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Congresso Nacional ao fundo

Costanzo Donegana

A crise argentina é profunda, mas aparecem sinais de esperança

Em 1928, a Argentina era a sexta potência econômica mundial. Em 1948, tinha mais carros que a França e mais telefones que o Japão e a Itá-lia. Não lhe faltam os recursos naturais (petróleo, mar rico, terra fértil, minerais) nem o capital humano (população homogênea e níveis de instrução avançados). O que aconteceu agora para que esse país mergulhasse numa crise sem aparentes sinais de saída?

A crise traduz-se brutalmente em números: U$164 bilhões de dívida pública; 3,4 milhões de aposentados numa população de 30 milhões de habitantes; 3 milhões de desempregados sem nenhum subsídio (23%), 8 milhões de trabalhadores com baixíssimo poder aquisitivo, aos quais se devem agregar 3 milhões de pessoas sem trabalho fixo; 44,2% da população urbana vive abaixo do nível de pobreza, isto é, 9% a mais do que em 2000. Em valores absolutos, os pobres passaram de 11,2 milhões, em 2000, a 14,8 milhões, em 2001.

Várias leituras estão sendo feitas, mas, muitas delas, formuladas até por conceituados estudiosos e organismos financeiros internacionais, não conseguem atingir as raízes do problema, levando a receitas que pioram a doença ou a uma resignada aceitação de impotência.

As raízes

No dia 19 de dezembro passado, a população explodiu numa onda de violência, com saques a supermercados e lojas. No dia seguinte, saiu às ruas, batendo nas panelas vazias (panelaço) para repudiar, quase por desespero, a velha classe dirigente do país em todos os níveis. A história que levou a essas reações é longa, mas pode ser resumida em alguns pontos essenciais.

A ditadura militar (1976-1983), além de instaurar o terrorismo de estado que produziu 25 mil desaparecidos, efetuou uma transformação essencial na estrutura econômica da Argentina, com um retrocesso da industrialização que, antes, se havia modernizado de maneira notável.

Voltando à democracia com o governo de Alfonsín (1983-89), “consolidou-se um modelo econômico, que deixou a nação sem defesa frente às exigências do capital internacional, consentindo a concentração da renda em um número cada vez menor de mãos, o abocanhamento dos lucros por parte dos investidores estrangeiros e a queda da qualidade de vida dos trabalhadores argentinos que, no passado, exibiam um nível de vida superior aos outros assalariados da América Latina” (Washington Uranga).

A situação piorou ainda mais nos dois governos de Carlos Menem (1989-99), sobretudo pela política econômica do Ministro da Fazenda Domingo Felipe Cavallo. Ele inventou a “convertibilidade”, isto é, a paridade entre peso argentino e dólar, que valeu de 1991 a 2002, com a qual se venceu a altíssima hiperinflação deixada por Alfonsín, mas à custa do empobrecimento dos trabalhadores em proveito das empresas e do setor financeiro, nacional e internacional. Venderam-se empresas e bens estatais; foram contraídos empréstimos internacionais, condicionados a uma política de fidelidade absoluta aos Estados Unidos e uma obediência total às exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI). A dívida externa multiplicou-se por seis vezes, durante os governos de Menem. A responsabilidade do FMI na crise não foi pequena, porque apoiou e determinou as escolhas econômicas da Argentina, segundo critérios que privilegiavam o capital e o mercado à custa do social. O fracasso do país acabou prejudicando sua credibilidade, por ter apresentado a política de Cavallo como exemplo ao mundo.


Mães da Praça de Maio

Falta de confiança

Para atrair os investidores privados e os capitais estrangeiros, foram estabelecidas condições absolutamente favoráveis que lhes garantiram enormes lucros.

Os bancos internacionais “se criaram na Argentina uma espécie de ‘paraíso’, cobrando juros dez vezes superiores aos do mercado internacional e acumulando lucros que não foram reinvestidos no país, e sim enviados para a matriz e os centros do poder financeiro internacional” (Id.).

Ao lado disso, é preciso acrescentar a corrupção generalizada. O legislativo, junto com funcionários de todos os níveis, aprovou leis, decretos e regulamentos que favoreciam os investidores, criando um autêntico sistema predatório e embolsando, como recompensa, volumosas quantias de dinheiro. O próprio presidente Menem e vários ministros envolveram-se em contrabando de armas com o Equador e a Croácia. Para poder agir impunemente, Menem criou uma Corte Suprema de Justiça, composta por amigos que sempre se pronunciavam a favor do governo. A corrupção, porém, não é exclusiva das classes dirigentes, porque está alastrada entre a própria população. Um dado impressionante são os 130 bilhões de dólares que saíram do país: quase o equivalente ao total da dívida pública!

Vários analistas definem a crise argentina com a palavra “falta de confiança”, que se manifesta na sensação de não ter rumo, de manter divisões ainda não resolvidas, feridas que não cicatrizam, frustrações que se alternam com euforias consumistas. A Argentina é um país setorizado, individualista, tentado pelo desespero e pela vontade de fazer justiça com as próprias mãos, com massas de excluídos que nunca houve antes. E volta a aflorar a saudade de ideologias autoritárias como caminho para resolver os problemas. É a falta de “capital social”, isto é, da procura do bem comum, que determina a crise econômica e não vice-versa.

A Igreja

Nesse contexto, a Igreja não só manteve, mas aumentou sua confiabilidade diante do povo. De fato, não só sobe adiantar-se com força e clareza na denúncia, mas há muito tempo está mobilizando a solidariedade com um compromisso efetivo.

A Caritas é a organização não-governamental mais confiável e eficaz do país na assistência social. Isso animou a Igreja a dar um passo à frente na profundidade da crise. Assim, com um gesto “inédito” (como ela mesma afirmou), decidiu oferecer-se como espaço de diálogo entre todos os setores.

Trata-se de uma comissão chamada Mesa de Diálogo Argentino, convocada em janeiro pelo presidente Eduardo Duhalde, por sugestão do episcopado. Dela fazem parte três bispos católicos; um senador e um deputado, representando o mundo político; o vice-chefe do gabinete, como representante do governo, e um representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A presença deste organismo da ONU está se revelando fundamental pelo apoio técnico e pela sua autoridade moral. A Mesa de Diálogo começou a emitir propostas concretas, como a reforma do estado e o subsídio geral à indigência, em favor de 2 milhões de chefes de família desempregados. O sucesso “político” desse espaço de confronto está levando a multiplicá-lo em nível local, nos municípios e nos bairros.

Apesar da gravidade da crise – ou melhor, exatamente por isso –, está despertando em muitos argentinos um novo amor pela pátria e valorizando-se mais o que se ganha com o próprio trabalho. Multiplicam-se os pontos de encontro e debate e as iniciativas de solidariedade. Nasceram os “clubes del trueque”, onde o povo compra e vende os bens com o sistema da troca direta ou usando uma moeda criada por eles, os “créditos”.

Por outro lado, a desvalorização do peso leva a prever também efeitos positivos, como uma maior competitividade nas exportações e o incremento do turismo. Ao mesmo tempo, o repúdio da população aos velhos políticos pode ser o início de uma depuração que abra espaços para forças novas.

São pequenas luzes que ainda não chegam a iluminar de maneira determinante a crise argentina.
Mas autorizam a esperar.

Esta matéria deve muito à redação de Ciudad Nueva, Buenos Aires.

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