Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Américas

A QUEDA DE FUJIMORI

O escândalo de Montesinos, o onipotente assessor de Fujimori, leva para o abismo também o presidente

José Maria Guerreiro

O resultado das fraudulentas eleições de 28 de maio, no Peru, pareceu a cosagração de Alberto Fujimori (apelado "el Chino"por sua origem japonesa). Quando, dois meses depois, ele tomou posse para iniciar seu terceiro mandato, aquela vitória tinha-se tornado um triunfo: o número dos parlamentares que o apoiavam havia passado de 52 a 75. A explicação desta passagem maciça da oposição ao governismo apareceu escandalosamente no vídeo publicado em 14 de setembro, mostrando o homem de confiança do presidente, Vladimiro Montesinos, comprando um deputado oposicionista por 15 mil dólares.

Vladimiro Montesinos

Aquele vídeo foi a gota que fez transbordar o vaso, colocando diante dos olhos de todos a corrupção dominante no regime de Fujimori e a onipotência de Montesinos, que depois de ter sido expulso do exército, escapando de um processo por espionagem a serviço da CIA, tinha-se tornado o poder oculto do ditador peruano. No momento do escândalo do vídeo, 10 dos 13 máximos cargos militares na ativa tinham sido nomeados por ele. Foi com o apoio e a assessoria de Montesinos que Fujmori pôde derrotar surpreendentemente Mario Vargas Llosa nas eleições presidenciais de 1990 e iniciar sua subida ao poder, no qual se estabilizou por dez anos. Na sinistra aliança, Fujmori colocava a cara, a popularidade e o carisma e Montesinos penetrava pelas podres trilhas das instituições peruanas e lhe segurava o apoio do exército.
Alguns quiseram ver em Fujimori uma possibilidade de renovação, mas a ilusão durou só dois anos: neste período, com seu governo autoritário, as instituições democráticas, vazias de conteúdo, pareciam florescer. O grande amigo do Norte olhava intencionalmente de outro lado: afinal de contas, "el Chino"demonstrava sempre ter o sentido da autoridade, eficácia e fidelidade sem rachaduras. O Departamento de Estado recebeu provas concretas disso: com uma rapidez inesperada, foi-lhe servida em bandeja de ouro a cabeça de Abimael Guzmán, líder do alucinado Sendero Luminoso. Poucos meses depois, seguiria todo o estado maior do movimento. Também as vitórias sobre os cartéis da droga foram indiscutíveis.
Com o vento que soprava em popa e a inflação em queda livre, Fujimori sentiu-se o verdadeiro libertador do Peru, como Simon Bolívar. Fiel discípulo do Fundo Monetário Internacional, pagava pontualmente suas dívidas, atraía investimentos e, coisa mais importante, conseguiu que o mundo - Estados Unidos em particular - esquecesse por alguns anos que seu sistema era apenas uma autocracia mal maquiada.
Enquanto isso, na sombra, Montesinos ia tecendo a teia de aranha que acabaria por prender seu arquiteto. Fiel a sua fama e a seu passado, Montesinos, como "simples assessor presidencial", converteu o Serviço de Inteligência Nacional (SIN) numa verdadeira polícia política e, com a ajuda de seus ex-colegas do exército, dedicou-se a todo tipo de negócios ilegais, até adentrar-se em terrenos movediços: tráfico de armas e narcotráfico. Parte destas armas começou a chegar até aos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Foi neste momento que em Washington acenderam-se as luzes de alarme.

A queda

No campo social, o brilho dos grandes resultados macroeconômicos não conseguiu acarretar um mínimo de prosperidade para a grande massa dos excluídos. Então, a popularidade de Fujimori começou a despencar de maneira vertiginosa. Nesse momento, apareceu Alejandro Toledo, um descendente de indígenas, culto e flexível. Criou-se "Peru Possível" e, pela primeira vez, "el Chino" viu-se em sérios apuros. Mas Montesinos tinha previsto tudo. Nas eleições de abril passado, a fraude foi tão monumental que Toledo teve de se retirar no segundo turno por absoluta falta de garantia.
Foi durante essas eleições que alguém em Washington disse basta. O embaixador dos Estados Unidos no Peru protestou furiosamente e apontou com o dedo Montesinos e o SIN. A Organização dos Estados Americanos recobrou coragem e condenou as votações. Os Estados Unidos não estavam mais dispostos a tolerar uma situação que ameaçava dcontagiar outros países vizinhos, numa época em que a doutrina oficial é favorável à estabilidade democrática frente aos sistemas autoritários. Sem esquecer o tráfico de drogas e a venda de armas à guerrilha colombiana. Mas como organizar a queda de Fujimori e de seu regime?
Os Estados Unidos têm nos países latino-americanos fortes aliados nos jovens oficiais que saem da Escola das Américas e se promovem rapidamente nas respectivas nações. Foram eles que teceram a armadilha contra Montesinos. Ele caiu e arrastou consigo seu chefe. Fujimori, então, convocou eleições gerais para 8 de abril de 2001, comprometendo-se a não participar.
Montesinos fugiu em setembro para o Panamá, porém, pouco depois, voltou para o Peru, onde está escondido. A cada dia vêm à tona provas contra ele. O governo da Suíça anunciou ter detectado 48 milhões de dólares em contas de Montesinos nos bancos daquele país. E mais contas gordas existem em outras nações.
Fujimori, na tentativa inútil de distanciar-se do seu ex-assessor, montou uma peça de teatro ridícula: assumiu pessoalmente a caça de Montesinos, dirigindo as operações da polícia e do exército e declarando a todos os ventos que, quando Montesinos for preso, será condenado à prisão perpétua. Apesar de tudo isso, porém, declarações mostram, sem perigo de contestação, o cordão umbilical que o ligava a Montesinos.
No dia 13 de novembro, Fujimori saiu clandestinamente do país, dirigindo-se ao sultanato de Brunei (sudeste asiático) , para participar do Fórum da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico, mas, de fato, foi para o Japão. E dali, no dia 19 de novembro, enviou para o Peru sua demissão da presidência. "Covarde", definiu-o a opinião pública peruana, diante desta renúncia feita no exterior. Por isso, todos se perguntam: "Terá a coragem de voltar para o país e enfrentar a justiça"?

De "Acción", outubro de 2000. Traduzido e adaptado por Costanzo Donegana.

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