| SOMOS HISPÂNICOS!
Luigina Barella
A menor das Grandes Antilhas, quase um Estado americano, luta com a arma
da língua contra a colonização dos Estados Unidos
Os habitantes de Porto Rico defendem, há um século, sua
identidade cultural, recusando o inglês. Mas por que os porto-riquenhos
se obstinam em não querer a anexação aos Estados
Unidos, apesar das vantagens que teriam, e preferem a língua imposta
pelos colonizadores espanhóis? A resposta deve ser procurada no
desejo de defender, a qualquer custo, a própria identidade, afirma
o diplomático, jornalista e acadêmico porto-riquenho, Ramón-Darío
Molinary. Foi a consciência de serem "hispânicos"
que livrou os habitantes da pequena ilha do predomínio da maior
potência mundial.
A história dos últimos cem anos é prova disso. Em
1897, Porto Rico consegue da Espanha a promessa de independência,
depois de quatro séculos de regime colonial, mas é cedido
por Madri aos Estados Unidos que, no ano seguinte, o invadem com seu exército.
A verdadeira "conquista" continua através da tentativa
sutil, nunca declarada abertamente, de assimilar culturalmente Porto Rico,
impondo valores e costumes norte-americanos, totalmente estranhos à
população. Em 1902, é imposto o inglês como
língua oficial junto com o espanhol. A escola pública torna-se
o instrumento principal utilizado para debilitar, ou até anular,
a herança hispânica, para fazer esquecer a história
e as raízes culturais da população. Aos alunos é
proposta com insistência simulada a adesão a novos valores,
importados de Washington.
Politicamente, Porto Rico é um Estado livre associado aos Estados
Unidos. Seus habitantes são cidadãos dos EUA, com os mesmos
benefícios sociais, sem, porém, os mesmos direitos dos outros
cidadãos norte-americanos. Não podem eleger o presidente
nem têm representantes no Congresso. Elegem, a cada quatro ano,
seu governador e Parlamento. Gozam da isenção dos impostos
federais.
Todos, em Porto Rico, estão conscientes de que a estabilidade econômica
da ilha depende dos EUA; poucos, porém, estão dispostos
a aceitar que a condição de Estado associado inclua necessariamente
a fusão cultural com a poderosa nação do norte. A
"guerra da língua" demonstra que a população
quer defender sua identidade todas as vezes que um ou outro dos governadores
tenta mudar a "lei da língua oficial única" (1949),
que determina que o ensino na escola pública seja feito somente
em espanhol. "Porto Rico não é uma ilha bilíngüe,
mas um centro significativo, criador de cultura hispânica, onde
é utilizado também o inglês como instrumento de comunicação",
frisa Ramón-Darío Molinary.
Por outro lado, ninguém nega as vantagens que a população
pôde gozar com o fim da colonização espanhola. Um
exemplo: Porto Rico, que é hoje um dos países mais alfabetizados
da América (89,3% da população), no momento em que
foi cedido aos EUA, não tinha nenhuma universidade.
Os meios de comunicação social tiveram e continuam tendo
um papel muito importante na preservação da cultura local.
Os dois principais diários em idioma espanhol, El Nuevo Dia e El
Vocero imprimem, juntos, mais de 600 mil exemplares, superando de maneira
esmagadora os 35 mil exemplares do diário inglês The San
Juan que, para sobreviver, tem que publicar também uma edição
em espanhol. O mesmo acontece com as rádios (somente cinco das
128 emissoras do país transmitem em inglês) e com a televisão,
embora a tendência mostre que os programas via cabo irão
se impor no futuro.
Conforme uma recente pesquisa do Ateneo Puertorriqueño, a principal
entidade acadêmica da ilha, 20% da população é
bilíngüe, enquanto só 40% pode entender, falar e escrever
o inglês. Portanto, 60% dos quase 4 milhões de habitantes
pode ter acesso só a jornais, rádios e TVs em espanhol.
Quem opera nos meios de comunicação, lembra Molinary, deve
ter a consciência de exercer um papel essencial na defesa da língua.
O inglês, apesar de ser a língua da ciência, da tecnologia
e do comércio, não pode ser anteposto ao espanhol, que é
o máximo símbolo da identidade e da consciência nacional.
Olhando a história do último século de tentativas
contínuas de colonização por parte dos EUA, parece
um milagre o fato de a população de Porto Rico continuar
a falar o idioma espanhol. Para eles, é questão de vida
ou de morte da própria identidade. "Não queremos renunciar
a ser puertorricanos, afirma Molinary, para não chegar a sermos
muertorriqueños".
ETAPAS DE UMA LUTA
· 1493: Cristóvão Colombo desembarca em Boriquén
que, com o nome de Puerto Rico, será colônia espanhola por
quatro séculos.
· 1897: a Espanha promete a independência.
· 1898: Porto Rico é cedido pela Espanha aos Estados Unidos.
· 1902: o inglês é imposto como língua oficial
junto com o espanhol.
· 1917: os EUA reconhecem Porto Rico como região parcialmente
autônoma, com o direito de cidadania americana aos habitantes.
· 1947: é reconhecido o direito de ter um governador.
· 1949: o espanhol é língua única nas escolas
públicas.
· 1952: torna-se estado livre associado.
· 1993 e 1998: dois referendos em que a população
rechaça a anexação como Estado da União, mas
também a independência total, e confirma o estatuto de Estado
livre associado.
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