga, no qual estão envolvidas todas as partes em guerra.

Os diálogos de paz

Neste contexto de violência, estão acontecendo diálogos de paz entre o governo e as Forças Armadas revolucionárias da Colômbia (Farc), o grupo guerrilheiro mais forte com cerca de 20 mil combatentes. Ele ocupa o sul do país, mas, com suas 90 frentes, está presente em todo o território colombiano, mantendo até milícias urbanas nas grandes cidades.
A violência cresceu durante os diálogos de paz e subiu muito o número de seqüestros e extorsões, em grande parte para exigir resgates com os quais financiar a guerrilha.
Como vão as negociações? A Farc procura o diálogo só com o governo. A sociedade civil, a Igreja, as agremiações não têm nenhum papel. O povo não tem voz: a Farc diz que o representa diante do governo e este contesta que os 20 mil homens do grupo não podem representar 40 milhões de cidadãos. É uma luta pelo poder, na qual a Farc se considera no mesmo nível do governo democrático.
O grupo conseguiu que o governo "desmilitarizasse" cinco municípios do sul da Colômbia (cerca de 42.000 km2), o que ajudou no avanço dos diálogos, porém, levou a muito abuso de poder, sobretudo, porque este território passou a ser utilizado como plataforma para organizar e realizar ataques contra povoados em vários lugares do país. Muitos - entre eles, as agremiações econômicas e alguns meios de comunicação - consideram que o presidente da Colômbia, tem sido muito complacente e generoso perante a atitude prepotente e desafiadora da Farc. Diante disso, quase todos os setores da sociedade estão pedindo a Pastrana e a seu novo Alto Comissário pela Paz, Camilo Gómez Alzate, firmeza na mesa de negociação.
Tudo isso faz prever que as perspectivas futuras para alcançar a paz são incertas e a longo prazo. O conflito se estenderá pelas cidades e a violência crescerá ainda mais. A Farc fecha os olhos e os ouvidos diante da rejeição popular dos atos políticos e militares que provocam morte e destruição, justificando que isso responde à lógica da luta pela construção de um novo poder e, sobretudo, acusando os meios de comunicação.
A violência não vai cessar se não se chegar a um acordo, o mais rápido possível, sobre o respeito às normas do Direito Internacional Humanitário (DIH), ao cessar fogo multilateral e não se acabar com a conivência do Estado em relação à atividade criminal dos grupos paramilitares e à corrupção administrativa, que se generalizou no país.
Não é suficiente também chegar a um acordo de paz; é necessário iniciar um caminho de democracia, de justiça social e de reconciliação nacional. Neste contexto, a sociedade civil, a Igreja, as agremiações, os meios de comunicação, de maneira autônoma do governo, da guerrilha e dos paramilitares, deveriam apoiar todas as iniciativas que contribuíssem para a criação de maiores níveis de confiança e otimismo na mesa de negociação. Temas como o cessar fogo multilateral, o respeito à população civil, o início de um programa-piloto de cultivos alternativos à coca, a troca de prisioneiros de guerra, entre outros, podem transformar esses acordos numa realidade que traga um futuro de dignidade para o povo colombiano.

VIOLAÇÕES AO DIH DE JANEIRO A MARÇO DE 2000

  • Comunidades ameaçadas
    · pela Farc: 15 · pelo ELN: 3
    · pela AUC: 29 · pelos paramilitares: 19

 

  • Civis assassinados
    · pela Farc: 72 · pelo ELN: 13
    · pela AUC: 105 · pelos paramilitares: 144

 

  • A cada 3 horas acontece um seqüestro.
    Está aumentando o seqüestro de crianças.

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